- Aqui. - Estendi a sacola em sua direção, Raquel hesitou, como vinha fazendo em tudo que tinha relação comigo. Mas por outro lado, havia gratidão em seus olhos quando as mãos delicadas pegaram a bolsa plástica com medicamentos.
- Obrigada, isso vai me ajudar muito. - Comentou constrangida, as bochechas ganhando um leve tom rosado.
Ela sentia vergonha de aceitar alguns medicamentos?
Me arrependi de ter insinuado que ela usava sua beleza para atrair os homens, eu devia ter me desculpado por ofendê-la quando lhe fiz as perguntas mais cedo, mas tudo que eu disse foi:
- Você está com fome?
Raquel negou.
- Eu comi no hospital.
- Certo. - Assenti. - Entre no carro, posso te dar uma carona. Para onde vai?
Recebi o silêncio como resposta. Raquel desviou o olhar, abaixando a cabeça e negando.
- Eu não tenho para onde ir. Eu... eu preciso resolver algumas coisas.
Franzi o espaço entre as sobrancelhas. Não tem? Como assim não tem para onde ir? Raquel parecia desnorteada, questionei-me se tinha sido certo liberá-la do pronto-socorro naquele estado.
- Não está em condições de resolver nada. Você não tem família por perto? Nenhum parente com quem possa ficar?
Raquel balançou a cabeça, negando. Sua pele branca parecia mais pálida que o normal. Talvez ela tivesse parentes e não se lembrasse deles.
- Não tenho mais, mas eu vou dar um jeito, está tudo bem.
Dar um jeito significava se envolver em situações perigosas e arriscadas que talvez a levassem para mais situações bizarras, como atravessar uma avenida correndo sem olhar para os lados no meio da madrugada.
- Desculpa pelo transtorno, eu... - Raquel tinha medo, eu podia ver em seus olhos e na forma como ela portava o próprio corpo. Mantendo uma distância segura de mim e os ombros encolhidos enquanto falava. - Não quis atrapalhar sua noite quando tudo aconteceu.
- Foi um acidente. - Concluí, começando a me sentir responsável pelo caso de deixar essa garota sozinha por aí largada à própria sorte e ao estado mental duvidoso.
A irritação cresceu dentro de mim, correndo pelas minhas veias. A última coisa que eu precisava era me sentir responsável por alguém agora. Aquela maldita casa em que eu vivia era grande demais para permitir que eu fosse embora com a consciência tranquila. Essa garota não iria conseguir ficar vagando por aí com uma contusão no tornozelo que a fazia mancar. Respirei profundamente antes de fazer uma loucura.
- Pode ficar em minha casa, se quiser. - Seus grandes olhos verdes piscaram surpresos. - O imóvel é grande, tem quarto de hóspedes, você poderia descansar e ter privacidade até melhorar e decidir o que fazer.
Raquel pareceu entrar em um conflito interno e eu me amaldiçoei em pensamento, quanto mais tentava não parecer um lunático, mais eu parecia exatamente isso.
- Eu não posso. - Respondeu ela. Minha curiosidade gritou alto, eu queria saber por que ela me olhava daquele jeito, por que parecia ter medo de mim.
Raquel estava dividida, eu só precisava de mais alguma insistência.
- Se você não tem para onde ir, é sua melhor opção no momento. Entendo que não se deve aceitar estadia de um estranho, mas eu sou uma autoridade policial. Vai estar segura, a não ser que tenha cometido um crime.
Lancei a última frase de propósito, apenas para observar sua reação. Raquel soltou o ar pela boca, negando prontamente.
- Eu não fiz nada. - Seus ombros se encolheram ainda mais. Quanto tempo uma garota frágil como ela poderia ficar jogada à própria sorte sem que nada lhe acontecesse?
Raquel era de baixa estatura, sua pele clara com certeza não devia estar tão pálida, mas ainda assim sua beleza era chamativa. Os olhos verdes grandes e arredondados eram emoldurados por uma espessa cortina de cílios e contrastavam com o nariz pequeno e os lábios cheios.
Não duraria duas noites ao relento até que algum maníaco tentasse violentá-la.
- Quem não deve, não teme. Preciso que decida se vai aceitar ou se vai preferir ficar na rua contando com a sorte.
As íris verdes fitaram o vazio, seus lábios rosados formaram uma linha reta enquanto ela considerava todas as possibilidades. Eu estava prestes a virar as costas e partir quando ela se pronunciou.
- É só até eu ficar boa do tornozelo, eu vou procurar um trabalho e alugar um quarto para sair da sua casa o mais rápido possível. - Disse em tom baixo
- Que eu me lembre, não estipulei nenhuma data de saída. - Virei as costas, indo até o lado do motorista. O carro já estava ligado quando Raquel se acomodou no banco do carona.
O silêncio pairou em todo o caminho até a minha casa. Depois de estacionar, Raquel me acompanhou até a porta da frente, a primeira coisa que vi ao abrir a porta foi mais uma almofada destruída no chão. Essa era a última, Holly tinha destruído todas as almofadas daquela casa, tinha espumas de enchimento espalhadas por todo lugar. Talvez eu devesse ter pensando em arrumar a sala antes de trazê-la, mas uma casa bagunçada ainda era uma casa.
Holly veio até nós abanando o r**o quando entramos, ela passou direto por mim e se aproximou de Raquel, cheirando seus pés e joelhos. Raquel lhe ofereceu uma das mãos para que cheirasse e ela o fez, deixando uma lambida no local logo depois.
Franzi o espaço entre as sobrancelhas. Tirando a mania de destruir as coisas para mostrar que estava insatisfeita com a solidão, Holly era uma boa c****a, ela não costumava atacar estranhos a não ser que sentisse algum sinal de perigo vindo deles, mas também não costumava demonstrar qualquer sinal de afeto a qualquer um com facilidade. O normal seria ela ignorar a presença da nossa hóspede depois de captar o cheiro dela, mas Raquel tinha ganhado uma lambida, o que significava que Holly havia mesmo gostado dela.
- Essa é a Holly. - Pela primeira vez desde que conheci Raquel vi um sorriso tímido se formar em seu rosto enquanto ela acariciava o pêlo da c****a.
- Oi, Holly. - A c****a rodeou suas pernas enquanto abanava o r**o e passou a nos seguir pela casa.
- O quarto de hóspedes fica por aqui.
A guiei até o cômodo, se não fosse pela dona Janete, que limpava minha casa semanalmente, o lugar estaria mergulhado em poeira e teias de aranha. Não sabia dizer ao certo quanto tempo fazia desde a última vez que recebi alguém na minha casa.
O quarto estava limpo e arrumado, as cortinas presas permitiam que a luz do sol passasse entre o vidro transparente da janela, que até então estava fechada. Eu a abri para que o ar circulasse, Raquel observava tudo com curiosidade.
- A cama é confortável e tem água quente no chuveiro do banheiro da suíte. Há toalhas limpas no armário caso queira tomar banho antes de descansar. Saímos para comprar comida na hora do almoço. - Raquel assentiu, andando devagar até o centro do quarto. Eu a deixei com sua desconfiança e saí do cômodo sem dizer mais nada.
Eu estava intrigado.
Quando entrei no banho me perguntei que porcaria é essa que eu tinha acabado de fazer. Enquanto a água quente descia pelo meu corpo tive uma sensação estranha que eu não tinha há tempos, não conseguia me sentir cem por cento à vontade. Tinha uma mulher na minha casa, uma mulher estranha.
Não era como se eu pudesse circular pela casa sem roupas depois do banho ou agir como se estivesse sozinho. Imaginar a reação da minha família ao saber que tinha uma mulher na minha casa me fez bufar irritado, até explicar que as coisas não eram o que pareciam ser eu teria que aguentar a expectativa no olhar deles e a felicidade sem sentido no olhar de Alice, minha irmã mais nova.
Maldita hora que essa mulher entrou na frente do meu carro.
Depois do banho deitei na minha cama tentando relaxar as costas. Eu queria dormir, havia uma parte do meu cérebro que nunca desligava e que implorava por uma boa noite de descanso, como eu não conseguia ter há três anos. Puxei o ar pelos pulmões, três anos pareciam uma eternidade, eu me via cada dia mais distante da realidade que vivi um dia.
Aquele tempo e todo o sofrimento que atravessei, todas as injustiças me transformaram em uma versão de mim que eu gostaria que não existisse. Havia um buraco no meu peito onde já havia existido um coração um dia, só restou uma ferida que nunca criava casca e parecia longe de cicatrizar. Um vazio enorme que parecia ser maior do que eu e que latejava, não me deixando esquecer de que fui completo um dia e que hoje não tenho mais nada, nada além de dor, solidão, insônia e uma coleção de inúmeras consultas com psicólogos que nunca resultaram em nada.
Vingança era a única coisa que me movia, que me mantinha vivo e respirando. Talvez depois disso eu pudesse ter um pouco de paz, apenas talvez. Eu não tinha nenhuma garantia, mas em paz ou não eu iria fazer aquele maldito pagar por tudo que tinha feito.
Fechei os olhos, quase podendo enxergar o rosto de Lisa, eu sabia que ela jamais aprovaria minha atitude. Minha busca por vingança era desconhecida pela corporação, eu estava fazendo tudo por debaixo dos panos e não tinha mais medo das consequências. Eu já tinha perdido tudo, perder um pouco mais não faria diferença.
Eu queria poder dizer a Lisa que eu não seguiria os conselhos que ela havia me dado por tanto tempo porque eu não era mais o mesmo de antigamente. Agora eu era o que tinham feito de mim, dane-se a corporação. Se eu havia chegado ao extremo de buscar justiça por conta própria era porque a justiça não tinha servido para fazer o seu papel, ou porque a justiça brasileira tratava de permitir com que criminosos subissem ao poder e protegessem outros criminosos.
Tudo que consegui foi fechar os olhos por trinta minutos.
Já passava da uma da tarde quando me levantei, Raquel devia estar com fome e eu havia prometido ir comprar comida. Quando fui para sala a encontrei sentada na ponta do sofá, apesar de ainda vestir as mesmas roupas largas seus cabelos estavam úmidos e um aroma fresco exalava pelo lugar.
Holly já tinha feito amizade com Raquel e tirava proveito dela enquanto descansava a cabeça em suas pernas.
Raquel levantou em um rompante ao me ver, como se tivesse acabado de ser pega fazendo uma coisa errada. Pela visão periférica notei que a sala estava limpa, os restos de almofadas destruídas haviam sido tirados dali.
- Eu achei que podia esperar aqui. - Raquel se justificou.
- Tudo bem. - Peguei a chave no carro do chaveiro perto da porta. - Vamos.
- Nós vamos comer aqui? - Perguntou ela antes de sairmos.
- Você quer comer aqui? - Raquel piscou, hesitante. Assentiu confirmando. - Não temos tempo agora. Sabe cozinhar? Podemos ir ao mercado comprar algo para mais tarde, assim não será preciso ir comer em outro lugar no jantar também.
- Sei cozinhar qualquer coisa. Eu posso fazer isso. - Disse ela, parecendo aliviada por poder contribuir.
Ao entrarmos no carro eu me dei conta de que não tinha oferecido roupas a ela, talvez por isso Raquel tenha se preocupado em comer em casa e não em um restaurante.
- Antes de comer, vamos comprar algumas roupas para você. - Resmunguei ao dar partida com o carro.
- Não. Não precisa, por favor. Não tem que se preocupar comigo.
- Você tem outras roupas? - Eu quis saber.
- Não, mas posso conseguir.
- E por que não comprar? - Argumentei.
- Porque perdi minha bolsa com o dinheiro que eu tinha. Você já comprou remédios, me ofereceu estadia e comida. Posso conseguir doações em igrejas e na vizinhança, não é difícil conseguir algumas roupas.
Eu me esquivei de pedir desculpas mais cedo, mas julguei necessário fazê-lo agora.
- Me desculpe pelo que eu disse no pronto-socorro, eu só estava irritado por ter perdido um... compromisso.
- Não fiz de propósito. - Eu a encarei rapidamente.
- Sei que não, desculpe por ter insinuado que atraía os homens com segundas intenções. Eu não devia ter dito aquilo e não é o que penso na verdade. Não se sinta ofendida, mas eu realmente acho que vai se sentir mais à vontade se comprarmos roupas antes de pararmos em algum lugar para comprar comida.
Eu vi que ela estava considerando aceitar quando falei sobre se sentir à vontade. Ela estava desconfortável com a forma como se parecia, qualquer mulher estaria. Eu tinha um armário cheio de roupas femininas em casa, roupas que eu não queria ver em mais ninguém, mas que provavelmente serviriam nela.
Só que eu ainda não estava pronto.
- Só se eu puder pagar de alguma forma. - Ela soltou finalmente.
Dei de ombros.
- Vai cozinhar o jantar, não vai?
- Mas não é o bastante. Eu posso ajudar cuidando da casa e mantendo tudo limpo e arrumado.
- Já tenho uma pessoa que faz isso, não há nenhuma chance de dispensá-la. Mas eu vi que Holly gostou de você, e ela não costuma gostar tanto assim de estranhos, pode entretê-la enquanto eu estiver trabalhando, quem sabe passear com ela. Holly está com problemas de comportamento.
- Ela parece calma.
- Ela era. Mas ultimamente está protestando por causa do tempo que a deixo sozinha, destruindo almofadas e outras coisas na casa.
A sombra de um sorriso apareceu no rosto dela.
- Ninguém gosta de ficar sozinho. Eu posso cozinhar e cuidar dela.
O silêncio pairou no restante do trajeto até pararmos em uma loja de roupas femininas, Raquel não aceitou mais do que três mudas de roupa. Pedi a uma atendente que pegasse algumas roupas íntimas e outros produtos que mulheres poderiam precisar sem que Raquel visse. Não me importava em gastar, eu ganhava razoavelmente bem e não gastava muito com quase nada ultimamente. Além de comprar refeições prontas, não havia mais nada que eu sentisse vontade de comprar.
Raquel saiu do provador usando um vestido floral de cumprimento um pouco acima do joelho, a peça abraçava seu corpo até a cintura e tinha um caimento solto na parte da saia. Até aquele momento eu não tinha noção de como era seu corpo, visto que as peças que usou até então eram completamente largas. Raquel era dona de curvas bem delineadas, quadris largos na medida certa e s***s razoavelmente fartos, mas sem exageros. Coisas que eu não devia estar reparando.
- Tudo certo? - Perguntei-lhe.
- Sim. - Disse ela, ainda tímida.
- Certo. - Quando a atendente apareceu com as sacolas eu a deixei conversando com Raquel enquanto eu pagava pelas compras.
Eu me sentia cada vez mais instigado a saber mais sobre aquela mulher. Depois de pagar pelas encontrei Raquel esperando na entrada da loja, depois de colocar as sacolas no carro seguimos para o restaurante mais próximo. Durante o trajeto reparei Raquel encarando um cartão nas mãos.
- O que é isso?
- A atendente pediu para eu te dar o número dela. Eu... Eu acho que ela gostou de você. - Só podia ser brincadeira, lancei um olhar para Raquel, havia hesitação e receio em seus olhos. - Eu não devia me meter nisso, me desculpa.
- Ela te deu o cartão. Não foi culpa sua. - Raquel piscou duas vezes, concordando. - Coloque no porta-luvas.
Raquel obedeceu, seus dedos delicados tocaram o botão que abria o compartimento, assim que a tampa se abriu Raquel paralisou. Seu peito subiu e desceu enquanto ela puxava o ar devagar, seus lábios se abriram um pouco. Ela estava pálida de novo.
- Tudo bem? - Perguntei-lhe. Raquel engoliu seco antes de me afirmar.
- Sim. - Raquel deixou o cartão no compartimento e o fechou rápido. Ela fez o resto do trajeto em silêncio, senti os olhares que me lançava vez ou outra e quando finalmente paramos no restaurante eu a deixei sair do carro primeiro e abri o porta-luvas procurando o que havia mexido tanto com ela.
Era uma arma. Obviamente eu tinha porte de armas e deixava algumas a postos para o caso de precisar usar. Uma delas havia acabado de assustá-la.