CAPÍTULO 3 - HÓSPEDE PARTE 1

1017 Words
(Daniel Velasques) Depois de sair do hospital fui direto para a delegacia, mesmo depois do acidente eu trabalharia sem problemas durante o resto daquele dia. Como previa, fui impedido depois de saberem que estive envolvido em um acidente de carro, mesmo que eu tenha explicado que tudo acabou bem fui mandado de volta para casa. Dirigi até em casa sentindo uma nuvem de mau humor pairar sobre minha cabeça, não havia nada pior do que estar em casa em pleno dia de semana. Não para mim, pelo menos. Aquele espaço tinha se tornado meu inferno pessoal ao mesmo tempo que também era o meu santuário. Pensei em parar em qualquer lugar na rua para passar o tempo ou até em ir na casa dos meus pais, mas não queria socializar, então me conformei em ir mesmo para casa. Não fiquei surpreso ao abrir a porta da frente e encontrar mais uma almofada destruída no centro da sala, Holly havia passado de todos os limites e eu não estava com energia para repreendê-la. Depois de tomar um longo banho, o peso dos últimos acontecimentos pareceram se materializar no meu corpo, talvez agora eu conseguisse dormir direito por pelo menos algumas horas. Sem tomar um único remédio, segui para o quarto e joguei o corpo na minha cama. Não demorou muito tempo para que o sono me dominasse e aos poucos roubasse de vez a minha consciência. A voz era familiar, eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. O sominfantil e angelical logo ganhou forma, Júlia estava de novo em minha frente, seus cabelos dourados estavam bagunçados e a pele de seu rosto levemente avermelhada, como ficava quando ela tinha raiva ou quando chorava muito. - Papai! - Suas mãos pequenas e rechonchudas estavam novamente estendidas em minha direção. Em seu pequeno rosto, eu via a expressão de dor e agonia enquanto ela gritava por socorro. Eu não conseguia me mover nenhum centímetro sequer, estava paralisado e totalmente impotente enquanto assistia ela tentar se desprender das ferragens depois da batida. Aos poucos, o conjunto de blusa e calça rosa que ela usava ganhava um tom avermelhado, mas seu choro não enfraquecia, apenas ficava mais alto e forte a cada tentativa dela de se ver livre dos destroços. Tentei gritar por ajuda, coloquei toda força que existia em meu ser para fazer um único movimento, qualquer coisa que pudesse salvá-la, mas nada aconteceu. Era um completo desespero, seus gritos traziam dores físicas em meu corpo e feridas irreversíveis na minha alma. Eu já tinha vivido aquilo antes, sabia que era apenas um sonho, mas estava prestes a perdê-la mais uma vez. O som agudo do toque do meu aparelho celular foi o portal que me arrancou do inferno e me trouxe de volta para o mundo real. Me levantei ainda ofegante, eu tinha dormido. Não me importei em não atender a chamada, tentei respirar fundo e dizer a mim mesmo que tinha sido apenas um pesadelo, mais um deles, na verdade. Me levantei e fui em busca de uma garrafa de água em cima da cômoda, tomar água era uma tentativa inconsciente e falha de acalmar os meus sentidos. O som insuportável daquele toque de celular estava me deixando irritado. Peguei o aparelho, pronto para rejeitar a chamada. Mas ao ver o número desconhecido a curiosidade se acendeu em mim. No canto da tela, o relógio marcava dez e quarenta e quatro da manhã. - Alô. - Atendi e não recebi nenhuma resposta. Estava prestes a encerrar a chamada quando ouvi uma voz familiar do outro lado da linha. - Eu... eu preciso falar com o delegado Daniel Velasques. - Sou eu. Pois não? - Você deixou o seu número, disse que eu deveria ligar quando fosse liberada do pronto-socorro. - Ah. - Respirei aliviado, não que ir até o pronto-socorro fosse animador, mas me senti grato por ter sido arrancado do meu pesadelo recorrente. - Não vá embora antes que eu chegue aí. - Ok. Vinte minutos depois eu estava novamente com o pé na estrada, Raquel já estava esperando do lado de fora do pronto-socorro quando cheguei. Ao contrário do que ela usava no momento do acidente, as roupas que cobriam seu corpo agora eram completamente desproporcionais ao seu tamanho, largas demais e até antiquadas. Apesar de nenhuma roupa conseguir fazê-la parecer f**a graças a sua beleza extravagante, ela ainda parecia desconfortável com as peças. Pelo jeito era o que tinham conseguido arrumar no pronto-socorro. - Entre no carro. - Eu disse ao sair e dar uma boa olhada no estado dela. - Onde vai me levar? - Perguntou ela, receosa. Eu nunca tinha visto olhos tão expressivos, era como se todas as suas emoções estivessem expostas para mim em uma vitrine de doces. Eu podia ver todas elas através do verde-água que coloria suas íris enormes. Desconfiança e insegurança era o que ela sentia nesse momento. - Na farmácia mais próxima. Tem uma receita, não tem? Raquel estendeu o papel em sua mão esquerda e eu voltei a entrar no carro, já tinha virado a chave na ignição quando ela finalmente entrou no lado do carona. Eu tinha deixado de ser um homem paciente anos atrás. Depois de parar em uma loja de uma grande rede de farmácias, peguei uma cesta. Raquel me seguia em silêncio, ainda parecia retraída quando parei em um corredor para ler a receita dela. Ela ia precisar de curativos, além de relaxantes musculares e alguns analgésicos para o caso de dor. Além do que foi passado pelo médico, peguei alguns medicamentos em spray para possíveis contusões, algodão, pomada cicatrizante e frascos de loção para limpar feridas. Enquanto passávamos no caixa, notei o quanto Raquel olhava para as portas de saída do local, havia preocupação em seus olhos e uma certa tensão sobre seus ombros. Depois de pagar, nos dirigimos para a saída, Raquel olhou para os lados, se certificando de alguma coisa que ainda não tinha me deixado saber e abaixando levemente a cabeça, fazendo com que os cabelos ondulados cobrissem a parte lateral do seu rosto. Ela estava fugindo de alguém.
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