(Daniel Velasques)
Maldito acidente bizarro.
Não conseguia manter minhas pernas paradas no lugar, empurrei um copo de café sem açúcar pela garganta enquanto aguardava no banco de espera do pronto-socorro mais próximo. Aquela mulher apareceu mandada para frustrar o meu plano de vingança. Quase pude ouvir a voz doce de Elisabeth me repreendendo pelo que eu estava prestes a fazer horas atrás, antes de acertar a mulher com o carro. Às vezes ela aparecia em meus sonhos, tentando me fazer desistir de buscar a única coisa que podia aplacar ao menos um pouco o meu sofrimento, vingança.
- O senhor está com a jovem acidentada? - O olhar desdenhoso da enfermeira velha e cansada me encontrou enquanto ela mascava um chiclete.
- Sim. - Respondi. - Como ela está?
- Estável, mas ainda apresenta alguns lapsos de memória por conta do choque. Normalmente o quadro melhora em questão de dias. O senhor já pode vê-la.
Vê-la? Meu plano era sair dali o mais rápido possível, minha missão de hoje estava perdida, mas eu ainda poderia encontrar os caras para planejar os próximos passos. Maldito acidente sem sentido que atrapalhou tudo.
- Me acompanhe, por favor. - Sem muitas opções, eu segui a mulher de pijama azul pelo pronto-socorro. A mulher que eu tinha atropelado estava deitada em uma cama, mas seus olhos estavam bem abertos. Havia pequenos curativos em seu rosto, em um de seus ombros e também em uma das pernas.
A iluminação do hospital me permitiu ver o que não consegui na hora do acidente. A mulher era bonita. Muito bonita. Seus olhos grandes e esverdeados pareciam maiores do que deveriam ser e estampavam medo. Perguntei-me se já tinham chamado a polícia ou se ela já tinha dito algo a alguém sobre o atropelamento.
- A senhorita vai passar a noite em observação e pela manhã será liberada. - A velha resmungou antes de sair.
Respirei fundo, eu podia esquecer a possibilidade de ir encontrar os caras essa noite.
Essa garota tinha atrapalhado completamente os meus planos e eu me negava a acreditar que Lisa continuava influenciando minha vida mesmo não estando mais aqui, mas por vezes, era exatamente isso que eu sentia.
Me joguei na cadeira de espera enquanto a mulher observava minha movimentação.
- O que fazia entre a vegetação no meio da madrugada? - Usei o mesmo tom que eu usava em interrogatórios.
A mulher virou-se para mim, seus cabelos se desprenderam da presilha frágil e caíram como um véu n***o em ondas sobre os ombros até a sua cintura. Se ela achava que ao fazer cara de pobre coitada iria conseguir me ludibriar estava muito enganada. Inclinei o corpo para frente, querendo intimidá-la.
- Do que você estava fugindo?
- Eu não estava fugindo. - Pronunciou em um fio de voz.
- Então você fala. - Mostrei-lhe um sorriso irônico. - Não tente mentir para mim, sei exatamente quando estão ou não me falando a verdade.
- Eu não me lembro... - A mulher negou. - Não lembro bem o que aconteceu.
Estreitei os olhos, ciente de que essa era uma estratégia dela para se esquivar. Ela precisaria de mais do que uma beleza incomum e uma voz doce para me fazer de bobo.
- Qual é o seu nome? - Ela hesitou ao ouvir a minha pergunta.
- Iara. - Um sorriso irônico me escapou.
- Como a sereia do folclore brasileiro? Se considera uma sereia? É assim que atrai os homens? - Mesmo que ela estivesse receosa, pude ver uma pequena chama se acender no verde de seus olhos.
- Eu não tive culpa! Não queria entrar na frente do seu carro e estragar a sua noite. Mas você não tem que me ofender ou ser um b****a só para mostrar que está bravo comigo. - Ela foi firme ao se impor e eu não estava esperando aquela reação, o que me fez começar a gostar da conversa, talvez devesse tentar outra tática, mais leve e despretensiosa.
- Tudo bem. Está desculpada. - Seu olhar para mim não mudou. - Por que então não começa me dizendo seu nome verdadeiro e para de tentar mentir para mim?
Seus olhos e a maneira que me encaravam eram quase hipnotizantes. Talvez Iara fizesse mesmo algum sentido.
- Raquel. Me chamo Raquel. - Ela usou um tom suave.
- Raquel de quê? - Eu quis saber.
- Viana. Raquel Viana. - Vasculhei sua expressão facial e corporal à procura de indícios de mentira. Aparentemente ela falava a verdade dessa vez.
- Muito bem, Raquel.
Um enfermeiro adentrou o quarto, me interrompendo.
- Está na hora do analgésico, musa do asfalto. - Anunciou ele. Inclinei uma sobrancelha para o apelido inusitado.
Esperei pacientemente até o medicamento ser aplicado no acesso em sua veia. Uma mulher fazendo anotações adentrou o quarto, fazendo perguntas e anotando as respostas. Quando ela perguntou a Raquel o que tinha acontecido ela se enrolou para responder, então o fiz por ela.
- Foi um acidente, eu estava indo em direção a Barra da Tijuca, em uma área com vegetação de ambos os lados. Foi aí que essa mulher saiu do acostamento e se jogou em direção ao meu carro. - Raquel me encarou, me recriminando por dizer a verdade.
- Se lembra do seu nome, querida? - Quando a mulher se sentou na cama eu soube que era uma psicóloga. - Sabe que dia é hoje?
Raquel engoliu seco, o cara que tinha aplicado o analgésico se foi e eu fiquei observando seu desespero. Aquela mulher tinha algo a esconder, algo que eu estava curioso para saber.
- Segunda. Segunda-feira, cinco de setembro de 2016.
- Ótimo. - A doutora escreveu algo.
- Me chamo Raquel. - Ela completou.
- Você se lembra do que aconteceu antes do acidente?
Raquel me encarou antes de negar.
- Não lembro.
- Tudo bem, querida. Vamos nos ver de novo ao amanhecer, tudo bem?
Ao receber o aceno positivo de Raquel a psicóloga se levantou, virando-se para mim.
- Você não pode passar a noite aqui com ela.
Estalei a língua, a verdade era que eu não queria ir embora sem arrancar a verdade dessa mulher.
- Estou aqui pelo mesmo motivo que você, doutora. Fazer perguntas. - Tirei o distintivo e o mostrei para ela. Eu não gostava de bater carteira, mas o fazia sem hesitar quando era necessário.
- Agente civil? - Perguntou a doutora.
- Delegado. - Os olhos de Raquel quase saltaram das órbitas ao ouvir a palavra, eu estava cada vez mais curioso para saber o que ela andou fazendo antes de se meter na frente do meu carro.
- Então, senhor delegado. Aconselho que faça perguntas em outro momento, a paciente claramente não se lembra de todos os fatos e não se encontra em condições de responder suas perguntas agora, assim como as minhas também ficarão para depois.
Parece que a doutora não gostou muito de ver o meu distintivo, ao menos era isso que seu tom de voz irônico demonstrava. Era uma grande desfeita porque o meu distintivo era muito bonito. Me levantei ao sentir seu tom de voz irritado, se eu soubesse que mostrar o distintivo iria me fazer ser expulso daqui teria mostrado no momento em que cheguei.
- Como quiser, doutora. - Me virei para Raquel antes de sair, eu daria um jeito de vê-la novamente. - Espero que recupere sua memória logo. Vou deixar meu número anotado, quando for liberada ao amanhecer me avise, vou comprar os remédios, curativos e o que mais você precisar para ficar melhor. Estamos entendidos?
Raquel assentiu depois de piscar duas vezes, os ombros encolhidos como se tivesse acabado de descobrir algo terrível ao meu respeito. Depois de voltar ao meu carro e me certificar de que não havia nenhum estrago na lataria do veículo, me acomodei no lugar do motorista. Por que Raquel se sentiria acuada ao saber que sou um delegado se não houvesse nada ilegal a envolvendo? Ela havia atrasado minha vingança e agora que eu sentia que tinha algo maior envolvido me sentia instigado a investigar, ir a fundo até saber exatamente o que aconteceu antes do acidente naquela madrugada.