03 - O Golpe

1349 Words
O cheiro daquele escritório sempre me causou náusea. Era uma mistura sufocante de couro, café velho, madeira envernizada e... arrogância. Tudo ali parecia cuidadosamente pensado para deixar qualquer um desconfortável — menos ele, é claro. Meu pai parecia se alimentar daquela atmosfera, como se o ambiente fosse uma extensão da própria personalidade: frio, rígido, imponente e desgraçado. Meus dedos apertavam a pasta de papelão com tanta força que, por um momento, temi rasgá-la. Mas não soltei. Nem afrouxei. A palma da mão já começava a suar, e eu não sabia se era por ansiedade, medo... ou raiva. Talvez os três, misturados em uma combinação que vinha me corroendo por dentro desde o dia do velório. Ele estava sentado na poltrona, inclinado para trás, com as pernas cruzadas e o olhar perdido em algum relatório sobre a mesa. Os óculos de armação fina deslizavam pelo nariz, e os dedos tamborilavam no braço da cadeira — impacientes, como se o simples fato de eu estar ali fosse um incômodo, uma interrupção indesejada na agenda impecável dele. Respirei fundo, e a respiração veio falha. Não desabei. Não tremi por fora, embora cada músculo do meu corpo parecesse prestes a se romper de tensão. — Então? — ele perguntou, sem sequer levantar os olhos. — O que é isso que você queria me mostrar? Sou uma i****a por querer aprovação desse velho i*****l? Provavelmente. Mas que adolescente de luto não busca um pouco de amor na única figura que deveria fornecer isso, não é mesmo? Me aproximei devagar, quase como quem invade território inimigo, e deslizei a pasta sobre a mesa. Ele não se moveu. Nem olhou. Apenas pegou o celular, desbloqueou a tela e respondeu a uma mensagem qualquer, enquanto eu ficava ali... de pé... segurando o próprio orgulho com as mãos, como quem segura um copo trincado que ameaça estourar a qualquer segundo. — É um projeto — comecei, tentando controlar o tremor na voz, — eu... eu desenhei. É uma coleção de joias. Inspirada nas peças da linha clássica da empresa, mas com algumas releituras mais modernas. É... Talvez seja interessante. Quem sabe eu não possa colaborar, eu... Sempre quis. Ele não respondeu. Só deslizou os olhos pela primeira folha, como quem lê o cardápio de um restaurante no qual não pretende pedir nada. — Eu trabalhei muito nisso — continuei, apertando os braços contra o corpo, numa tentativa inútil de me proteger. — A mamãe sempre dizia que eu tinha talento. Que eu... que eu podia transformar isso em algo de verdade. Por um segundo, só um segundo, achei que ele fosse me olhar. Achei que, quem sabe, visse algo em mim além de um peso, uma obrigação legal, um estorvo. Mas o que veio foi diferente. Ele soltou um suspiro pesado, jogou o corpo para trás na cadeira e esfregou as têmporas com os dedos. — Victoria... — a voz arrastada, impaciente, seguido de uma risada debochada — isso é... isso é coisa de criança. A palavra me atravessou como uma lâmina. Senti o peito se comprimir, o estômago afundar, e uma onda quente subiu pelo corpo, queimando cada célula. — Coisa de criança? — repeti, sem saber se ria, se chorava, se jogava aquela pasta na cara dele. — Você nem olhou direito. Ele balançou a cabeça, como quem se cansa de repetir o óbvio para alguém intelectualmente limitado. — Você acha que o mercado se move por... inspiração? Por esses rabiscos? — Pegou uma das folhas, ergueu no ar e balançou, debochado. — Isso aqui não tem valor de mercado, Victoria. Ninguém quer essas... delicadezas românticas esquisitas. O que vende é status. Poder. Prestígio. E isso... — amassou levemente a folha nas mãos — não entrega nada disso. Você tentou mostrar uma cobra? Isso é inspirado em uma cobra? — Pai... — Não é possível que você realmente queira ser designer de joias. Isso é ridículo. — Ele, agora, debochava com mais força. — Deixa esse daqui aí, que eu vou colocar num quadro como “a pior ideia do ano”, porque sinceramente, Victoria... Que cabecinha oca. Puxou sua mãe, pelo visto. Eu tentei pegar os desenhos, mas ele os arrancou da mesa antes que eu pudesse alcançar e enfiou dentro da gaveta. Olhou e pegou o meu favorito, o que era inspirado em uma cobra. Trancou a gaveta, como se aquilo fosse dele, agora. Fiquei imaginando o que ele faria... “Olha aqui, fulano, o desenho ridículo que minha filha bastarda fez!” E soltaria aquela mesma risada debochada, repetidas vezes, enquanto olhava meu desenho com os conhecidos. Mordi o lábio com tanta força que o gosto metálico do sangue preencheu minha boca. Ele pegou o celular novamente, como se eu já estivesse fora da equação, fora da sala, fora da vida dele. A minha garganta queimou. O peito apertou tanto que m*l consegui puxar o ar. E antes que a voz morresse, ela saiu, mais frágil do que eu gostaria, mas mais firme do que ele merecia. — Ela acreditava em mim — falei, e o silêncio que se seguiu foi tão pesado que parecia que até o ar tinha congelado. — A mamãe... ela via valor no que eu fazia. Sempre viu. Ela nunca... nunca me tratou como um erro, como um problema, como uma decepção ambulante. Ela me ouvia e me incentivava. E você... — engoli em seco, sentindo os olhos marejarem, — você me tratou como um estorvo, nunca quis saber de mim e agora, está roubando a única coisa boa que ainda havia restado em mim. Ser designer de joias era meu sonho, e você... Você está... Me dizendo que eu não sirvo pra isso? Ele largou o celular sobre a mesa, sem desbloquear. Os olhos endureceram, como se qualquer traço de humanidade tivesse sido arrancado dali há muito tempo. — Sua mãe... — ele começou, e a forma como apertou os lábios me fez estremecer, — sempre foi... sensível demais. E veja só onde isso a levou. Teve câncer e morreu. Talvez, se fosse mais esperta, não tivesse desenvolvido essa porcaria. — Claro, porque foi uma escolha! — Eu me revoltei ao ouvir aquilo. — Com certeza, ela acordou um dia, pela manhã, e decidiu: Hm, minha vida está muito parada, acho que vou arrumar um câncer de mama! O estômago afundou de vez, meus olhos marejaram. Pela primeira vez em muitos anos, eu achei que não conseguiria controlar as lágrimas. Eu nem sabia se tremia de ódio, de tristeza, ou de um vazio tão profundo que parecia não caber mais dentro de mim. — Victoria, sem drama, pelo amor de Deus! Você precisa se encaixar nessa família, ou eu vou ter que tomar uma atitude muito drástica! — — Eu não faço parte dessa família, nunca fiz — sussurrei, apertando as mãos tão forte que os nós dos dedos ficaram brancos. — E nunca... nunca vou fazer. Recolhi a pasta com os desenhos que restaram, dobrei, mesmo que meio amassada, e segurei contra o peito como quem segura os últimos pedaços de si mesma. Dei dois passos para trás, tentando conter tudo — o choro, a raiva, o medo, a dor, tudo — até chegar à porta. Quando girei a maçaneta, ouvi a voz dele, baixa, dura, seca, cortante como tudo nele. — A vida não vai te tratar melhor só porque você acha que é especial, Victoria. Quanto antes entender isso, melhor. Você é só uma ninguém. E parece que eu não deixei claro o suficiente, então... Lá vai: Você é só um problema do qual pretendo me livrar no momento que você fizer dezoito anos. Eu sinto muito, querida, mas você não se encaixa na família Ferrer. Não respondi, apenas saí, carregada de ódio. E, pela primeira vez desde o dia do velório, percebi que a tristeza começava a se transformar em algo novo. Algo diferente. Algo que parecia pior que a raiva. E, estranhamente, aquilo não doía tanto quanto antes. Era uma chama, uma chama de algo novo, que me fazia ter vontade de esfregar um sucesso conquistado na cara do meu pai.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD