A primeira vez que vi meu projeto estampado numa revista foi como um soco no estômago. Eu estava na sala da minha amiga, distraída, quando o brilho da página me prendeu. Ali estava — uma joia idêntica, exatamente como eu tinha desenhado, acompanhada da assinatura da Ferrer Joias. Meu coração afundou, a garganta ardeu, mas não havia espaço para lágrimas. Só um nó sufocante que parecia crescer a cada segundo. A joia “ridícula” que ele havia dito que levaria para zombar com os amigos, agora, estava sendo vendida a um preço exorbitante.
Segurei a revista com força, quase sentindo o papel rasgar entre os dedos, e tentei entender como aquilo podia estar acontecendo. Minha criação, o que eu tinha concebido com tanta esperança, estava ali, usada como se fosse um produto da empresa, sem crédito, sem reconhecimento, sem nada que fosse meu.
No mesmo instante, uma mistura c***l de raiva e desespero tomou conta de mim. Eu sabia exatamente para quem deveria ir, mas o medo apertava o peito. A verdade era que tudo aquilo já estava muito claro para mim: meu pai usava e abusava daquilo que eu criava, daquilo que eu tinha como meu único refúgio, para alimentar seu império sem sequer olhar para mim.
Quando cheguei em casa, não tive dúvidas: procurei a minha irmã, Isabela. Queria uma resposta, qualquer sinal de que aquilo era um erro, um deslize passageiro. Ela estava na sala, com o rosto sério e os olhos frios que sempre me pareceram tão distantes.
— Você viu a revista? — perguntei, tentando conter a voz que tremia.
Ela apenas assentiu, sem olhar para mim, como se aquilo fosse rotina, algo banal.
— Tudo que você cria pertence à família. Sempre foi assim — disse, com uma frieza que parecia querer me empurrar para fora da sala.
— Isabela, o papai disse que meu design era ridículo e que usaria para zombar e rir com os amigos. Como você acha que eu estou me sentindo? Ele fez com que eu me sentisse um lixo, pra depois, pegar o meu design que ele disse que era um lixo, e vender por milhares de dólares! — Gritou. Isabela girou os olhos.
— Querida, essa casa tem regras. Ninguém levanta a voz. É melhor você abaixar a bolinha, tá? O design não é seu. Depois que você entrou nessa casa, tudo, tudo pertence ao papai. Ele faz o que quiser com o que você produz, entendeu? Ou quer que eu desenhe na sua testa?
— Isso é ridículo... — Senti meu coração acelerar.
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer agressão que eu pudesse imaginar. Aquele sistema não era um erro. Não era um deslize. Era uma engrenagem bem ajeitada, uma máquina que engolia tudo e todos que se atrevessem a tentar algo por conta própria.
Eu não era mais uma criança inocente que podia acreditar que meu talento teria um valor próprio. Aquele golpe era uma marca, uma sentença de que eu nunca passaria de uma peça descartável no tabuleiro da família. Mas ao mesmo tempo... Ao mesmo tempo, senti algo que ainda não conseguia identificar. Uma joia minha, valendo milhares de dólares? Dúvidas surgiram... Mas a voz do meu pai, na minha mente, venceu.
Naquele dia, caminhei pelas ruas da cidade completamente transtornada. O mundo parecia um borrão em movimento rápido, os sons ecoavam distantes, e cada passo me fazia sentir mais pequena, mais invisível.
Na esquina, um carro preto com vidros fumê parou devagar. Antes que eu pudesse desviar o olhar, o vidro do passageiro abaixou. Um homem apareceu, terno perfeito, falando ao telefone em chinês com uma voz que transbordava impaciência e sarcasmo.
O rosto era duro, as sobrancelhas arqueadas em uma expressão de quem acreditava que tudo no mundo girava ao seu redor. Por um momento, pensei que ele fosse mais um desses homens ricos e arrogantes, que acham que o poder lhes dá direito de pisar nos outros. Um grande babaca, provavelmente com uma vida de fachada como meu pai.
Antes que eu pudesse sequer pensar em criar mais um capítulo da fanfic com o bonitão no carro chique, o vidro subiu e o carro partiu, engolido pela pressa da cidade.
Acho que foi bom ter parado e prestado atenção em algo que não fosse minha mente me acusando de ser uma fraude, uma bastarda e uma sem talento. Consegui silenciar os meus pensamentos. E isso me fez perceber que havia algo dentro de mim que queria lutar, não só contra meu pai e minha irmã, mas contra tudo aquilo que me fazia sentir pequena, invisível e sem voz.