05 - Surto

1476 Words
Quando empurrei as portas do escritório do meu pai, sabia que não havia mais retorno. Meus dedos tremiam, o estômago parecia um nó sufocante, mas alguma coisa dentro de mim — algo que eu nem sabia que existia — rugia, queimava, pedia para explodir. Minha coragem gritava naquele momento. Sim, eu subi pelo prédio da empresa sem ser anunciada, com o tênis all star que meu pai odiava, o jeans rasgado e o cabelo loiro solto, esvoaçante. O piercing no nariz continuava, como uma afronta clara à tudo que ele representava. Ele estava lá, sentado na cadeira de couro, cercado por três executivos. A mesa de mármore refletia o brilho das luzes, dos relógios caros e dos olhares carregados de indiferença. Ao lado dele, minha irmã. De braços cruzados, seguindo o script de filha perfeita. Ombros erguidos, queixo levemente empinado, expressão de quem observa um inseto prestes a ser esmagado. Ninguém me notou de imediato, ou fingiu não notar. Caminhei até a mesa, segurei com força o projeto — meu projeto — e joguei sobre o tampo liso com mais força do que pretendia. — Isso. — Minha voz falhou na primeira sílaba, mas eu não recuei. — Isso é meu. Fui eu quem criei. É meu! O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Por um segundo, pensei que meu pai fosse disfarçar, inventar uma desculpa, qualquer coisa que soasse educada diante dos outros homens na sala. Mas ele... não fez. Ele apenas riu, e foi uma risada seca, grave, que reverberou como um tapa no meu rosto. — Você tá falando sério? — perguntou, empurrando o projeto de volta com um só dedo, como se fosse lixo. — Meu Deus... — Balançou a cabeça, descrente, antes de se inclinar na cadeira. — Você acha que vive nesse mundo de fantasia, não é? Que suas... asinhas de artista têm algum valor real. Pelo amor de Deus, Victoria. Pelo amor de Deus. Você está achando que copiar qualquer coisa das nossas revistas, vão provar que você é uma designer de joias? — Eu mostrei essa merda pra você, duas semanas atrás, e você riu! Você riu, dizendo que iria mostrar para todos os idiotas dessa empresa, para eles darem risada com você! Você debochou do meu projeto, e agora, você cria uma joia igual e a vende por milhares de dólares sem sequer colocar minha assinatura? Os executivos se entreolharam, alguns constrangidos, outros... Se divertiam com a situação. — Isso aqui — ele bateu com a mão espalmada na mesa — é uma empresa de verdade. Não é seu caderno de colorir. Não é terapia ocupacional pra filha mimada que vive de luxo e nunca precisou levantar um dedo pra sobreviver. Porque, né? Eu sempre paguei pensão pra você e pra encostada da sua mãe viverem no luxo. E no fim, nem criar uma pessoa decente ela conseguiu. Não acredito que você está aqui, acusando a gente de não dar créditos a você de uma coisa que não foi você que criou. — O que? — Eu falei, mas antes que eu pudesse continuar, ele mesmo tomou a fala. — Quem criou essa joia foi a sua irmã, Isabela. Ela tem talento, diferente de você. E claro... Ela sabe que o negócio da família é mais importante do que uma assinatura em uma joia, afinal, a joia carrega o nome “Ferrer”. É o nome da família, e isso basta! — Gritou. Senti o sangue sumir do meu rosto. O corpo inteiro tremeu, como se eu estivesse sendo puxada para fora de mim, observando a cena de longe... e ao mesmo tempo, presa nela. — Você nunca acreditou em mim... — sussurrei, mais pra mim do que pra ele, sentindo o nó na garganta se transformar em facas. — Minha mãe te amou, sabia? Eu não sei em que momento você se tornou um monstro, mas se minha mãe foi capaz de amar você em algum momento, você não devia ser assim na frente dela. E ela acreditava nas pessoas... Acreditava em mim! Ela me dava valor! Por um segundo — um segundo c***l — achei que aquela lembrança fosse abrir alguma rachadura nele. Mas o olhar só endureceu mais. — Sua mãe era igualzinha você. — A voz dele se tornou uma lâmina fria. — Cheia de sonhos... cheia de ideias estúpidas. Por isso me divorciei dela, porque ela não batia bem. Sabe como é, né? Dizem que um homem bem sucedido sempre tem que andar com uma mulher bem sucedida. E ela ficava lá, só desenhando bobagens em um caderno idiota... Não tinha nenhum talento. Como você, aliás. Seus desenhos são bobagens, Victoria, e é melhor você aceitar isso de uma vez. As palavras cortaram fundo. Fiquei sem ar. O peito doía, não como uma metáfora... doía fisicamente. Como se alguém apertasse minhas costelas, esmagasse meus pulmões. Me virei pra minha irmã, buscando... qualquer coisa. Um traço de humanidade, de empatia, de quem conviveu comigo a vida inteira. Mas ela só me olhou. De braços cruzados. Silenciosa. Inabalável. Não havia ninguém ali. Nenhum deles. Eu estava sozinha. — Quer saber? — Senti quando algo dentro de mim... quebrou. Um estalo invisível, mas real. — Vocês podem ficar com essa maldita empresa. Com essas malditas joias. Com tudo. Porque eu... eu não faço mais parte disso. Eu não faço! Joga na p***a da mídia que sua filha mimada e rebelde fugiu porque não aguentou olhar na sua cara, seu velho fodido! Ladrão de design do c*****o! Eu ainda vou esfregar nessa sua cara ridícula que eu sou uma designer com mais valor do que essa merda dessa empresa inteira! Virei as costas antes que minha voz cedesse. Ou antes que eu desmoronasse de vez na frente deles. Empurrei as portas do escritório com força. O barulho reverberou pelos corredores do escritório. Funcionários pararam. Alguns fingiram não ver, outros me seguiram com o olhar, boquiabertos, como se nunca imaginassem ver a filha bastarda acolhida... quebrando tudo. Dezessete anos, vivendo uma vida de merda, sendo amada apenas pela minha mãe... E agora, dever satisfação para ele? Não. Não mesmo. Fui para casa, e nem sei como cheguei. Estava tão embebida de ódio que tudo estava turvo. Entrei em casa ofegante, com o olhar escuro. — Senhorita Victoria... — Uma das empregadas tentou se aproximar, mas eu passei reto. Subi as escadas correndo, atravessando o corredor com os quadros da nossa "família perfeita" me encarando de volta, falsos, sufocantes. Ele havia tirado essa merda de foto uma semana depois da morte da minha mãe. Foi bom para a imagem dele, mostrar piedade com a filha do primeiro casamento. O peito subia e descia num ritmo descompassado. Eu tremia. A raiva explodia nos dedos, nas mãos, nos dentes cerrados. Quando entrei no escritório do meu pai, aquele que ele mantinha na própria casa — cheio de prêmios, certificados, miniaturas de projetos que nunca foram dele —, alguma coisa me dominou. Olhei pro canto. Lá estava. O taco de beisebol. A lembrança das tardes de domingo com a minha mãe, aos cinco anos. A visão da amante no fundo, minha mãe chorando, ele dizendo que nós não éramos o que ele precisava “no momento”, para crescer. A mão agarrou o cabo sem nem pensar. O primeiro golpe foi na estante. O segundo, no porta-retratos de prata. O som do vidro quebrando se misturou ao grito que escapou da minha garganta — um grito que não era só de raiva, era de dor, de frustração, de um luto que parecia eterno. As prateleiras desabaram. Livros, troféus, quadros, tudo espalhado pelo chão. Eu queria quebrar tudo. Computador, mesa, um espelho gigante que ele provavelmente usava para avaliar se o ego estava em dia... Tudo. Tudo que eu pude, tudo que o taco alcançou, eu quebrei. Sem dó. E mesmo assim, não foi suficiente. Corri pro meu quarto. Arranquei a cadeira da escrivaninha, joguei contra a parede. Peguei as almofadas, arremessei pela janela. As roupas do armário voaram, os cabides bateram uns nos outros, caíram como chuva de metal. — Eu odeio vocês... — A voz saiu rouca, desesperada, alta demais. — Eu odeio vocês! Eu odeio tudo isso! Chutei a cômoda. Peguei o abajur, quebrei contra o chão. Por fim, deslizei até o carpete, sentindo os cacos sob as pernas. As mãos tremiam tanto que m*l conseguiam segurar meu próprio corpo. O silêncio que veio depois foi ensurdecedor. Me encolhi ali, no meio do caos, rodeada de pedaços do que antes era meu espaço, meu refúgio... e que agora parecia só um reflexo do que tinha sobrado de mim. Respirei fundo, tentando não sucumbir, mas o corpo inteiro tremia. As lágrimas... não desciam. Não sabiam mais como. O que restava... era só vazio. Tudo que eu sabia era que... Eu nunca mais ia depender deles. Nunca mais.
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