06 - Parte do quê?

988 Words
Não lembro exatamente em que momento minhas pernas começaram a se mover. Se foi antes ou depois das palavras do meu pai cortarem minha pele como navalhas, ou se foi quando percebi que já não havia mais chão pra mim naquela casa, naquela vida. Não depois de eu ter destruído o santuário dele. Só sei que quando dei por mim... estava na rua. O portão da mansão se fechou às minhas costas com aquele estalo pesado, metálico, que soou mais definitivo do que qualquer sentença de morte. E o mundo... o mundo parecia maior, mais frio, mais afiado do que eu jamais tinha imaginado. Andei sem destino, mas sem coragem de olhar pra trás. As mãos apertavam a alça da mochila, a única coisa que consegui pegar antes de sair. Dentro, alguns desenhos, meu caderno, o colar da minha mãe... e um envelope com o pouco dinheiro que consegui juntar escondido nas últimas semanas. O céu estava fechado, cinza, como se a cidade inteira compartilhasse do mesmo peso que esmagava meu peito. As buzinas, os motores, as conversas nas calçadas... tudo parecia mais alto, mais agressivo, mais vivo do que eu. Porque eu... eu me sentia morta por dentro. Vazia. Sei lá. Foi na porta da empresa — a maldita Ferrer Joias — que tudo pareceu apertar de vez. Eu só queria passar rápido, fingir que aquele prédio não existia, que aquela vida não era minha. Mas o destino, c***l como sempre, decidiu me fazer tropeçar — literal e simbolicamente. Vinha um homem. Alto, de terno, gravata frouxa, falando ao telefone em chinês, o tom impaciente, grave, quase mordendo as palavras. E eu... eu simplesmente não vi. Parecia até o homem do outro dia, que estava dentro do carro, com o mesmo ar arrogante. O problema todo foi que eu esbarrei nele. Ou ele esbarrou em mim, não sei. O choque foi forte o bastante pra me desequilibrar. As pernas falharam, os joelhos cederam, e só não fui direto ao chão porque mãos firmes seguraram meus braços no exato segundo em que o mundo girou. — Cuidado, garota... — rosnou ele, sem sequer tirar o celular da orelha. Eu olhei nos olhos dele. Ele olhou nos meus. Foi... Estranho. Mas eu só segui, evitando pensar nisso. Ele largou meus braços como se eu fosse só... obstáculo no caminho. Continuou andando, passos apressados, a voz se perdendo na multidão. Fiquei ali, com os pés ainda meio tortos no meio da calçada, respirando fundo, tentando segurar a vontade absurda de simplesmente cair de cansaço. E os olhos dele continuaram... Na minha mente. Droga. Segui andando. Uma, duas, cinco quadras. Nem sei pra onde. Até que uma voz se aproximou, vinda de um homem encostado num poste. — Ei... — Sorriu, aquele tipo de sorriso que não sobe pros olhos, que só serve pra disfarçar intenções podres. — Tá tudo bem? Você parece... perdida. Não respondi. Apertei mais forte a alça da mochila e continuei, apertando o passo. — Calma... não precisa ter medo. Só perguntei se você precisa de ajuda. — Ele acompanhou meu passo. — Tenho uma amiga que aluga uns quartos aqui perto, bem baratinho. Você parece estar precisando. Tudo em mim gritava que aquilo não era seguro. Mas tudo em mim também tremia de medo, de desespero, de fome, de frio. — É sério. Vem comigo, cinco minutos. Talvez tenha sido burrice. Talvez tenha sido cansaço. Mas segui. E claro... era mentira. O “quarto” virou uma sala apertada num prédio decadente, onde ele fingiu procurar a tal amiga. Disse que precisava de um adiantamento, só pra garantir que eu não estava mentindo que tinha o dinheiro. E eu... eu entreguei. i****a adolescente de merda. É isso. Na primeira brecha, ele sumiu. Simplesmente desapareceu porta afora, deixando pra trás só o cheiro de mofo e uma risada distante, que parecia ecoar na minha cabeça, mesmo depois de eu ter percebido que fui enganada. Corri pra fora. Olhei pros dois lados da rua e não vi mais nada. Ele sumiu como fumaça. Meu coração disparou num ritmo que parecia quebrar minhas costelas. As mãos tremiam tanto que eu m*l conseguia fechar os dedos. Dei alguns passos, cambaleando, até encostar num muro. Deslizei até sentar na calçada, abraçando os joelhos, tentando... não sei. Me proteger? Me esconder, talvez. Mas o mundo não deixava. Os olhares vieram, a noite me tragou com força. Vi homens que passavam e me despirem com os olhos, como se minha miséria fosse convite. Vi mulheres que seguraram suas bolsas mais forte, atravessando pro outro lado da rua, como se eu fosse criminosa. Notei que alguns motoristas diminuíram a velocidade, alguns rindo, outros encarando como se eu fosse sujeira na calçada. Uma garota sozinha, no meio da cidade, despedaçada. Eu senti na pele o que minha mãe sempre tentou me proteger de ver. O que ela dizia, baixinho, quando pensava que eu não ouvia: “Lá fora, ninguém cuida de você.” Ela estava certa. Quando anoiteceu, não restava muito além de cansaço. As lágrimas... continuavam presas. Mas a garganta ardia, os olhos pesavam, o corpo doía. Encontrei um hostel. Sujo, barato, mas era o tipo de lugar onde ninguém pergunta seu nome ou idade e o cheiro de cigarro misturado com mofo parece grudado nas paredes. Paguei pelo quarto mais barato com o que restava. Uma cama, apenas. Um colchão tão fino que parecia feito de papelão, e um ventilador quebrado pendurado no teto, que girava mais pra fazer barulho do que pra ventilar. Joguei a mochila no canto, tirei os tênis. Me encolhi na cama, puxando a própria jaqueta pra me cobrir. E ali... sozinha... no escuro... percebi que não sabia quem eu era. Filha de quem? Dele? Nunca fui. Parte do quê? De uma família que nunca me quis? Eu precisava de algo a mais. Precisava de algo além, de algo que não envolvesse meu sobrenome. Precisava... Ser apenas a Victoria.
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