07 - Novo Trabalho

837 Words
O cheiro de café invadiu meus pulmões antes mesmo de eu abrir a porta. Era estranho pensar que aquele cheiro, que antes me lembrava tardes no ateliê da minha mãe — misturado com risadas, desenhos e esperança — agora fazia parte de uma realidade que eu nunca imaginei viver. A cafeteria estava cheia. Como sempre. Gente apressada, engravatados falando ao telefone, mulheres de salto digitando freneticamente, estagiários com cara de pânico tentando equilibrar café, notebook e a própria dignidade. E eu... Eu estava no meio disso, de avental, tremendo por dentro, segurando uma bandeja com três cafés e um croissant que quase escorregou quando um cliente esbarrou em mim sem nem se desculpar. — Primeira semana, primeira semana... — sussurrei pra mim mesma, tentando manter o equilíbrio tanto da bandeja quanto da minha própria sanidade. Consegui entregar, e voltei para o balcão. m*l cheguei e um cliente já me abordou. — Um espresso duplo, sem açúcar. E rápido, por favor. — A voz atravessou o balcão até mim, firme, direta, daquele tipo que não admite hesitação. Eu me virei em direção a ele, levantei os olhos no reflexo automático. E quase deixei a caneta cair no bloco de pedidos. Alto, postura impecável, camisa preta de alfaiataria, ajustada o suficiente pra sugerir a força do corpo sem ostentar. Cabelos escuros, penteados de um jeito despretensioso, bagunçado o bastante pra parecer natural... mas claramente não era. Relógio caro, daqueles que valem mais do que minha vida inteira. E aquele olhar... Olhos que, mesmo a metros de distância, pareciam atravessar as camadas de roupa e te enxergar sem nenhuma peça sequer. E o pior? Qualquer uma que levasse um olhar desse, iria gostar. Arregalei os meus, quase sem perceber. E, no mesmo segundo, desviei, fingindo anotar o pedido com a maior concentração do mundo, embora minha mão tremesse só de saber que estava na mira daquele homem. — Claro... Já vai sair... — respondi, a voz saindo mais fraca do que eu gostaria. Corri pro balcão com a cafeteira, tremendo. Mas o movimento da cafeteria me engoliu. Eram três pedidos prontos na frente, um cliente reclamando que pediu leite vegetal, outro pedindo uma troca. Tentei ser rápida, mas as mãos atrapalharam. Quando voltei pro balcão... ele ainda estava lá. E olhando. — Moça... — A voz dele soou de novo, menos ríspida, mas ainda carregada de uma firmeza que parecia natural. — Aqui as coisas costumam ser rápidas. O pessoal desse prédio vive correndo. — Eu sei... Desculpa... É minha primeira semana. Ainda tô... tentando acompanhar. — A frase escapou antes que eu pudesse pensar se deveria dizer. E, quando levantei os olhos... ele me olhava diferente. Por um segundo, vi o maxilar relaxar. O olhar perder um pouco daquela rigidez. E, pra minha surpresa... ele sorriu. Não foi um sorriso largo. Nem simpático. Foi... quase um canto de boca levantado, daqueles que são mais gesto do que riso. Mas, meu Deus... aquele micro sorriso valeu mais do que qualquer palavra. — Tudo bem. — Ele respondeu, pegando o café que eu, enfim, consegui entregar. — Respira. Você vai pegar o ritmo. Consegui entregar o café dele, mesmo que alguns minutos depois do que ele esperava. Ele pegou e se afastou. E eu, por algum motivo, fiquei olhando. Na verdade... eu fiquei mais do que olhando. Eu fiquei hipnotizada, porque... caramba. Ele era bonito. Bonito de um jeito que parecia ilegal. Aquela aura de quem chega em qualquer lugar e todo mundo percebe, mesmo sem querer perceber. E ainda era rico. A vida é muito boa com certas pessoas. Franzi as sobrancelhas, mordi o lábio inferior, apertando o bloco de anotações entre os dedos. Eu já tinha visto aquele homem antes, em algum lugar, eu tinha certeza disso. Tinha cara de famoso. Ou, no mínimo, de alguém que vivia nas colunas sociais, nos noticiários de negócios... Algum executivo, provavelmente. Mas... de onde? Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento. Voltei a limpar a bancada, ajeitar as xícaras, fingir que não estava... afetada. Porque, sim. Eu estava. E não fazia sentido. Por puro reflexo, meus olhos se voltaram pro vidro da cafeteria. Lá estava ele, do lado de fora, já na calçada, com uma mulher. Linda, claro. Alta, elegante, pernas longas, vestido justo, salto alto, um corpo que fazia qualquer um virar pra olhar. Ela riu de algo que ele disse. Ele segurou a cintura dela, puxando de um jeito que parecia natural... como se aquele corpo pertencesse àquele espaço. Ela segurou o rosto dele com uma das mãos, e ele inclinou o próprio, beijando de leve o canto da boca dela. Depois, ele abriu a porta do carro preto e deixou ela entrar. O carro arrancou. Boba. Boba, boba, boba. Vivi uma fanfic de dez minutos e tive meu coração partido ali mesmo. Ainda bem que foi rápido dessa vez, mas ainda assim, fiquei com uma pontada estranha no peito. Apertei o pano na bancada, respirei fundo e voltei pro trabalho, fingindo que aquele pequeno terremoto interno não tinha acontecido.
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