O cheiro de café já nem parecia mais me afetar. Pelo menos, não do jeito que afetava antes. Agora fazia parte de mim. Assim como o barulho da louça se batendo, as vozes emboladas dos clientes e o som agudo da máquina de espresso cuspindo vapor como se estivesse mais cansada que eu.
Na minha pausa do almoço, sentei no mesmo cantinho de sempre, perto da janela que dava pra avenida. A maioria dos colegas saía pra comer em alguma lanchonete, outros pediam marmita, mas... eu não. Preferi usar aqueles quarenta minutos pra outra coisa.
Espalhei meu caderno de desenhos sobre a mesa, empurrei a xícara meio vazia pro canto e deslizei o lápis sobre o papel, deixando que a ponta afiada rabiscasse linhas finas, precisas, cheias de curvas, ângulos e detalhes.
Era assim que eu respirava: Desenhando. Era quase automático. Meus dedos conheciam o caminho, e formas surgiam, pedras preciosas que eu só via nas vitrines da Ferrer Joias ganhavam vida no papel — mas do meu jeito. Anéis com estruturas ousadas, gargantilhas que pareciam abraçar o colo, brincos que poderiam ser peças de arte. Tudo ali, no meu caderno velho, com folhas manchadas de café, suor, talvez até lágrimas que escorriam de vez em quando, ao lembrar da minha mãe ou da palhaçada que meu pai fez comigo.
— Você é maluca, sabia? — ouvi uma voz conhecida, divertida, carregada daquele sotaque que ele nunca disfarçava.
Levantei os olhos. Era Igor, um dos baristas. Ele sorria enquanto se largava na cadeira à minha frente, como quem tinha algo urgente pra contar.
— Maluca por quê? — perguntei, ajeitando os cabelos pro lado, meio desconfiada, meio curiosa.
Ele virou a tela do celular na minha direção.
— Porque, em vez de comer, você fica criando essas coisas absurdas. E, olha... acho que o universo tá querendo recompensar sua maluquice. — Ele deu dois toques na tela, ampliando a imagem de um post nas redes. — Achei que isso ia te interessar.
A imagem mostrou um anúncio. Simples, direto, elegante.
“Programa Internacional de Fomento ao Design de Produtos. Bolsas integrais para jovens talentos. Uma iniciativa do Grupo Antonelli.”
Por um segundo, minha respiração simplesmente... falhou.
Peguei o celular da mão dele, quase arrancando, e aproximei da cara, como se isso fosse fazer eu entender melhor. Meus olhos correram pelas linhas do texto: “O Grupo Antonelli busca jovens criativos e apaixonados por design de produto. Oferecemos bolsas de estudo em parceria com a mais renomada escola de design da Europa, para formação intensiva de novos talentos...”
Meu coração bateu mais forte. Forte e descompassado.
— Igor... — sussurrei, apertando o aparelho entre os dedos. — Você tá... você tá brincando, né? Isso é real?
Ele deu um sorriso largo, largado, como quem se divertia mais da minha reação do que da própria notícia.
— É real, mulher. Vi no grupo da galera de design. Tá rolando essa seleção. Parece que o dono da empresa, aquele tal de... como é mesmo? — ele rolou os olhos, tentando lembrar. — Ah, aquele bonitão marrento... Henry Antonelli, sei lá... Tá querendo limpar a imagem da empresa, sabe? Investir em causas sociais, parecer um cara do bem... essas coisas que rico faz pra não ser cancelado.
Por alguma razão, meu cérebro congelou por dois segundos quando ouvi aquele nome. Henry Antonelli. Esse nome não me é estranho...
— Isso não importa. — sacudi a cabeça, expulsando o pensamento. — O que importa é que... é uma chance. Igor... é uma chance real.
Apertei o celular contra o peito, sentindo, pela primeira vez em meses, um calor diferente. Uma faísca acendendo no meio de tanto cinza.
Levantei, me curvei sobre a mesa e abracei ele com força, surpreendendo até a mim mesma.
— Eu te amo. — falei, rindo, apertando mais do que deveria. — Sério. Você não faz ideia do que você acabou de me dar.
— Ah... não me ilude, não. — ele riu, batendo nas minhas costas. — Vai lá, garota. Vai fazer esse mundo brilhar com esses desenhos malucos aí.
Nos dias que seguiram, não existiu mais fome, não existiu mais cansaço, não existiu mais medo.
Acordava cedo, ia pro trabalho, mas cada segundo livre era gasto com aquele caderno. Desenhava no metrô, desenhava no intervalo, desenhava na mesa da cafeteria quando ninguém estava olhando.
Revisei cada modelo. Ajustei ângulos, troquei tipos de engaste, testei combinações de materiais que, talvez, nunca tivesse dinheiro pra comprar... mas que no papel eram meus.
E, quando enfim reuni coragem... Preparei o portfólio.
Levei tudo impressamente impecável até a agência que faria a seleção inicial. Lembro da moça da recepção sorrindo, me entregando um protocolo de recebimento e desejando boa sorte.
— Espero que eles vejam o que você colocou aqui. — ela disse, segurando meu material nas mãos. — Isso aqui... tem alma.
Saí de lá segurando o papel do protocolo como se fosse um bilhete premiado.
E, naquele instante... pela primeira vez desde que fugi de casa... eu realmente acreditei que pudesse vencer.