Capítulo 6

1823 Words
Charlotte Eu corro. E eu não paro de correr. Descalça pelas ruas, deixo aquele lugar de horror para trás e corro até meu coração parecer que vai explodir para fora do peito. Quando saí correndo daquele armazém, não reconheci onde estava. Tudo o que eu queria era fugir dali como se minha vida dependesse disso. Porque provavelmente dependia. Eu ataquei aquele homem. Não sei o que me deu, além de um instinto de sobrevivência que surgiu como o rugido de um tigre. Os irlandeses não vão ficar nada felizes e provavelmente vão querer nos matar — tenho certeza. Corro até meus pés congelarem de tanto bater no chão frio. O vestido subiu tanto que qualquer um que me visse correndo à noite receberia um belo espetáculo. Mas eu não me importo. Preciso chegar em casa. Corro até as ruas se tornarem familiares e, assim que reconheço onde estou, chamo um táxi. Felizmente, o taxista não faz perguntas sobre o fato de eu estar coberta de suor, manchas de sangue e com o vestido completamente bagunçado. Ele só me cumprimenta com um aceno de cabeça e volta a atenção para a música no rádio depois de aceitar meu endereço com um simples olhar. O tempo no táxi me dá um momento para pensar e recuperar o fôlego. Não sinto mais a dor das feridas nos pés causadas pelas pedras que pisei. Não sinto mais as dores nas pernas ou a dor no corpo. Só sinto o desespero no peito, pulsando como um segundo coração. Só consigo pensar em chegar em casa. Cada vez que o táxi para no sinal vermelho, sinto como se meu esqueleto quisesse sair da pele de tão desesperada que estou para chegar. Se os irlandeses descobrirem onde moro e chegarem lá primeiro, estou ferrada. Minha única esperança é que Nate tenha bom senso o suficiente para agarrar Nicky e fugir se alguém aparecer na porta. Mordo o lábio inferior e belisco a coxa enquanto o táxi serpenteia pela cidade. Quando finalmente ele para na frente do meu apartamento, sinto o estômago revirar de medo. Agradeço ao motorista e peço que me espere enquanto pego o dinheiro lá dentro. Então, corro para dentro, esperando o pior — esperando uma carnificina ou, pior ainda, a ausência da minha filha. — Nicky? — grito. — Natanael? Corro pelo corredor e entro no meu quarto, quase chorando de alívio ao ver Nicky na cama, me encarando com olhos arregalados e assustados. — Mamãe? O som da voz dela me faz cair de joelhos e soluçar por alguns segundos, completamente aliviada, mas ainda assustada. Ela está bem, mas eu não posso perder tempo. Não há como os irlandeses não estarem correndo para me encontrar agora mesmo. — Natanael! — grito enquanto me levanto. — Você pode pagar o táxi? Precisamos sair daqui! Abraço Nicky e ela começa a chorar imediatamente, claramente confusa com minhas lágrimas e medo. Aconchego-a com força, enterrando o rosto em seus cachos e respirando seu cheiro, lutando para controlar o choro. Depois de beijá-la, coloco-a de volta no chão e começo a arrastar tudo o que consigo das gavetas para dentro de uma mala. Roupas, remédios, sabonete, loção, fraldas, brinquedos. Coloco tudo dentro e fecho o zíper com um estalo. De repente, uma batida na porta me faz congelar e meu coração quase pula pela garganta. — Senhora? — chama uma voz. Respiro aliviada. Não é um irlandês. É o taxista. — Que p***a é essa, Nate? — murmuro, voltando para o corredor. O motorista está parado na porta e me lança um olhar entediado que se transforma em preocupação. — Você está bem? — ele pergunta. Concordo rapidamente. — Sim, desculpe. Deixe-me pegar seu dinheiro. — Sabe de uma coisa? Não se preocupe — ele acena com a mão no ar. — Parece que você está tendo uma noite infernal. — Eu entendi. — Esqueça. — Com isso, ele se vira e desce as escadas em direção ao táxi. Observo-o ir embora e depois fecho a porta da frente, trancando-a com firmeza. — Que p***a é essa, Nate? — grito, correndo até a sala. — Temos que dar o fora daqui agora mesmo e você nem conseguiu... As palavras morrem nos meus lábios quando vejo Nate no sofá. Seus olhos estão semicerrados, e uma agulha ainda pende da mão inerte. Não. Não pode ser. Ele não pode ter se injetado enquanto cuidava da minha filha. Não pode ter escolhido as drogas enquanto eu estava sendo torturada para pagar a dívida dele. — Seu desgraçado! — grito, lançando-me contra ele e batendo meus punhos em seu peito. — Seu desgraçado! O que você fez? O que você está fazendo? Nate me olha sem interesse, um sorriso preguiçoso surgindo em seus lábios. — Charlotte... Você já voltou? — Você deveria estar cuidando dela! Protegendo ela, seu egoísta de merda! — berro, batendo nele sem parar. Ele nem parece sentir os golpes, e uma onda sufocante de desesperança me invade. Ele não ajuda em nada. Na verdade, ele é um perigo. Eu sei que deveria expulsá-lo, mas… o que eu vou fazer? Ele é meu irmão. Se eu o expulsar, ele está morto. Soluçando, desço de cima dele, estremecendo ao ouvir os choros de Nicky aumentarem na outra sala. — Seu filho da p**a — choro, chutando a perna de Nate. — Seu filho da p**a. Você nos deixou tão vulneráveis... — Desculpa — ele murmura, a voz arrastada. — Eu estava com medo, e você sumiu... — Eu fui embora pra tentar salvar a sua pele patética! — soluço, minha garganta ardendo. — Que p***a tem de errado com você, Nate? Como você pôde me deixar lá? Eu não posso mais ficar aqui. Tenho que sair daqui de algum jeito. Arranco o vestido do corpo com mãos trêmulas e visto uma calça de moletom, um par de tênis e um moletom velho. Seguro o corpo patético de Nate e, com uma força que nem sabia que tinha, o levanto do sofá e o arrasto até o carro. Ele está meio consciente ainda, resmungando, mas não luta. Empurro-o para o banco do passageiro e prendo o cinto de segurança. Ele respira, mas está apagado de novo. Ofegante, volto para dentro e pego minha filha, que chora alto, seus bracinhos estendidos. Agarro o celular, a bolsa e a mala dela e corro de volta para o carro. Nada do que eu diga ou faça vai acalmá-la agora. Eu só posso engolir meus medos e ser forte por ela. — Desculpa, minha querida — choro enquanto a coloco na cadeirinha. — A mamãe te ama. Eu sei que é assustador. Mas a mamãe te ama mais do que tudo. Ela se debate, seu choro ecoando pelo carro, mas eu não tenho tempo de reconfortá-la como ela merece. Assim que Nicky está presa, entro no carro e piso no acelerador. Não tenho um destino em mente. As regras de trânsito são irrelevantes enquanto eu dirijo o mais longe possível daquele apartamento. Vá embora. Simplesmente vá embora. Não importa onde, contanto que seja longe. A adrenalina me mantém em alerta, cada terminação nervosa do meu corpo gritando. Eu olho para Nicky pelo retrovisor, para Nate desmaiado ao meu lado, e observo constantemente todos os retrovisores, certa de que a qualquer momento alguém vai aparecer. A tempestade chega rápido, trovões rasgando o céu e a chuva castigando o para-brisa. Os limpadores trabalham no máximo, mas m*l consigo ver a estrada. Meu coração dispara com cada barulho, cada sacolejo. Um buraco traiçoeiro faz o carro saltar violentamente. Nicky grita em pânico, e eu tento manter o controle, mas acabo girando o volante demais e o carro derrapa. Piso no freio com força, mas o carro bate contra um poste telefônico. Um estalo de metal e vidro. O carro para, sacudindo todo o meu corpo. Nicky está em pânico, soluçando de medo, e Nate continua imóvel ao meu lado. — p***a! — grito, batendo as mãos no volante. Lágrimas quentes me cegam por um momento, mas eu as engulo. Inclino-me para trás, tentando acalmá-la com a voz mais suave que posso reunir. — Está tudo bem, querida. Nós vamos ficar bem. Eu prometo. Mas a verdade é que não sei. Não sei o que diabos vou fazer agora. O silêncio do carro, quebrado apenas pelos limpadores de para-brisa e os soluços de Nicky, me envolve. Então meu celular vibra. Olho para ele e vejo várias mensagens. Todas ameaças. Palavras nojentas que me dizem que eu deveria ter “chupado o p*u” e que o que está por vir será mil vezes pior. Promessas de violência, estupro e escravidão. O sangue some do meu rosto. Eu sei que não posso ir à polícia. Não aqui. Eles não vão me proteger. Eles pertencem aos mesmos homens que querem me destruir. Mas… há uma pessoa. Um homem que me assusta mais do que a máfia irlandesa. O único que talvez possa me proteger. Mesmo que a última vez que o vi tenha sido quatro anos atrás, mesmo que ele provavelmente me odeie. Desligo o telefone e o jogo no banco de trás. Engulo o medo, as lágrimas e a dor. Respiro fundo, engato a marcha e afasto o carro do poste. Felizmente o carro ainda anda. Saio de lá o mais rápido que posso. Dirijo sem parar, os arredores da cidade se tornando meu único destino. Depois de me perder três vezes, finalmente vejo os portões de ferro iluminados por holofotes. Eles são altos, imponentes, com um muro de pedra cercando toda a propriedade. Quando me aproximo, dois homens de terno escuro saem da cabine de segurança. Mesmo que meu corpo já esteja no limite, um arrepio gelado sobe pela minha espinha. Um deles ergue a mão, e eu paro o carro. Abaixo o vidro enquanto ele se inclina na minha direção. — A senhora pegou o caminho errado — diz ele, a voz carregada de um sotaque russo frio. — Volte por onde veio. — Não. Por favor, é aqui que eu preciso estar — imploro, minha voz trêmula. Ele balança a cabeça, impassível. — Não, não é. Vire-se e vá embora. — Por favor — repito, com a voz embargada. — Estou aqui para ver o Brendon. O nome o faz enrijecer. Sua mão vai para o coldre do casaco, os olhos duros. — Vai embora — diz ele, olhando para Nicky, atrás de mim. — Essa é sua última chance. De repente, uma campainha estridente ecoa. Os portões começam a se abrir, rangendo pesadamente enquanto a luz se intensifica. Um segundo depois, o guarda se afasta e faz um gesto para que eu avance. Seguro o volante com força, tentando não tremer. Não sei o que me espera lá dentro, mas não tenho escolha. Eu piso no acelerador, guiando o carro para dentro da propriedade, para o único homem que pode me salvar — ou me destruir por completo.
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