O Segredo que Queima

1114 Words
O barulho da chuva batendo contra o telhado da pensão parecia acompanhar o turbilhão de pensamentos de Melina. A cada gota que escorria pela janela, ela sentia o peso do tempo passando e a urgência daquilo que escondia. Já fazia semanas desde que descobrira a gravidez, mas ainda não havia contado a ninguém além de Luciana. O corpo começava a dar sinais mais evidentes. As náuseas matinais já não podiam ser disfarçadas tão facilmente. O rosto pálido, o cansaço e os olhares curiosos das outras moradoras da pensão denunciavam que algo estava acontecendo. Melina temia que logo não pudesse esconder mais. Naquela manhã, acordou mais cedo do que de costume. O enjoo a fez correr para o banheiro, onde se apoiou na pia de porcelana rachada. Ao olhar para o espelho, viu uma versão ainda mais frágil de si mesma. Os olhos escuros carregados, os cabelos desalinhados e a pele suada formavam o retrato da luta silenciosa que travava. “Você não pode fraquejar”, repetiu para si mesma. Era quase um mantra. Enquanto voltava ao quarto, encontrou Luciana no corredor. A amiga a analisou de cima a baixo, suspirando. — Você não pode continuar assim, Mel. Precisa tomar uma decisão. — Eu já tomei — respondeu, baixinho. — Vou ter esse bebê. Luciana arregalou os olhos, incrédula. — E como pretende criar uma criança, trabalhando como está? Você m*l consegue pagar o aluguel. — Eu dou um jeito. Sempre dei. Havia firmeza na voz de Melina, mas por dentro o medo ainda corroía cada pedaço dela. Nos dias seguintes, recusou diversos convites de clientes. Luciana tentou convencê-la a aceitar pelo menos alguns, mas Melina não conseguia mais se entregar àquela vida. O pensamento de carregar uma vida dentro dela transformava tudo. Cada vez que um homem a olhava com interesse, ela sentia o estômago embrulhar. Não queria que aquela criança crescesse sentindo a sombra da noite que pesava sobre ela. Precisava encontrar outra saída. Mas saída parecia ser um luxo distante. O dinheiro guardado m*l cobria as despesas básicas. As economias evaporavam rapidamente, e a dona da pensão já começava a cobrar com mais rigor. Em meio a tantas preocupações, uma dúvida maior a perseguia: contar ou não a Jonas? Ele tinha o direito de saber? Sim. Mas, ao mesmo tempo, a lembrança da postura firme dele, da maneira como parecia controlar tudo e todos, a assustava. Melina temia não ser levada a sério. Temia ser acusada de aproveitar-se da situação. Em algumas noites, ensaiava mentalmente o diálogo. Imaginava-se diante dele, tentando explicar. Mas a cena sempre terminava da mesma forma: com Jonas rindo, negando qualquer responsabilidade e a deixando sozinha. O coração dela se partia só de pensar nessa possibilidade. Foi numa tarde nublada que a decisão de procurá-lo quase se concretizou. Melina estava sentada em uma cafeteria modesta, com as mãos em volta de uma xícara de café que já havia esfriado. Havia anotado o endereço da empresa de Jonas em um pedaço de papel amassado. Ficou ali, encarando aquelas letras como se fossem um enigma. Luciana apareceu pouco depois e se sentou à frente dela. — Então, vai ou não vai? — perguntou, direta. Melina suspirou, apertando ainda mais o papel. — Eu… não sei. E se ele não acreditar? — E se acreditar? — rebateu Luciana. — Você não pode carregar isso sozinha para sempre. O silêncio se estendeu entre as duas. No fundo, Melina sabia que a amiga tinha razão. Mas a coragem não vinha. Acabou guardando o papel novamente na bolsa e deixou a cafeteria, com a sensação de estar fugindo não apenas de Jonas, mas do próprio destino. As semanas passaram, e o ventre de Melina começou a se arredondar. O segredo que antes era só dela agora se tornava visível. As outras garotas da pensão cochichavam, algumas com curiosidade, outras com malícia. — Vejam só, a santinha está grávida — ouviu uma delas comentar no corredor. — Aposto que nem sabe quem é o pai. As palavras feriram como navalhas. Melina correu para o quarto e fechou a porta, segurando as lágrimas. Abraçou o travesseiro e desejou desaparecer. Mas então, quase instintivamente, levou as mãos ao ventre e sussurrou: — Não ligue para o que dizem. Você tem a mim. Só a mim. A criança já era uma presença constante, um motivo para continuar. Certa noite, deitada na cama, Melina se perdeu em pensamentos. Imaginava o futuro da filha — embora ainda não soubesse se seria menina ou menino, no coração já chamava de “ela”. Imaginava o sorriso, o toque pequeno das mãos, a possibilidade de um amor puro e verdadeiro que nunca havia sentido antes. Foi nesse instante que uma chama de esperança se acendeu. Talvez não precisasse de Jonas. Talvez não precisasse de mais ninguém. Talvez pudesse criar aquela criança sozinha, longe dos olhares cruéis e do julgamento. Mas, ao mesmo tempo, uma voz insistente dentro dela lembrava: ele tinha o direito de saber. O conflito a consumia. Entre o medo da rejeição e o desejo de justiça, Melina caminhava em círculos sem encontrar saída. Certa madrugada, enquanto a chuva voltava a cair lá fora, ela tomou uma decisão. Levantou-se, acendeu a luz fraca do quarto e pegou novamente o papel com o endereço da empresa de Jonas. Desta vez, não o guardou de volta. Colocou-o na mesa, à vista, como se fosse um lembrete. — Amanhã eu vou — sussurrou para si mesma, determinada. Mas, quando a manhã chegou, a coragem desapareceu novamente. A cada passo que dava em direção à possibilidade de revelar a verdade, algo a puxava de volta. A lembrança do olhar julgador de tantos homens, o medo de mais uma rejeição. E assim, os dias se transformaram em semanas. O segredo queimava dentro dela, crescendo junto com o bebê. Melina já não conseguia dormir em paz. Sonhava com Jonas descobrindo por acaso, sonhava com confrontos que a deixavam em lágrimas ao acordar. Ainda assim, preferia suportar esse peso a arriscar perder o pouco de dignidade que lhe restava. Numa tarde silenciosa, sentada na janela do quarto, observou o céu se avermelhar com o pôr do sol. O mundo parecia seguir indiferente ao caos que vivia. As pessoas passavam apressadas pela rua, riam, conversavam, carregavam sacolas. E ela, parada ali, com a vida suspensa entre o medo e a esperança. Abraçou o ventre mais uma vez e murmurou: — Eu não sei o que vai ser de nós, mas prometo que vou tentar. Mesmo que o mundo inteiro esteja contra, eu vou lutar. A promessa ecoou dentro dela como um voto solene. E, pela primeira vez em muito tempo, Melina acreditou em suas próprias palavras.
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