Melina despertou com um nó no estômago. Não tinha dormido direito. O travesseiro ainda guardava o cheiro de perfume barato do quarto da pensão, misturado com o suor de homens estranhos que haviam estado ali na noite anterior. A lembrança lhe arrancou um arrepio de nojo. Era como se cada centímetro de sua pele estivesse marcado, contaminado por algo que não pertencia a ela.
Virou-se de lado e tentou espantar as imagens. Mas quanto mais lutava, mais a memória voltava. A mão pesada de um cliente agarrando seu braço com força, a respiração ofegante em seu ouvido, a promessa de pagamento seguida de exigências que ela nunca quis ouvir. Não tinha sido apenas físico. Era a sensação de ser um objeto, de ser reduzida a nada além de um corpo para satisfazer desejos alheios.
Com lágrimas secas no rosto, ergueu-se devagar. Os pés tocaram o chão frio, e ela olhou para si mesma no espelho quebrado apoiado no canto do quarto. As olheiras profundas denunciavam a ausência de paz. Os lábios, ressecados, tremiam. Havia apenas dezoito anos, mas o reflexo mostrava alguém que parecia mais velha, marcada antes do tempo.
— Você escolheu isso… — sussurrou, embora no fundo soubesse que não havia sido escolha.
Lembrava-se de quando acreditara nas palavras de Cláudia, a mulher que a convencera de que aquilo era uma saída. A mesma Cláudia que lhe dissera que era apenas “um trabalho”, que bastava se acostumar. Mas nada, absolutamente nada, poderia normalizar aquela dor.
Melina vestiu a roupa simples que tinha guardada — uma blusa azul desbotada e um jeans gasto. Precisava sair daquele quarto sufocante. Pegou a bolsa, onde algumas notas amassadas repousavam. Era o pagamento da noite anterior, a quantia que deveria garantir comida e o aluguel da pensão.
Saiu para a rua. O sol da manhã feria seus olhos cansados. A cidade já fervilhava de movimento, mas ela se sentia deslocada, como uma sombra entre pessoas que tinham destinos melhores. Seguiu em direção a uma padaria próxima. O cheiro de pão fresco e café invadiu suas narinas, despertando uma fome que se misturava com náusea. Pediu um café simples e um pão na chapa, sentando-se em uma mesa afastada.
Enquanto comia, observava os outros clientes. Famílias, trabalhadores, estudantes. Todos pareciam pertencer a algo. Todos, menos ela.
— Melina? — uma voz conhecida a tirou de seus pensamentos.
Ergueu o olhar e viu Cláudia aproximando-se. Estava elegante como sempre, com maquiagem impecável e roupas chamativas.
— Que cara é essa? — perguntou, sentando-se sem ser convidada. — Não me diga que ainda está pensando na noite de ontem.
Melina não respondeu. Apenas abaixou os olhos para o café.
— Escuta, garota, você precisa se acostumar. Isso faz parte. Quanto mais cedo entender, mais fácil será. — Cláudia sorriu, como se estivesse oferecendo um conselho de amiga. — E, se fizer direito, pode ganhar muito mais.
Melina sentiu a raiva subir. Apertou a xícara entre os dedos.
— Você disse que era só para pagar umas contas. Que seria por pouco tempo. — Sua voz falhou. — Mas eu sinto que cada vez afundo mais.
Cláudia suspirou, revirando os olhos.
— Afundar? Não seja dramática. Você tem sorte de estar comigo. Quantas meninas dariam tudo para ter a mesma chance?
Dinheiro rápido, clientes dispostos a pagar caro… é só saber jogar.
Melina balançou a cabeça.
— Chance? Isso não é uma chance. É uma prisão.
O silêncio entre as duas pesou. Cláudia a encarou, agora com expressão mais dura.
— Escute bem, Melina. Você acha que pode simplesmente largar? Não é assim que funciona. Você me deve. Eu cuidei de você, arrumei lugar para morar, arrumei clientes. Se virar as costas agora, vai descobrir que o mundo não é nada gentil.
As palavras eram ameaçadoras, ainda que envoltas em um tom suave. Melina sentiu o coração acelerar. Sabia que Cláudia não falava por falar.
— Eu só quero uma vida diferente… — murmurou.
— Então aguente firme. — Cláudia levantou-se, ajeitando a bolsa no ombro. — Pense no dinheiro. Pense no futuro. Quem sabe um dia consegue sair. Mas, por agora, você é minha responsabilidade. Não me faça me arrepender de ter ajudado você.
E, sem esperar resposta, deixou a padaria.
Melina respirou fundo, tentando se recompor. As mãos tremiam. Sentia-se presa em uma teia invisível. Não havia como escapar. Pelo menos não naquele momento.
Terminou o café em silêncio, e seguiu o dia como pôde. Comprou alguns mantimentos, voltou para a pensão e tentou dormir um pouco. Mas o sono não veio. Apenas pensamentos confusos, lembranças dolorosas e o medo constante do que a esperava na próxima noite.
Quando o sol começou a se pôr, ouviu batidas na porta.
— Melina? — era a voz de Cláudia.
Abriu devagar. A mulher entrou, perfumada e segura de si.
— Hoje você tem um cliente especial. É importante. E paga bem. — sorriu, como se fosse uma boa notícia. — Então se arrume.
Coloque aquele vestido preto que eu te dei.
— Eu não quero… — Melina tentou protestar.
— Não é questão de querer. — Cláudia a interrompeu. — É questão de sobreviver.
E saiu, sem dar espaço para discussão.
Melina fechou a porta com um suspiro. Pegou o vestido preto pendurado no cabide. Era justo demais, revelador demais. Vestiu-se com mãos trêmulas, sentindo-se engolida pelo tecido. Olhou-se no espelho quebrado e m*l reconheceu a própria imagem.
Horas depois, já estava em um carro que a levou a um hotel de luxo. O contraste com sua realidade era gritante. Tapetes vermelhos, lustres reluzentes, recepção impecável. Mas, para ela, aquilo não passava de um palco para mais uma noite de dor.
Foi conduzida até a suíte. O coração batia tão forte que parecia que iria desmaiar. Quando a porta se abriu, viu o homem que a aguardava. Alto, elegante, terno impecável. Os olhos escuros a examinaram de cima a baixo.
— Você é Melina? — perguntou, com voz firme.
Ela apenas assentiu.
Ele sorriu de canto.
— Ótimo. Então vamos começar.
E naquele instante, Melina soube que aquela seria uma noite diferente. Um divisor de águas. Porque, sem imaginar, estava prestes a conhecer Jonas, o homem que mudaria para sempre o rumo de sua vida.
E, ainda que não pudesse prever, seria também o homem que marcaria seu destino com cicatrizes que jamais desapareceriam.