O Primeiro Preço da Noite

1060 Words
Melina despertou com um nó no estômago. Não tinha dormido direito. O travesseiro ainda guardava o cheiro de perfume barato do quarto da pensão, misturado com o suor de homens estranhos que haviam estado ali na noite anterior. A lembrança lhe arrancou um arrepio de nojo. Era como se cada centímetro de sua pele estivesse marcado, contaminado por algo que não pertencia a ela. Virou-se de lado e tentou espantar as imagens. Mas quanto mais lutava, mais a memória voltava. A mão pesada de um cliente agarrando seu braço com força, a respiração ofegante em seu ouvido, a promessa de pagamento seguida de exigências que ela nunca quis ouvir. Não tinha sido apenas físico. Era a sensação de ser um objeto, de ser reduzida a nada além de um corpo para satisfazer desejos alheios. Com lágrimas secas no rosto, ergueu-se devagar. Os pés tocaram o chão frio, e ela olhou para si mesma no espelho quebrado apoiado no canto do quarto. As olheiras profundas denunciavam a ausência de paz. Os lábios, ressecados, tremiam. Havia apenas dezoito anos, mas o reflexo mostrava alguém que parecia mais velha, marcada antes do tempo. — Você escolheu isso… — sussurrou, embora no fundo soubesse que não havia sido escolha. Lembrava-se de quando acreditara nas palavras de Cláudia, a mulher que a convencera de que aquilo era uma saída. A mesma Cláudia que lhe dissera que era apenas “um trabalho”, que bastava se acostumar. Mas nada, absolutamente nada, poderia normalizar aquela dor. Melina vestiu a roupa simples que tinha guardada — uma blusa azul desbotada e um jeans gasto. Precisava sair daquele quarto sufocante. Pegou a bolsa, onde algumas notas amassadas repousavam. Era o pagamento da noite anterior, a quantia que deveria garantir comida e o aluguel da pensão. Saiu para a rua. O sol da manhã feria seus olhos cansados. A cidade já fervilhava de movimento, mas ela se sentia deslocada, como uma sombra entre pessoas que tinham destinos melhores. Seguiu em direção a uma padaria próxima. O cheiro de pão fresco e café invadiu suas narinas, despertando uma fome que se misturava com náusea. Pediu um café simples e um pão na chapa, sentando-se em uma mesa afastada. Enquanto comia, observava os outros clientes. Famílias, trabalhadores, estudantes. Todos pareciam pertencer a algo. Todos, menos ela. — Melina? — uma voz conhecida a tirou de seus pensamentos. Ergueu o olhar e viu Cláudia aproximando-se. Estava elegante como sempre, com maquiagem impecável e roupas chamativas. — Que cara é essa? — perguntou, sentando-se sem ser convidada. — Não me diga que ainda está pensando na noite de ontem. Melina não respondeu. Apenas abaixou os olhos para o café. — Escuta, garota, você precisa se acostumar. Isso faz parte. Quanto mais cedo entender, mais fácil será. — Cláudia sorriu, como se estivesse oferecendo um conselho de amiga. — E, se fizer direito, pode ganhar muito mais. Melina sentiu a raiva subir. Apertou a xícara entre os dedos. — Você disse que era só para pagar umas contas. Que seria por pouco tempo. — Sua voz falhou. — Mas eu sinto que cada vez afundo mais. Cláudia suspirou, revirando os olhos. — Afundar? Não seja dramática. Você tem sorte de estar comigo. Quantas meninas dariam tudo para ter a mesma chance? Dinheiro rápido, clientes dispostos a pagar caro… é só saber jogar. Melina balançou a cabeça. — Chance? Isso não é uma chance. É uma prisão. O silêncio entre as duas pesou. Cláudia a encarou, agora com expressão mais dura. — Escute bem, Melina. Você acha que pode simplesmente largar? Não é assim que funciona. Você me deve. Eu cuidei de você, arrumei lugar para morar, arrumei clientes. Se virar as costas agora, vai descobrir que o mundo não é nada gentil. As palavras eram ameaçadoras, ainda que envoltas em um tom suave. Melina sentiu o coração acelerar. Sabia que Cláudia não falava por falar. — Eu só quero uma vida diferente… — murmurou. — Então aguente firme. — Cláudia levantou-se, ajeitando a bolsa no ombro. — Pense no dinheiro. Pense no futuro. Quem sabe um dia consegue sair. Mas, por agora, você é minha responsabilidade. Não me faça me arrepender de ter ajudado você. E, sem esperar resposta, deixou a padaria. Melina respirou fundo, tentando se recompor. As mãos tremiam. Sentia-se presa em uma teia invisível. Não havia como escapar. Pelo menos não naquele momento. Terminou o café em silêncio, e seguiu o dia como pôde. Comprou alguns mantimentos, voltou para a pensão e tentou dormir um pouco. Mas o sono não veio. Apenas pensamentos confusos, lembranças dolorosas e o medo constante do que a esperava na próxima noite. Quando o sol começou a se pôr, ouviu batidas na porta. — Melina? — era a voz de Cláudia. Abriu devagar. A mulher entrou, perfumada e segura de si. — Hoje você tem um cliente especial. É importante. E paga bem. — sorriu, como se fosse uma boa notícia. — Então se arrume. Coloque aquele vestido preto que eu te dei. — Eu não quero… — Melina tentou protestar. — Não é questão de querer. — Cláudia a interrompeu. — É questão de sobreviver. E saiu, sem dar espaço para discussão. Melina fechou a porta com um suspiro. Pegou o vestido preto pendurado no cabide. Era justo demais, revelador demais. Vestiu-se com mãos trêmulas, sentindo-se engolida pelo tecido. Olhou-se no espelho quebrado e m*l reconheceu a própria imagem. Horas depois, já estava em um carro que a levou a um hotel de luxo. O contraste com sua realidade era gritante. Tapetes vermelhos, lustres reluzentes, recepção impecável. Mas, para ela, aquilo não passava de um palco para mais uma noite de dor. Foi conduzida até a suíte. O coração batia tão forte que parecia que iria desmaiar. Quando a porta se abriu, viu o homem que a aguardava. Alto, elegante, terno impecável. Os olhos escuros a examinaram de cima a baixo. — Você é Melina? — perguntou, com voz firme. Ela apenas assentiu. Ele sorriu de canto. — Ótimo. Então vamos começar. E naquele instante, Melina soube que aquela seria uma noite diferente. Um divisor de águas. Porque, sem imaginar, estava prestes a conhecer Jonas, o homem que mudaria para sempre o rumo de sua vida. E, ainda que não pudesse prever, seria também o homem que marcaria seu destino com cicatrizes que jamais desapareceriam.
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