O Homem da Suíte

976 Words
A porta da suíte fechou-se atrás de Melina com um estalo que pareceu selar seu destino. O coração dela pulsava forte, cada batida ecoando nos ouvidos. As luzes baixas, o perfume amadeirado que pairava no ar e o silêncio pesado a faziam sentir-se como uma presa prestes a ser devorada. Jonas, o homem à sua frente, caminhou até o bar da suíte com passos seguros. Tirou o paletó e o pendurou na cadeira próxima. A camisa branca justa moldava seu corpo definido, transmitindo uma imponência natural. Serviu-se de um uísque, e apenas então voltou os olhos escuros para Melina. — Sente-se. — Sua voz não era um pedido, era uma ordem. Ela obedeceu, embora suas pernas tremessem. Sentou-se na beira da cama, com as mãos entrelaçadas para esconder o nervosismo. Jonas se aproximou devagar, como se estivesse analisando cada detalhe dela. — Cláudia falou de você. Disse que era nova, diferente. — Um meio sorriso se formou em seus lábios. — E, olhando agora, vejo que ela não mentiu. Melina manteve o olhar baixo, sem coragem de encarar diretamente. — Qual o seu nome? — ele perguntou. — Melina… — respondeu num fio de voz. — Melina… — repetiu, saboreando a sonoridade. — Um nome bonito para uma garota bonita. As palavras deveriam soar como um elogio, mas para ela eram apenas mais uma camada de tensão. Estava acostumada a ser reduzida à aparência, ao corpo. Mas havia algo diferente no modo como Jonas a observava. Não era apenas desejo, havia também curiosidade, uma estranha atenção que a desconcertava. Ele se sentou na poltrona em frente, cruzando as pernas com calma. — Quantos anos tem? — Dezoito. — respondeu sem pensar, embora a vergonha queimasse seu rosto. Jonas arqueou as sobrancelhas. — Tão jovem. — tomou um gole do uísque. — E já nesse mundo… é um desperdício. A frase atingiu Melina em cheio. Nenhum homem havia dito aquilo antes. Todos a tratavam como mercadoria, mas ele a olhava como se houvesse algo além. — Eu… não tive escolha. — murmurou. Jonas inclinou a cabeça, interessado. — Ninguém nunca tem. — retrucou, enigmático. — Mas a vida cobra de formas diferentes. O silêncio se instalou novamente. Melina queria desaparecer, mas ao mesmo tempo algo nela a fazia permanecer. Jonas não se apressava, não avançava como os outros. Estava apenas… estudando-a. — Fique à vontade. — disse, por fim, apontando para a mesa. — Se quiser beber, coma algo. Ela balançou a cabeça. — Prefiro não. Ele sorriu, quase divertido. — Prudente. Gosto disso. Levantou-se e caminhou até a janela, de onde se via a cidade iluminada. — Olhe. — disse, abrindo as cortinas. — Milhares de pessoas lá embaixo, cada uma com sua história. Algumas tão distantes, outras tão parecidas. Você já pensou em como é frágil a linha que separa uma vida comum de uma vida… como a sua? Melina aproximou-se lentamente, sem entender o motivo de seguir aquele comando silencioso. Fitou as luzes da cidade. Uma parte dela queria responder, outra apenas queria fugir. — Eu não escolhi estar aqui. — disse, com a voz embargada. — Mas parece que todo caminho que tentei seguir me trouxe até este ponto. Jonas virou-se para encará-la. Seus olhos não tinham piedade, mas também não tinham desprezo. — Você ainda tem algo que muitos já perderam. — afirmou. — Inocência. Não no corpo, mas no olhar. Melina desviou o rosto, sentindo as lágrimas ameaçarem. — Isso não importa mais. — Importa para mim. — respondeu, sem hesitar. A frase a desconcertou. Nenhum cliente falava assim. Nenhum a olhava como ele. Jonas estendeu a mão, tocando levemente o queixo dela para fazê-la encará-lo. O gesto foi firme, mas não agressivo. — Hoje, não quero pressa. — disse em tom baixo. — Apenas esteja aqui. O coração de Melina disparou. Uma mistura de medo e algo que não sabia nomear. O toque dele era diferente, e, ainda que sua mente gritasse para se proteger, seu corpo reagia de outra forma. — Por quê? — ela ousou perguntar. — Por que me trata diferente? Jonas a observou por longos segundos antes de responder. — Porque você me lembra… algo que perdi há muito tempo. Ele não explicou, e Melina não perguntou mais. Havia dor no olhar dele, uma sombra que a fez calar. A noite avançou em um ritmo estranho. Ao contrário do que esperava, Jonas não a consumiu de imediato. Conversaram. Ele lhe fez perguntas sobre infância, sonhos, medos. E, embora ela tentasse manter as respostas curtas, acabava se entregando sem perceber. Era como se aquelas palavras roubassem pedaços dela, mas também lhe devolvessem algo: a sensação de ser vista. Quando finalmente se aproximou, foi com uma suavidade inesperada. O beijo não foi brutal, mas lento, como se tivesse todo o tempo do mundo. E, naquele momento, Melina sentiu-se dividida entre dois mundos: o da dor que a marcava e o da estranha ternura que ele lhe oferecia. Mas a realidade a golpeou quando percebeu que ele não usara proteção. Tentou interromper, tentou falar, mas Jonas a segurou com firmeza. — Confie em mim. — disse, quase como uma promessa. E ela, contra toda a razão, cedeu. Quando tudo terminou, Melina ficou deitada ao lado dele, o coração acelerado, a mente em turbilhão. Jonas dormia com tranquilidade, como se nada tivesse acontecido. Mas dentro dela, algo mudara. Enquanto fitava o teto da suíte, lágrimas silenciosas escorreram por sua face. Não sabia por que, mas sentia que aquela noite carregava um peso maior do que todas as outras. Um presságio se formava em seu peito. Algo que, meses depois, se revelaria como o primeiro passo para a vida que jamais imaginara. Porque ali, naquela cama de hotel, a história de Melina e Jonas estava apenas começando. E junto dela, o destino de uma vida que nasceria entre sombras e meia-noite.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD