A vida não tinha dado tréguas a Melina. O quarto pequeno e abafado onde morava agora parecia mais sufocante do que nunca.
O ventilador velho, girando preguiçosamente no teto, empurrava o ar quente de um lado para o outro sem trazer qualquer alívio.
Ela estava sentada na beira da cama, olhando para os próprios joelhos e tentando ignorar o peso esmagador que se acumulava dentro dela. Desde que aceitara seguir Luciana naquela primeira noite, sua rotina havia mudado radicalmente.
Não havia mais a inocência de antes. Agora, Melina se via mergulhada em um mundo onde sua própria pele tinha preço. E, por mais que odiasse admitir, esse preço sustentava o aluguel, a comida e o mínimo de estabilidade que conseguia ter.
Luciana, sempre persuasiva, dizia que com o tempo seria mais fácil, que ela aprenderia a se desligar. Mas Melina não conseguia desligar nada. Cada cliente ficava gravado em sua memória como uma cicatriz invisível. O perfume enjoativo de alguns homens, as palavras de outros, os olhares de desprezo ou de posse. Era como se pedaços dela fossem arrancados em cada encontro, até não sobrar nada.
Naquela noite em especial, o telefone vibrou com uma mensagem curta de Luciana:
“Hoje você tem um cliente especial. Pagamento alto. Esteja pronta às dez.”
Melina leu aquelas palavras e sentiu o estômago se revirar. Cliente especial nunca era algo bom. Isso significava exigências fora do comum, homens que acreditavam ter o direito de comprar tudo – inclusive sua dignidade. Mas ela não tinha opção.
O relógio marcava oito da noite. Ela se levantou, respirou fundo e caminhou até o pequeno guarda-roupa. Suas roupas estavam misturadas: algumas peças simples do dia a dia e outras que Luciana havia dado, curtas e provocativas, feitas para chamar atenção. Melina escolheu um vestido preto justo, que realçava suas curvas sem revelar demais. Ao se olhar no espelho, m*l reconheceu a garota refletida ali.
O brilho infantil nos olhos já não existia. No lugar, havia uma mulher marcada por noites m*l dormidas e lágrimas escondidas.
Quando deu dez horas em ponto, um carro preto estacionou em frente à pensão onde morava. O motorista não disse uma palavra; apenas abriu a porta e esperou que ela entrasse. O silêncio dentro do veículo era desconfortável, e Melina manteve os olhos fixos na janela durante todo o trajeto.
Após alguns minutos, chegaram a um hotel de luxo. O tipo de lugar que ela jamais teria condições de entrar se não fosse por aquele motivo. O motorista a conduziu até a recepção, onde uma funcionária já estava à espera.
— Senhorita Melina? — perguntou a recepcionista com um sorriso ensaiado.
Melina apenas confirmou com a cabeça, sentindo o coração acelerar.
— O senhor a espera na suíte presidencial.
As palavras ecoaram em sua mente. Suíte presidencial. O cliente especial realmente não economizava. A funcionária a acompanhou até o elevador e apertou o botão do último andar. O silêncio entre as duas era incômodo, mas Melina não tinha forças para falar nada.
Quando as portas se abriram, ela foi conduzida até uma porta imponente. A funcionária se retirou discretamente, e Melina respirou fundo antes de bater.
A porta se abriu quase de imediato, revelando um homem alto, de cabelos escuros perfeitamente alinhados e olhar penetrante.
Ele não era como os outros clientes que já havia visto. Estava impecavelmente vestido em um terno sob medida, transmitindo poder e autoconfiança.
— Então você é a Melina — disse ele, a voz grave preenchendo o espaço.
Ela assentiu, sem saber exatamente como responder.
— Entre.
O quarto era enorme, decorado com luxo e sofisticação. Cortinas pesadas bloqueavam a vista da cidade, e a iluminação suave criava uma atmosfera quase intimidadora. Melina sentiu as pernas tremerem levemente, mas se esforçou para manter a postura.
O homem serviu duas taças de vinho e entregou uma a ela.
— Não precisa ter medo — disse, observando cada movimento dela. — Eu não mordo.
Mas havia algo no tom de sua voz que fazia Melina desconfiar. O tipo de calma que escondia intenções imprevisíveis.
— Qual é o seu nome? — ela perguntou, tentando desviar o foco de si mesma.
Ele sorriu de forma enigmática.
— Jonas.
O nome ficou marcado na mente dela. Jonas.
Durante alguns minutos, eles conversaram de forma superficial. Ele perguntou sobre a vida dela, mas Melina respondeu de maneira vaga, sem revelar muito. Jonas parecia mais interessado em observá-la do que em realmente ouvir suas respostas.
Em determinado momento, ele se aproximou e tocou levemente a mão dela. O contato fez o coração de Melina disparar. Diferente de outros clientes, não havia pressa nem grosseria em seus gestos. Havia controle. Como se ele estivesse acostumado a ter o mundo inteiro aos seus pés.
E, de certa forma, isso a assustava ainda mais.
A noite avançou, e Melina percebeu que Jonas não era como os homens que a tratavam como objeto descartável. Ele a olhava como se tentasse desvendar cada detalhe, como se quisesse ultrapassar as barreiras que ela havia construído. Isso a confundia.
Porque, mesmo sem querer, sentia-se atraída por ele.
Mas a atração vinha acompanhada de medo. Medo de se apegar, de acreditar que poderia ser diferente, e de se machucar ainda mais no processo.
Horas depois, já de volta ao pequeno quarto da pensão, Melina não conseguia dormir. As lembranças daquela noite estavam vivas demais em sua mente. O toque de Jonas, o olhar intenso, o jeito como parecia enxergar além da superfície.
Ela sabia que estava em perigo. Porque, pela primeira vez, um cliente havia mexido com algo dentro dela.
E isso era o que mais temia.
Nos dias seguintes, a rotina de Melina se manteve pesada. Mas, inesperadamente, Jonas voltou a procurá-la. Não apenas uma vez, mas várias. Sempre com a mesma postura controlada, sempre pagando generosamente, mas deixando claro que havia algo além da simples transação.
Luciana começou a notar.
— Esse cara está diferente — comentou certa noite, enquanto ajeitava a maquiagem diante do espelho. — Normalmente eles querem variar, trocar de garota como quem troca de roupa. Mas ele só pede por você.
— E o que isso significa? — Melina perguntou, tentando soar indiferente.
Luciana sorriu de forma maliciosa.
— Significa que você pode ter encontrado sua galinha dos ovos de ouro.
Mas Melina não queria isso. Não queria ser sustentada por ninguém, muito menos presa a um homem que poderia destruí-la quando bem entendesse.
O problema era que, apesar de todos os alertas internos, ela sentia algo diferente sempre que estava com Jonas. Algo que não conseguia controlar.
E foi em uma dessas noites, quando a tensão se tornou impossível de ignorar, que aconteceu.
Melina não conseguiu manter a distância. Jonas a envolveu em seus braços, e, pela primeira vez, ela não se sentiu apenas usada.
Sentiu-se desejada. Sentiu-se mulher, e não mercadoria.
No entanto, o destino tinha planos cruéis.
Na pressa do momento, na intensidade do desejo, eles não usaram proteção.
E aquela única noite se tornaria o ponto de virada na vida de Melina.
Porque, semanas depois, ela perceberia que não estava mais sozinha.
Havia uma nova vida crescendo dentro dela.