O Homem do Destino

1182 Words
O barulho dos saltos ecoava pelo corredor luxuoso do hotel, misturando-se ao som abafado de risadas e música vindo do salão principal. Melina caminhava atrás de Clarice, sentindo o coração bater em descompasso. O vestido preto justo parecia apertar mais do que deveria, e o batom vermelho, escolhido por Clarice, pesava como uma máscara sobre os lábios. — Relaxe — sussurrou Clarice, sem virar o rosto. — Esse cliente é diferente. Vai te tratar bem, vai te pagar melhor ainda. Só precisa sorrir e fingir que está se divertindo. Melina assentiu em silêncio, embora cada fibra de seu corpo gritasse que queria estar em qualquer outro lugar. O elevador parou no último andar, e as portas se abriram revelando um corredor silencioso, iluminado por luzes douradas. Clarice conduziu-a até uma porta. — Lembre-se, menina: não desperdice essa chance. — Piscou um olho antes de abrir. O quarto era amplo, decorado com sofisticação que Melina jamais havia visto de perto. Tapete macio, cortinas pesadas, móveis de madeira escura e um aroma discreto de whisky misturado com perfume caro. Sentado em uma poltrona próxima à janela, estava ele. Jonas. O coração de Melina quase parou. Não esperava revê-lo tão cedo. Vestia um terno impecável, gravata afrouxada, copo de cristal na mão. O olhar dele se ergueu lentamente, fixando-se nela como quem analisa uma obra de arte. — Então, essa é a novidade? — perguntou, dirigindo-se a Clarice. — Sim, Jonas. — Clarice sorriu, como sempre bajuladora. — Tenho certeza de que vai gostar. Ele fez um gesto com a mão, dispensando-a. Clarice obedeceu de imediato, saindo do quarto e fechando a porta atrás de si. O silêncio que se seguiu foi quase sufocante. Melina permaneceu parada, sem saber o que fazer. Jonas bebeu um gole do whisky, ainda sem desviar os olhos dela. — Você outra vez — murmurou, quase para si mesmo. — Achei que nunca mais veria aqueles olhos. A voz dele fez o corpo de Melina estremecer. Parte de si queria fugir, mas seus pés pareciam grudados no tapete. — Eu... não sabia que seria você — respondeu, baixando o olhar. Jonas pousou o copo sobre a mesa de vidro e se levantou. A imponência de sua figura encheu o espaço. Caminhou devagar até ela, cada passo marcado por autoridade. Quando parou à sua frente, ergueu-lhe o queixo com um dedo, forçando-a a encará-lo. — Está com medo? — perguntou, quase em tom de provocação. — Não... — A voz dela saiu fraca, denunciando a mentira. Ele sorriu de canto, como quem se diverte com a própria superioridade. — Boa garota. O silêncio voltou a dominar. Melina podia ouvir apenas a batida acelerada de seu próprio coração. Jonas a analisava como se quisesse decifrá-la. Não havia lascívia barata em seu olhar, mas sim um interesse frio, controlado. — Diga-me, Melina. — Ele pronunciou seu nome como se tivesse gosto. — Por que escolheu essa vida? A pergunta a atingiu em cheio. Arregalou os olhos, surpresa. — Como... como sabe meu nome? Jonas deu uma leve risada. — Eu sempre descubro o que quero. Melina engoliu em seco. Não tinha resposta. Não queria revelar sua miséria, tampouco expor as feridas que a haviam empurrado para aquele caminho. — Eu não escolhi... exatamente — murmurou, quase inaudível. Jonas ergueu uma sobrancelha. — Ninguém escolhe ser usado, é verdade. Mas ainda assim, você está aqui. — A proximidade dele a deixava sem ar. — E eu também. Por um momento, os dois ficaram presos naquele olhar. Era como se o mundo inteiro tivesse desaparecido, restando apenas a tensão invisível que os unia. Jonas foi o primeiro a quebrar o contato. Deu um passo para trás, afrouxando ainda mais a gravata. — Sente-se. — Apontou para a poltrona ao lado. Melina obedeceu, hesitante. Sentou-se na beirada, mãos entrelaçadas no colo, tentando parecer calma. Jonas serviu mais um pouco de whisky e ofereceu o copo a ela. — Não bebo muito — disse, recusando com um gesto. Ele a observou em silêncio por alguns segundos antes de dar de ombros e beber sozinho. — Diferente das outras — comentou, pensativo. — A maioria se apressa em aceitar qualquer coisa que eu ofereça. Você hesita. Por quê? Melina respirou fundo, buscando coragem. — Talvez porque eu ainda não tenha me acostumado a... isso. Jonas inclinou a cabeça, curioso. — E ainda assim está aqui. Ela não respondeu. Não havia palavras que explicassem a prisão invisível em que vivia. De repente, Jonas aproximou-se novamente, inclinando-se sobre ela. O perfume dele a envolveu, quente e amadeirado. — Não precisa ter medo, Melina. — A voz era baixa, quase um sussurro. — Eu não mordo. A menos que peça. Um arrepio percorreu sua espinha. Queria odiá-lo naquele instante, queria vê-lo apenas como mais um cliente. Mas não conseguia. Havia algo nele que a atraía contra a própria vontade. Jonas pousou a mão sobre a dela, firme. — Hoje, você não vai fingir. Quero a verdade nos seus olhos. Melina sentiu o peito apertar. Era impossível. Como mostrar a verdade quando sua vida inteira era uma máscara? Ainda assim, o olhar dele parecia exigir algo que ela mesma não entendia. Os minutos seguintes se arrastaram em silêncio. Até que, sem pensar, ela murmurou: — Eu não sei mais quem sou. Jonas a fitou por um instante longo, depois sorriu de forma quase imperceptível. — Finalmente, uma resposta honesta. O clima mudou. Não havia mais apenas tensão, mas também uma estranha cumplicidade. Jonas se inclinou e a beijou. Não foi um beijo de urgência, nem de carência, mas de posse. Melina correspondeu, ainda que sua mente gritasse para resistir. Aquela noite não foi como as outras. Houve intensidade, mas também silêncio. Houve desejo, mas também algo mais profundo, que nenhum dos dois ousaria nomear. Horas depois, quando Jonas adormeceu ao seu lado, Melina permaneceu acordada. Observava o rosto dele à meia-luz, tentando entender por que se sentia tão diferente. Ele não era gentil, não era romântico, não era o herói dos contos que ela lia quando criança. Era arrogante, frio, distante. E ainda assim, havia algo nele que a prendia. “Você está se perdendo”, pensou, acariciando de leve o lençol. Mas uma parte de si já sabia que não havia mais volta. Ao amanhecer, Jonas levantou-se primeiro. Vestiu-se com a mesma calma de sempre, como quem coloca uma armadura. Antes de sair, deixou dinheiro sobre a mesa. Melina sentiu o coração se partir em silêncio. Parte dela havia acreditado que seria diferente. Ele parou à porta, olhando-a por um instante. — Até logo, Melina. E se foi, deixando atrás de si o mesmo vazio da primeira vez. Sozinha no quarto, ela deixou as lágrimas rolarem. Não sabia se chorava pela humilhação de ser tratada como mercadoria ou pela dor secreta de desejar um homem que jamais poderia ter. Enquanto caminhava para fora do hotel, carregando a mesma bolsa surrada de sempre, uma certeza crescia dentro dela: Jonas não seria apenas mais um capítulo em sua vida. Ele seria o livro inteiro — para o bem ou para o m*l.
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