AIDEN FOX
Rubens Trajano estava radiante no centro do salão, abraçando convidados, rindo alto, e segurando uma taça de espumante como se fosse a chave do mundo. Quando a banda parou a música, ele pegou o microfone.
— Quero agradecer a todos por estarem aqui hoje… — fez uma pausa dramática e olhou para cima — e quero a minha filha aqui para cantar os parabéns comigo, Liv, filha, vem aqui.
Lívia apareceu no topo da escada, o vestido azul iluminado pelas luzes. Tão linda, que parecia não ser real, sorria para o pai como se nada tivesse acontecido entre nós minutos antes. Desceu devagar, elegante, e se posicionou ao lado dele,.que a abraçou com carinho.
Eu permaneci de longe, atento a cada pessoa que se aproximava, analisando rostos, mãos, e bolsos.
Parabéns cantados, velas apagadas, aplausos. Tudo parecia sob controle.
Até que não estava.
Porque no instante em que olhei para o lado para checar a entrada, ela sumiu.
Meu sangue ferveu, p***a, essa menina está me testando em todos os sentido, tanto no pessoal, quanto no profissional, já trabalhei com pessoas mais mimadas que não me deram tanto trabalho, que não fugia de mim, só num virar de rosto.
Revirei o salão, chequei a cozinha, o corredor lateral, e nada. Essa garota estava testando minha paciência de propósito.
Peguei o rádio.
— Fletcher, posição da menina.
A voz dele veio carregada de divertimento.
— Acho que você vai gostar de ver isso com seus próprios olhos. Piscina, lado oeste.
Saí sem perder tempo. E foi aí que vi.
Lá estavam eles, sentados na grama ao lado da piscina. Fletcher com a gravata afrouxada, Lívia de pernas cruzadas, os dois segurando pedaços de bolo e rindo alto como se fossem amigos de infância.
Eu conhecia meu irmão. Esse sorrisinho dele não era só simpatia, era provocação.
Aproximei-me devagar.
— Lívia. — Minha voz saiu seca.
Ela olhou para mim e abriu um sorriso.
— Oi, gigantãorabugento. Quer um pedaço de bolo?
— Quero você dentro da casa. Agora.
Fletcher deu uma garfada no bolo e falou com a boca cheia.
— Relaxa, irmão. Só estamos aproveitando a festa. Não pode rir um pouco?
— Ela não deveria estar aqui fora sem escolta.
— Ah, mas eu sou escolta. — Ele piscou para ela. — E, pelo jeito, mais divertido que você.
Lívia riu alto.
— É verdade, Fletcher é engraçado, o rabugento não.
Aquilo me incomodou mais do que deveria. Eu não gostava de ver ela tão relaxada com ele. Conhecia essa garota há dois dias e ela já estava bagunçando minha cabeça.
— Vamos. — Mantive a voz firme.
Fletcher arqueou uma sobrancelha.
— Que foi? Ficou com medo que eu roube a sua protegida?
— Não é minha protegida. É meu trabalho.
— Uhum. Claro. — Ele deu outra garfada, me olhando com aquele sorrisinho irritante. — E por isso você tá com essa cara de quem acabou de ver a ex com outro.
— Fletcher… — avisei.
— Aiden… — ele respondeu no mesmo tom, debochado. — Relaxa, eu só estava perguntando sobre o relógio que ela deu pro pai. Olha, até me mostrou umas fotos do processo.
Lívia completou, divertida.
— Ele disse que se eu quisesse podia encomendar um pra ele também.
Eu ri, mas sem humor.
— Engraçado. Vamos. Agora.
Ela bufou, mas se levantou. Fletcher, claro, não perdeu a chance.
— Cuida bem dela, irmão. E não morde.
— Se esse gigantão, continuar rabugento eu mordo sim. — ela diz, batendo a mandíbula como se fosse realmente morder, e aquilo foi lindo, p***a, ela era tão inocente, tão...
Caralho, Aiden, para com isso, p***a.
Me repreendi de novo, estou fazendo isso demais desde que coloquei os olhos nela.
Revirei os olhos e comecei a conduzi-la de volta para o salão.
Estávamos a poucos metros da porta quando aconteceu.
O som foi seco, rápido, reconhecível para quem já esteve no campo de batalha. Um disparo.
Não pensei. Só puxei Lívia para baixo e a cobri com meu corpo, rolando com ela até atrás do grande vaso de mármore que decorava a entrada da piscina.
— Fica abaixada. — Minha voz era pura ordem agora.
Ela estava imóvel, olhos arregalados, respirando rápido.
— Aiden…
— Shhh. — Eu tirei a pistola do coldre e fiz sinal para a equipe pelo rádio. — Tiro vindo da direção norte. Procurar atirador agora.
Mais dois estalos no ar, um ricochete na borda de pedra da piscina. Eu mudei de posição, mantendo ela protegida com o corpo, retiro meu colete e coloco nela.
— Você tá bem? — perguntei rápido.
Ela assentiu, mas eu sentia o corpo dela tremendo.
Fletcher apareceu correndo pelo lado esquerdo, arma em punho.
— Peguei o ângulo, Aiden, no alto da cerca, a uns cem metros, um atirador de elite.
— Vai. — Ordenei, mantendo Lívia abaixada.
Enquanto ele corria, minha mente estava dividida entre o trabalho e a estranha consciência de que eu conseguia sentir cada batida do coração dela contra meu peito.
Mais um disparo, o som de passos apressados no lado oposto. Depois silêncio.
— Área segura por enquanto — veio a voz de Fletcher no rádio. — Mas o atirador fugiu.
Abaixei a arma e finalmente olhei para ela. O rosto ainda estava pálido, mas os olhos… não tinham mais só medo.
— Você salvou a Liv. — disse baixo.
— É o meu trabalho. — Repeti, mas soou diferente dessa vez.
Porque no fundo, naquele instante, eu sabia que não era só trabalho.
— Obrigada, gigantão.
Ela então puxa nos meus braços, me abraçando, eu tento não ouvir os batimentos do meu coração se acelerar, tento ignorar o cheiro dela, o que sua presença em meus braços faz comigo, não, não aceito.
Empurro ela rapidamente. Ela cai no chão, eu me levanto.
— Sobe para o quarto, preciso vasculhara aérea, saber se tem mais atiradores.
— Não me deixa sozinha.
— Vai ter seguranças na sua porta, na varanda, não vai estar sozinha.
— Mas eu quero você.
— Eu sou seu segurança, como qualquer um aqui, não vai fazer diferença, eu ou qualquer outro.
Faço sinal para alguns outros seguranças, mando levar ela, que me olha, mas não diz nada, seguindo eles.