Cinco

998 Words
Betão narrando Não tem nada que me tire mais do sério do que moleque achando que virou patrão, Tava tranquilo na minha cela, ouvindo o radinho, quando chegou pra mim a fita de que o Saci tá metendo os pés pelas mãos. Dizem que ele tá se achando, tomando decisão errada, entrando em fria com gente que não era nem pra olhar, colocando o comando na linha de fogo. Já me subiu o sangue na hora. Esse moleque esqueceu como as coisas funcionam, Só porque tá de frente no morro acha que é dono de alguma coisa, Esquece que pra estar onde ele tá, eu tive que mandar. Esquece que pra eu tirar ele dali, é só assobiar. Peguei o celular que tá comigo aqui dentro e liguei pra ele. Fiz questão de mostrar que, mesmo enjaulado, sou eu quem dá a palavra. Betão: "E aí, vacilão, tá pensando que é quem? Tá achando que virou patrão agora, é?" Saci: "Não, chefe, cê tá me entendendo m@l" Betão: "M@l o caralh0! Tô sabendo de tudo, Tá querendo fazer nome nas minhas costas, botando o bonde na reta por conta de picuinha sua. Tá esquecendo que pra eu mandar te apagar, basta uma ligação? Silêncio do outro lado, Só o som da respiração dele, ofegante. Eu continuei, firme, sem dar espaço. Betão: "Eu tô enjaulado, mas meu espírito é livre, porr@. Não se esquece de quem é o chefe e quem é que obedece, Você só tá de frente, moleque, Só toma conta do que é meu. Tu não manda em nada, não é dono de porr@ nenhuma. Saci: "Foi m@l, Betão, me exaltei, foi erro meu, não vai mais acontecer." Betão: "Não vai mesmo, Porque se acontecer, nem enterro tu vai ter, Vai sumir que nem fumaça, Aqui é palavra e ordem. Tua função é executar, não questionar. Desde quando peão questiona o rei?" Ele tentou balbuciar mais umas desculpas, mas eu já tinha falado o que tinha que falar, Não sou de ficar batendo papo. Só quis que ele lembrasse com quem ele tá lidando. Aqui não tem essa de dar confiança pra pilantra crescer. Cresce hoje, trai amanhã. Desliguei na cara, Fiz questão. E avisei pra um dos meus aqui dentro. Betão: Qualquer movimento torto daquele moleque, tu me avisa. Quero saber até quando ele vai mijar. Porque comigo é assim, Não importa onde eu esteja, o comando é meu. Não deixei chegar onde cheguei sendo 0tário, E quem anda comigo sabe, traiu, caiu. Não tem choro, não tem volta. O morro tem dono, e esse dono sou eu. O resto é funcionário. O dia começou como qualquer outro nesse inferno, Acordei cedo com o barulho da grade batendo, o carcereiro gritando os nomes pro banho de sol, Levantei na moral, fiz minhas flexões, estalei o pescoço e fui pro pátio. Aqui dentro, cada movimento é observado. Se piscar errado, toma faca. Fiquei na minha, Conversei pouco. Só com os meus. Neguinho da Vila trouxe um café que arrumou com o bonde da cozinha, Tomamos olhando o pátio, analisando tudo. Depois joguei uma partida de dominó com o Cabeça, só pra passar o tempo. Ganhei as três. Ele saiu put0, como sempre. Almoço veio azedo, mas engoli. Já comi coisa pior em tempo de guerra. À tarde, recebi um recado de fora, Só umas palavras jogadas, sem urgência. Era coisa pequena, nada que me tirasse o sono. De noite, tava encostado no canto da cela, escutando um samba no radinho, quase dormindo, quando o Zóio me chamou pelo buraco da grade. Zóio: Patrão, a fita é grave. Pegaram o Saci enfiando a rol@ na tua mina, e não é qualquer mina não. É aquela novinha que tu disse que era tua. A tal da Suelen. Sentei na cama devagar, Respirei fundo. Fiquei mudo por uns segundos, mastigando a raiva, Meu maxilar travou. Mas ele continuou. Zóio: E tem mais, ele também tá marretando, a madrinha da garota, uma tal de Lúcia, já tá dizendo que se continuar, vai chamar os bota. Tá ameaçando fazer barulho. O sangue ferveu, Não era só traição, era desafio. O Saci sabe que essa mina tem meu nome cravado. Todo mundo lá fora sabe, Moleque tá se achando intocável. Tá confundindo liberdade com poder. E essa madrinha? Deve estar achando que tá lidando com bandido de novela. Peguei o celular escondido na marmita, disquei na hora. Saci atendeu na terceira chamada, com a voz pesada, provavelmente achando que era outra coisa. Betão: "Tu quer morrer? É isso mesmo, Saci? Tá achando que pode meter o c****e na minha mulher e sair por aí rindo?" Saci: "Betão, eu nem sabia que tu podia mandar nisso, Suelen disse que só era visita, foi sem querer." Betão: "Sem querer é tropeçar, porr@. Tu não só meteu como tá fazendo isso direto, E mais, tá chamando atenção, deixando madrinha ameaçar chamar a civil? Tu endoidou?" Saci: "Eu, eu resolvo isso, patrão, não precisa se preocupar." Betão: "Eu não me preocupo, eu mando. E se essa mulher abrir a boca, tu já vai estar morto antes dos bota chegar, E ela também, Tu vai resolver? Resolve agora. Ou eu resolvo por ti, mas vai ser no caixão." Desliguei sem esperar resposta, O silêncio da cela ficou pesado. Deitei, mas não dormi, Fiquei olhando o teto, imaginando como o Saci ia sangrar. Porque uma coisa eu garanto, mexeu no que é meu, vai pagar com a vida. Betão: Escuta aqui, Tu vai ligar pro Fiel, Diz que é pra colar na casa da madrinha da mina do Saci, ainda hoje. Bater na porta com educação, mas com o ferro na cintura. É só pra lembrar quem manda, Nada de sangue, por enquanto, Só pressão, Se abrir a boca de novo, aí sim, é caixão. Zóio acenou e sumiu no corredor. Aqui dentro é assim, as ordens saem, e o mundo gira lá fora. Mesmo enjaulado, minha palavra pesa mais que muito verme solto. Mais tarde, recebi retorno.
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