Três

1111 Words
Evelyn narrando Eu já tinha feito o almoço e tava terminando de botar as roupas no varal. O sol tava forte, daquele jeito que seca rapidinho, Eu tava na última peça, esticando bem pra não amassar, quando escutei uns gritos, vindo de dentro de casa. Saci: Evelyn! Ô, Evelyn! Tá ouvindo eu te chamar não, porr@? Na hora eu soube quem era, Nem precisei olhar, Só ele pra chegar desse jeito, fazendo escândalo como se eu fosse surda. Virei devagar e dei de cara com ele na porta da cozinha, com aquela cara de quem acha que o mundo gira ao redor dele. Evelyn: Que é, Saci? Tá vendo que eu tô ocupada não? Continuei fazendo o que eu tava fazendo, Não sou obrigada a parar tudo só porque ele chegou batendo no peito, Ele nem respondeu. Só veio andando, daquele jeito dele, todo cheio de si. Saci: Solta isso aí e vem me botar meu almoço, Tô cheio de fome. Revirei os olhos, mas fui, Se eu não fosse, ia ser briga na certa, e quem sabe até porrada. Terminei rapidinho o varal e entrei. Peguei o prato dele, coloquei a comida, deixei do jeitinho que ele gosta, mesmo com vontade de jogar o feijão quente na cara dele. Depois botei o meu também e sentei. A gente comeu em silêncio, mas só pra mim, Porque ele, como sempre, tava com os olhos enfiados no celular. Eu olhava pra ele e sentia aquele aperto, Porque o meu celular, ele tinha tomado. Disse que era porque eu tava demais nas mensagens com as meninas, Mentira, Era ciúme, era controle. Eu só queria rir um pouco, me distrair, mas pra ele isso era motivo de punição. Ele largou o celular de lado do nada, como se tivesse lembrado de algo importante. Saci: Vai ter pagode hoje, Os olheiro do Betão vai tá lá, Tenho certeza que tu quer ir? Olhou pra mim com aquela cara de "não tenho paciência". Como se eu tivesse escolha, como se aquilo fosse um convite. Evelyn: Quero sim. Respondi baixo, sem ânimo, Ate, porque, se eu dissesse não, ele ia me obrigar do mesmo jeito. Já aconteceu antes. Ele diz que me leva pra mostrar pros caras, como se eu fosse uma coisa, uma vitrine, Eu não tenho voz. Nunca tive. Ficamos ali mais um pouco, Eu comendo devagar, ele já empurrando o prato pro lado e voltando pro celular. A comida já não descia direito. Eu pensava em tudo que podia dar errado nesse pagode, e no tanto de cara que ia ficar me olhando, Não era por mim, Era porque ele gosta disso, de me exibir e se sentir dono. E eu só engulo. No fundo, eu só queria meu celular de volta, minhas conversas com as meninas, minhas risadas. Mas tudo isso ele levou, Tudo nele é assim, controle, grito, ordem, E eu? Eu vou indo, fingindo que tá tudo bem, porque às vezes, fingir é o único jeito de não enlouquecer. Fiz minhas unhas, e arrumei a sobrancelha, eu mesma né, porque Saci não me dá um real pra ir no salão, Meu cabelo é muito cacheado, e é grande dá trabalho pra lavar, tomei banho cedo e hidratei me cabelo, pelo menos shampoo e os produtos pro meu cabelo eu compro do bom, compro na farmácia aqui do morro, eles entregam e a conta vai pro Saci. Até agora ele nunca falou nada. Quando deu umas sete da noite, comecei a me arrumar, Eu não saio de qualquer jeito, não, Mesmo sem vontade nenhuma de ir, me arrumo como se fosse. Passei um hidratante cheiroso, coloquei aquele perfume daqueles que todo mundo comenta quando passo, ajeitei o cabelo, fiz uma make leve, só o básico pra realçar, que eu já sou bonita por natureza. Escolhi um vestido colado, mas discreto, e um salto confortável. No espelho, eu tava linda. Linda mesmo. Mas por dentro, eu só queria ficar em casa, de pijama e longe do Saci. Quando ele me viu pronta, só fez um sinal com a cabeça, aquele tipo de olhar que diz “é isso aí mesmo”, como se eu fosse um troféu. Não elogiou, não disse que eu tava bonita. Só ficou satisfeito em saber que eu ia aparecer pro povo como ele queria. Chegamos no pagode, A quadra tava cheia, gente sorrindo, música boa, cerveja gelada. Mas nada disso era pra mim, Saci me fez sentar numa mesa perto dos homens do Betão. Ele queria mostrar que tava bem acompanhado, queria exibir. Me botou ali, me deu uma latinha de cerveja e ficou andando de um lado pro outro, rindo, conversando, falando alto. Ele era outro ali no meio deles, Um amor, Sorria pra mim, fazia carinho no meu braço, me servia cerveja como se fosse o melhor namorado do mundo, Fingimento puro. Saci disse: Tá tudo certo, né, princesa? Sorri e balancei a cabeça, Claro que tava, Tava tudo certo pra ele. Fiquei sentada a noite toda, segurando aquela latinha, bebendo devagar, quieta. A música era boa, mas eu nem me mexia, O corpo pedia pra dançar, mas a alma tava cansada, Não era diversão, Era só mais um papel que eu tinha que cumprir. As meninas dançando, rindo, rodando o cabelo, e eu ali, parecendo uma boneca enfeitando a mesa. Queria ser livre, curtir a festa, poder dançar com quem eu quisesse. Depois de um tempo, olhei pra ele e falei. Emily: Tô com sono. Ele fez uma cara de contrariado, mas logo disfarçou porque os caras do Betão tavam perto, Saci respondeu. Saci: Bora, então, Vou te deixar em casa. No caminho, silêncio, Chegamos, entrei direto pro quarto, Tirei o vestido, pendurei com cuidado, fui pro banheiro, lavei o rosto. Coloquei meu babydoll de renda azul, bem leve, e me deitei. Quando achei que ele ia se deitar também, ouvi ele falar da porta. Saci: Vai dormir, Eu vou dar uma volta, curtir um pouco. Nem esperou a resposta, Nem queria responder mesmo. Ele saiu, bateu a porta, e eu fiquei ali, sozinha, Como sempre. Me ajeitei no travesseiro, puxei o lençol até o pescoço. Melhor dormir do que estar numa festa onde eu não posso sorrir, não posso dançar, não posso ser eu, Melhor dormir do que viver essa vida de fachada, de boneca exposta, de mulher sem voz. Olhei pro teto e suspirei. A casa tava em silêncio, mas dentro de mim o barulho era grande, Fico pensando quando foi que eu deixei de viver. Quando foi que ser bonita e cheirosa virou uma prisão, Virei pro lado e fechei os olhos. Pelo menos nos sonhos, eu ainda posso ser livre.
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