Capítulo 13 – Regras Que Ele Não Consegue Cumprir

1624 Words
Teo  Estabelecer regras sempre foi minha especialidade. Regras organizam o caos. Delimitam território. Impedem erros que custam caro demais para serem repetidos. Foi assim que construí tudo o que tenho. Impérios não se sustentam em impulsos. Sustentam-se em contenção. Por isso, quando decidi impor limites com Ayume, achei que estava fazendo o certo. Profissional. Necessário. Seguro. Nenhum toque. Nenhuma i********e fora do trabalho. Nenhuma confusão emocional. Simples. O problema é que regras não governam corpos. Governam intenções. E a minha estava comprometida. Observei Ayume atravessar o escritório naquela manhã com a pasta junto ao peito, como se fosse parte do corpo dela. O andar firme, o queixo erguido, a tentativa quase comovente de normalidade. Ela estava ali, inteira, mas havia algo vibrando sob a superfície — eu sentia mesmo sem olhar. Evitei encará-la. Essa foi a primeira regra quebrada: pensar que evitar o olhar resolveria alguma coisa. Passei a manhã em reuniões intermináveis, assinando documentos, decidindo o destino de pessoas que eu não conhecia pelo nome. Tudo funcionava como sempre funcionou. Minha mente afiada. Meu comando absoluto. Meu corpo, não. Cada vez que a porta se abria, eu esperava que fosse ela. Cada vez que um perfume diferente cruzava o ambiente, meu instinto errava o alvo por um segundo. Era irritante. Inaceitável. Controle não deveria falhar assim. Quando finalmente a chamei para revisar um cronograma, preparei o tom. Frio. Objetivo. Distante. Ela entrou e fechou a porta atrás de si com cuidado excessivo, como se soubesse que o silêncio ali dentro era outra coisa. — Precisamos ajustar a agenda da próxima semana — eu disse, sem levantar os olhos. Ela respondeu prontamente, profissional. Eficiente. Exatamente como deveria ser. A regra funcionava. Até eu levantar o olhar. Ayume estava mais próxima do que eu lembrava. Não fisicamente — mas presente. Os olhos atentos, a boca concentrada, o corpo inclinado levemente para frente enquanto me mostrava os dados no tablet. Um gesto simples. Técnico. Meu corpo reagiu como se fosse convite. Afastei a cadeira um centímetro. Um movimento quase imperceptível. Uma tentativa ridícula de criar espaço onde não havia perigo real. — Podemos redistribuir essas reuniões — ela sugeriu. Assenti, mas não ouvi a frase inteira. Estava ocupado demais reparando em como o pulso dela batia visível sob a pele. Como a respiração mudava quando eu chegava perto demais do que era aceitável. — Isso funciona — respondi, mais seco do que pretendia. Ela levantou o olhar por um instante. Rápido. Curioso. Como se tivesse percebido a tensão escapando pelas frestas. — Algum problema? — perguntou. O problema era eu. — Nenhum — menti. Ela assentiu e voltou ao tablet. O foco dela era real. O meu, não. Minha mão apoiada na mesa estava tensa demais. Os dedos queriam fechar, agarrar, conter algo que não se deixa conter. Regra número dois quebrada: achar que o desejo respeita hierarquia. Quando ela se afastou para pegar um arquivo na estante, acompanhei o movimento sem pensar. A curva contida do corpo, a concentração, a forma como ela existia sem pedir licença. Senti um calor baixo, inconveniente, percorrendo meu abdômen. Afastar-me seria o correto. Eu não me afastei. — Ayume — chamei, antes que o cérebro tivesse chance de intervir. Ela virou. — Sim? A distância entre nós era segura. Decente. Mas o ar estava diferente. Pesado demais para ser apenas trabalho. — Você tem se sentido pressionada? — perguntei. Não era pergunta de chefe. Era de homem tentando manter a última regra intacta. Ela hesitou um segundo. Pequeno demais para ser casual. — Não — respondeu. — Só… atenta. Atenta. A palavra ecoou dentro de mim. — Se algo ultrapassar seus limites… — comecei. Ela ergueu a mão, interrompendo com delicadeza firme. — Eu sei — disse. — Você já deixou isso claro. Havia algo ali. Um limite que ela me devolvia. Um espelho. E eu senti o impacto. Porque, naquele instante, percebi que não era apenas eu impondo regras. Ela também estava criando as dela. E isso mexeu comigo de um jeito perigoso. Respeito novamente. Sempre ele. — Certo — respondi, recuando meio passo. Regra número três quebrada: achar que recuar apaga o que já foi aceso. Ela voltou à mesa, organizou os papéis, e por um momento nossos dedos quase se tocaram ao mesmo tempo no mesmo documento. Quase. O quase rasgou meu controle. Meu corpo inclinou um milímetro antes que eu pudesse impedir. Nada aconteceu. Nada visível. Mas por dentro, tudo gritou. — Teo — ela disse, baixinho. Meu nome, sem título, sem formalidade. Foi ali que a regra caiu por completo. — Não — respondi imediatamente, mais para mim do que para ela. Ela franziu o cenho. — Não o quê? Respirei fundo. Profundo. Forçado. — Não aproxime mais — disse. — Por favor. O pedido saiu errado. Intenso demais. Pessoal demais. Ela entendeu. Vi nos olhos. — Eu não fiz nada — respondeu, calma. — Eu sei — admiti. — Esse é o problema. Silêncio. O tipo de silêncio que define rotas. Ela se afastou um passo, respeitando algo que eu mesmo não conseguia sustentar. Pegou a pasta, ajeitou os papéis e caminhou até a porta. Antes de sair, virou o rosto. — Você está tentando me proteger… ou se proteger de si mesmo? A pergunta me atravessou. Ela saiu sem esperar resposta. Fiquei ali, sozinho, com a verdade ecoando contra o vidro do escritório. As regras estavam todas no lugar. Claras. Bem-intencionadas. Mas meu corpo já tinha escolhido outro caminho. Encostei as mãos na mesa, sentindo a madeira fria sob os dedos quentes demais. Controle não é ausência de desejo. É escolha diária de não agir. E eu estava começando a entender o custo real disso. Porque impor limites quando o corpo trai não é força. É guerra interna. E eu nunca entrei numa guerra sem saber que alguém sairia ferido. A pergunta era simples e terrível: Seria ela… ou seria eu? Fiquei imóvel por alguns segundos depois que a porta se fechou. Não por choque — por contenção. Meu corpo inteiro parecia um animal mantido à força dentro de um espaço pequeno demais. Respiração controlada. Mandíbula rígida. Músculos tensos como se o perigo fosse externo, quando, na verdade, vinha de dentro. A pergunta dela não tinha sido acusação. Tinha sido diagnóstico. Você está tentando me proteger… ou se proteger de si mesmo? Passei a mão pelos cabelos e caminhei até a janela. A cidade continuava funcionando com a crueldade habitual. Pessoas atravessando faixas, decisões sendo tomadas em segundos, erros irreversíveis cometidos por impulso. Eu sempre fui diferente disso. Sempre observei de cima. Sempre calculei. Mas Ayume não era cálculo. Era variável. E variáveis são o terror de quem construiu a vida inteira em cima de controle. Encostei a testa no vidro frio. Precisava do choque para lembrar quem eu era. O reflexo me devolveu um homem tenso demais para estar parado. Um homem acostumado a mandar, não a pedir. E eu tinha pedido. Por favor. A palavra ainda ardia. Pedir nunca foi meu recurso. Eu ordeno. Organizo. Neutralizo ameaças. Peço apenas quando a ameaça não está fora — quando ela se forma dentro do peito, silenciosa, insistente. Voltei para a mesa e sentei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse me trair de novo. A cadeira rangeu. O som foi alto demais naquele escritório que agora parecia pequeno demais. Respirei fundo. Revi cada segundo da conversa, cada microgesto. O jeito como ela me interrompeu sem agressividade. O limite que ela devolveu com dignidade. Ayume não estava jogando. Não estava provocando. Ela estava consciente. E isso tornava tudo mais difícil. Porque mulheres que se perdem são fáceis de dominar. Mulheres que se conhecem exigem escolha. Abri a gaveta e tirei o celular, quase por reflexo. Pensei em escrever algo. Apagar. Escrever de novo. Não escrevi nada. Qualquer palavra agora seria excesso. E excesso é outra forma de invasão. Guardei o celular. Se eu quisesse protegê-la de verdade, precisaria começar por respeitar o que ela já tinha construído sozinha. Mas respeitar não diminui o desejo. Apenas o torna mais consciente. Fechei os olhos por um instante e permiti que o corpo falasse — não para agir, mas para reconhecer. O calor, a tensão baixa no ventre, a atenção exagerada aos detalhes dela. Não era carência. Não era impulso juvenil. Era reconhecimento de igual. E isso… isso sempre desarma. Levantei-me e caminhei pelo escritório, precisando gastar energia antes que ela se transformasse em decisão errada. Controle não é repressão cega. É direção. Eu precisava direcionar. Parei diante da porta por onde ela havia saído. Não a abri. Não a seguiria. Isso também era regra. A única que eu ainda conseguia cumprir sem esforço. A verdade que eu não queria admitir se impôs com clareza desconfortável: Eu não estava falhando por fraqueza. Eu estava sendo testado por algo que importava. E quando algo importa, o corpo reage antes da estratégia. Voltei à mesa e peguei o contrato, fechando-o com cuidado. Não era hora. Não para pressão. Não para avanço. A proteção que eu podia oferecer naquele momento era outra. Espaço. Respeitar o limite dela era, paradoxalmente, a forma mais difícil de controle que eu já exercera. Porque não se tratava de conter o mundo — mas a mim mesmo. Sentei, respirei, alinhei pensamentos. Se eu cruzasse essa linha antes do tempo, não seria proteção. Seria apropriação. E eu me recusei a ser esse homem. A pergunta não era mais se eu conseguiria manter as regras. A pergunta era quanto tempo eu suportaria o custo físico de respeitá-las… sem transformar esse respeito em ressentimento. Porque desejo contido não desaparece. Ele se acumula. E eu sabia — com uma lucidez quase c***l — que quando esse acúmulo encontrasse uma brecha legítima… nenhuma regra escrita seria suficiente para detê-lo.
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