Teo
Eu disse que não começaria a mandar nela.
Mentira.
Eu já comecei no instante em que vi o medo tomando forma na pele dela.
E agora, ver Ayume andando de um lado para o outro pela sala do escritório, com o contrato pesando dentro da bolsa, me confirma que ela está tentando fugir… mas não sabe para onde.
Eu observo.
O salto fino, a postura ereta, o queixo firme.
Ela quer parecer dona de todas as decisões do mundo, mas o jeito como ela passa a mão pelo cabelo denuncia a dúvida.
Ela está pensando em mim.
E isso me dá poder demais para agir devagar.
— Ayume — chamo.
Ela para, mas não se vira.
Resiste.
— Precisa de alguma coisa, senhor?
Sorrio por dentro.
Esse “senhor” arranha minha paciência.
Mas também é um tipo de rendição que ela ainda não admite que faz.
— Olhe para mim.
Ela respira fundo antes de obedecer.
E obedece.
Viro a cadeira para encará-la melhor. Quero que ela sinta o tribunal que existe no meu olhar. Não para julgá-la. Para devorá-la.
— Você está carregando esse contrato como se ele fosse uma bomba — digo.
— Talvez seja — ela rebate.
— Ou talvez seja sua salvação.
— Ou sua prisão — ela devolve, com uma força na voz que eu reconheço: medo disfarçado de coragem.
Aproximo-me devagar.
Cada passo é uma ameaça silenciosa.
— Você acha que eu quero te prender?
— Você quer me controlar.
Chego perto o suficiente para sentir o calor do pulso dela.
Sem tocar.
— Eu quero impedir que alguém volte a te ferir.
Ela olha para o chão.
Por segundos que duram mais do que deveriam.
Encosto dois dedos sob o queixo dela, e ela me olha de novo.
A resistência é belíssima… mas instável.
— Eu não confio em ordens.
— E eu não confio em pedidos.
Ela engole o ar como se estivesse tentando engolir a verdade que a cerca.
O perfume dela — doce com fundo cítrico — me invade a razão.
— Vá comigo até a varanda — digo.
Ela franze o cenho.
— Por quê?
— Porque eu estou mandando.
Essa frase cai entre nós como uma faísca.
Uma faísca que encontra pólvora.
Ela pensa em negar.
Eu vejo isso nos olhos.
Mas ela vai.
Um passo.
Dois.
Até que abrimos a porta de vidro.
A cidade respira quente lá fora.
O vento encosta no pescoço dela como um beijo ousado.
Ela cruza os braços, defensiva.
— Você quer falar aqui? — pergunta.
— Quero que você me ouça aqui — corrijo.
Fico atrás dela de propósito.
Ela vê o mundo inteiro, mas sente a minha presença ocupando o espaço, a carne, o ar.
— Você está com medo — digo.
Ela fecha os olhos.
— Estou com cuidado.
— Cuidado não treme — respondo, a boca quase roçando o contorno da orelha dela.
O corpo dela reage antes da consciência.
O peito sobe mais rápido.
A pele arrepia.
Ela quer se afastar.
Mas continua ali.
— Eu não pertenço a ninguém — ela afirma.
Chego mais perto.
Até que o meu peito toca as costas dela, sutil, inevitável.
— Eu não quero posse da sua alma, Ayume.
Quero a sua segurança.
Ela vira, e de repente estamos frente a frente.
Olhos contra olhos.
Vontade contra vontade.
— Então por que falar como se eu fosse sua?
— Porque você está sob ameaça.
E enquanto estiver… eu assumo o direito de te proteger.
O silêncio dela é quase um beijo.
Respiro perto demais.
Ela sente.
Cada fração do meu desejo.
E não se afasta.
— Me diga que não sente nada quando eu me aproximo assim — provoco.
— Eu não sinto — ela tenta.
A mentira treme na boca dela.
É linda.
Agarro levemente sua cintura, apenas com uma mão.
Quero que ela sinta o que estou oferecendo:
Força.
Cuidado.
Ferro e calor.
— Está sentindo agora?
Ela solta um ar que parece um gemido engolido.
— Você quer isso? — pergunto.
— Não quero obediência forçada — ela diz, a voz fraca demais para ser forte. — Eu quero escolher.
Minha mão sobe devagar pelas costas dela.
Calor na espinha.
Voz derretendo contra a pele dela:
— Então escolha.
Ela encara meus lábios.
Por um segundo, esquece o mundo.
E então recua um passo, embora o corpo grite o contrário.
— Você está usando o que eu sinto para me obrigar a aceitar suas condições.
— Estou usando o que você sente para você admitir que não quer que eu vá embora.
Ela me olha com raiva.
Raiva que é só a casca do desejo.
— Eu não preciso de ordens.
— Você precisa de direção — retruco, firme.
Segurah-lhe a mão.
Apenas para que ela sinta que não é prisão.
É guia.
Colo minhas falas à dela:
— Primeira regra.
Ela prende o ar.
Medo e fogo dançando juntos nos olhos dela.
— Quando eu mandar você olhar para mim… você olha.
Puxo suavemente o queixo dela para que ela mantenha o contato visual.
Ela tenta resistir.
Fracassa lindamente.
— Segunda regra — continuo — você me conta tudo que envolver risco.
Ela abre a boca para contestar.
Eu chego mais perto, cortando todas as desculpas.
— Você quer viver.
Então me deixe te proteger.
Ela respira, e a respiração dela é uma confissão.
Minha mão ainda firme na cintura.
Meu corpo quase colado ao dela.
— E a terceira regra? — ela pergunta, provocando com medo.
Inclino a cabeça para o lado.
Minha boca a centímetros da dela.
A tentação é um campo minado — e estamos pisando juntos.
— A terceira regra — sussurro — é que você não vai fugir de mim… quando quiser ser minha.
O ar explode entre nós.
Ela sente primeiro no pescoço, depois no peito.
A mão dela aperta a manga da minha camisa.
Ela tenta soltar.
Não consegue.
— Eu ainda não assinei — lembra, lutando com a própria vontade.
— Mas vai — garanto — porque está cansada de correr sozinha.
Ela fecha os olhos por um instante.
E quando abre… estão brilhando.
Não é medo.
É rendição chegando na porta.
— Teo…
Meu nome na boca dela é o convite que eu não deveria aceitar.
Mas aceito assim mesmo.
Pressiono meu nariz de leve contra a lateral do dela.
Cheiro sua pele.
Toco a verdade que ela tenta esconder.
— Assine essa noite — digo. — E amanhã… começa o nosso ano.
Ela se afasta apenas o suficiente para respirar melhor.
Mas deixa a mão na minha camisa.
Não percebe que isso entrega tudo.
— E se eu disser não? — ela desafia.
Eu sorrio.
E encosto a testa na dela.
Como quem sela um pacto invisível.
— Eu continuo.
A voz dela falha.
— Continua o quê?
— Continuo indo até onde você se permitir que eu chegue.
Os olhos dela queimam.
E essa é a chama mais bonita que já vi.
Damos alguns passos para trás.
Separados pelo ar.
Conectados pelo desejo.
Ela segura firme a pasta do contrato.
— Um ano à sua mercê — diz, sem ter certeza se pergunta ou provoca.
Aproximo-me apenas com a voz:
— Não.
Um ano à nossa verdade.
Ela vira para sair.
Mas antes de cruzar a porta, eu lanço a primeira ordem que importa:
— Não desapareça hoje.
Eu quero saber onde você está.
Ela não olha para trás.
Mas sua nuca confessa que ouviu.
E que gostou demais.
Quando ela sai…
o ar fica vazio.
E eu cheio demais.
Ayume pensa que ainda está decidindo.
Mas a verdade é simples:
Eu já comecei a possuí-la…
mesmo antes da assinatura.