Ayume
Fugir nunca foi meu talento.
Eu sempre fui de aguentar.
Acordei com essa frase atravessada na garganta, como se tivesse sido dita por alguém que me conhecia melhor do que eu queria admitir. O quarto ainda estava escuro, a cidade do lado de fora respirando num ritmo que não combinava com o meu. Teo dormia ao meu lado, o rosto sereno demais para a tempestade silenciosa que me empurrava para fora do lugar.
Foi ali que pensei: se eu ficar, algo vai quebrar.
Não uma coisa concreta. Não uma porta, não um objeto. Algo mais frágil e definitivo, a sensação de que eu ainda mandava em mim.
Levantei devagar, evitando qualquer ruído. Peguei o celular, desliguei notificações, coloquei no modo avião. Não queria explicações. Não queria ser encontrada. Queria apenas um intervalo onde o corpo pudesse respirar sem se preparar para o impacto seguinte.
Abri o armário e puxei a mala pequena. A que eu usava para viagens curtas, planejadas demais para serem espontâneas. Coloquei poucas coisas: roupas neutras, documentos, um par de sapatos confortáveis. Nada que denunciasse permanência. Fugir exige leveza.
Enquanto dobrava uma camisa, minhas mãos tremiam. Não de medo. De urgência. O tipo de urgência que nasce quando o corpo entende que ficar também é uma forma de risco.
Passei pelo apartamento recolhendo sinais de mim mesma como quem apaga rastros: fotos guardadas, anotações jogadas numa gaveta, o chaveiro antigo escondido no fundo de uma bolsa que eu não levaria. Cada gesto era rápido demais, como se eu estivesse competindo com o próprio pensamento.
Não era uma fuga de Vinícius.
Era uma fuga do efeito que ele ainda tinha.
Isso era o que mais me aterrorizava.
Escrevi um bilhete curto para Teo. Não um adeus. Uma pausa.
“Preciso de um tempo. Volto quando conseguir ouvir meu corpo sem medo.”
Dobrei o papel com cuidado excessivo e deixei sobre a mesa da sala. Respirei fundo, peguei a mala e saí.
O elevador desceu lento demais para o ritmo do meu peito. Cada andar parecia uma pergunta: tem certeza? Eu respondia com silêncio. Silêncio também é decisão.
No saguão, tudo parecia normal. Porteiro atento, segurança no lugar, rotina intacta. Ninguém suspeitava que, por dentro, eu estava desmontando uma vida em tempo real. Saí pela porta giratória sentindo o ar da manhã tocar meu rosto como um aviso tardio.
O carro me esperava. Não o oficial. Um aplicativo qualquer. Anônimo. O tipo de escolha que dá a falsa sensação de controle.
— Para onde? — perguntou o motorista.
Hesitei.
— Rodoviária — respondi, por fim.
Não tinha destino. Tinha apenas a necessidade de ir.
Durante o trajeto, observei a cidade acordando. Pessoas indo trabalhar, crianças sendo levadas à escola, cafés abrindo as portas. Tudo tão comum que doía. Era isso que eu queria: normalidade. Um dia sem leitura de sinais, sem análise de riscos, sem a sensação constante de que algo me observava por dentro.
Comprei a passagem sem olhar muito. Qualquer lugar serviria desde que fosse longe o suficiente para o corpo desacelerar. Sentei no banco duro da sala de espera com a mala entre as pernas e fechei os olhos.
Foi então que o aviso voltou.
Não como mensagem.
Não como presença física.
Como lembrança.
Lembrei da primeira vez que pensei em ir embora de verdade. Anos atrás. A mesma sensação de aperto, a mesma mala pequena, a mesma promessa íntima de que, se eu desse mais um passo, algo finalmente mudaria.
Naquela vez, eu não fui.
Convenci-me de que ficar era maturidade. Que aguentar era prova de amor. Que fugir era fraqueza. Passei anos confundindo permanência com coragem.
O alto-falante anunciou o embarque. Abri os olhos. O mundo não tinha mudado. Eu, talvez, estivesse tentando mudar rápido demais.
Levantei com a mala. Caminhei alguns passos. Parei.
O corpo travou.
Não foi pânico. Foi clareza. Uma clareza incômoda que não vinha acompanhada de alívio.
Fugir não me libertaria.
Apenas adiaria.
Porque o que me perseguia não estava num endereço. Estava em padrões. Em memórias musculares. Em frases que ainda sabiam me alcançar mesmo quando eu corria.
Sentei de novo.
Peguei o celular, ainda no modo avião, e liguei apenas para ver a hora. Uma notificação antiga piscou antes de desaparecer. Uma mensagem não lida, enviada minutos antes de eu desligar tudo.
“Não suma.”
O coração disparou. Não de susto. De exaustão.
Não importava onde eu estivesse. Sempre haveria alguém interpretando meu movimento como convite, desafio ou ameaça. Fugir alimentava exatamente a narrativa que eu queria desmontar: a de que eu precisava desaparecer para existir em segurança.
Respirei fundo. Longo. Contando.
O aviso que ninguém levava a sério tinha se transformado em encruzilhada. Ou eu continuava correndo, mudando de cidade, de rotina, de rosto — ou ficava e enfrentava o desconforto de construir limites sem sumir.
Levantei pela segunda vez. Não para embarcar.
Saí da rodoviária com a mala ainda leve demais para o peso que eu carregava por dentro. Pedi outro carro. Voltei pelo mesmo caminho, observando a cidade agora com outros olhos. Não como fuga. Como retorno consciente.
Quando cheguei ao prédio, o porteiro me olhou com surpresa discreta.
— Esqueceu alguma coisa, senhora?
— Lembrei — respondi.
Subi. O elevador parecia menos hostil. O silêncio, menos acusador. Abri a porta do apartamento e encontrei Teo sentado no sofá, o bilhete aberto na mão, o rosto marcado por uma preocupação contida.
Ele levantou num impulso que conteve no meio do caminho.
— Você foi embora — disse.
— Eu tentei — respondi.
Coloquei a mala no chão. O som foi seco. Definitivo.
— E voltou — ele completou.
— Voltei porque fugir estava começando a parecer… concordar — falei. — Concordar que eu preciso desaparecer para estar segura.
Teo me observou em silêncio. Não interrompeu. Não tentou corrigir. Esse era um dos poucos espaços onde eu conseguia falar sem sentir que precisava provar algo.
— Eu quase abandonei tudo — continuei. — Trabalho, rotina, você. Não porque eu não queira ficar. Mas porque, por um instante, pareceu mais fácil não existir do que sustentar o confronto.
Ele respirou fundo.
— Ficar também é perigoso — disse. — Mas é um perigo que a gente administra.
Sentei ao lado dele. O cansaço me alcançou de vez, pesado, honesto.
— Eu não quero viver reagindo — falei. — Nem fugindo. Nem me escondendo atrás de contratos ou cidades novas. Eu quero… escolher. Mesmo que doa.
Teo assentiu lentamente.
— Então a gente escolhe com método — respondeu. — Sem romantizar. Sem subestimar. Sem te transformar em fortaleza ou em vítima.
Encostei a cabeça no encosto do sofá e fechei os olhos. Pela primeira vez em dias, o corpo cedeu um pouco. Não em rendição. Em aceitação.
Eu tentei fugir.
E quase consegui.
Mas fugir não teria sido liberdade.
Teria sido silêncio comprado à custa de mim mesma.
Abrir os olhos e ficar era mais difícil. Exigia presença. Exigia que eu encarasse o aviso e decidisse o que fazer com ele, em vez de correr.
Olhei para a mala no chão.
— Ela fica guardada — disse.
— Até quando? — Teo perguntou.
— Até eu não precisar mais dela como ameaça — respondi. — Nem contra mim.
Ele sorriu de leve. Um sorriso sem promessa exagerada.
Levantou-se, pegou a mala e a levou de volta ao quarto. Quando voltou, sentou-se novamente ao meu lado, mantendo a distância justa. Nem perto demais. Nem longe demais.
O equilíbrio que eu precisava reaprender.
A cidade seguia lá fora, indiferente ao fato de que eu tinha quase desmontado uma vida naquela manhã. Nada tinha mudado visivelmente. E, ainda assim, tudo estava diferente.
Eu não tinha fugido.
Tinha voltado.
E isso, percebi com uma clareza que doía e libertava ao mesmo tempo, era o primeiro passo real para não precisar mais correr quando o perigo se aproximasse.
Porque fugir é rápido.
Ficar exige coragem contínua.
E, pela primeira vez em muito tempo,
eu estava disposta
a sustentar essa escolha
acordada.