CAPÍTULO 6 – A Proposta Impensável

1389 Words
Teo Eu sempre acreditei que dinheiro resolvia tudo. Queria algo? Eu comprava. Queria vencer? Eu derrubava. Queria esquecer? Eu substituía. Era simples. Efetivo. Racional. Até ela. Ayume é a prova viva de que alguns problemas não se compram. Mas segurança… essa eu posso financiar. Proteção… essa eu posso garantir. E se para isso eu tiver de colocá-la sob minha tutela, sob minhas ordens, sob a minha presença… eu não hesitarei. Passou pouco mais de uma hora desde o momento em que a encontrei desmoronando em silêncio no banheiro. Eu deveria ignorar. Deveria fingir que não vi. Que não senti mexer em mim. Mas fracassei miseravelmente nessa tentativa. O nome dele ecoa na minha mente como uma ameaça que já tive de enfrentar antes, em outros rostos. Vinícius. Poder econômico. Influência suja. Caprichos mortais. O tipo de homem que acredita que uma mulher é um patrimônio adquirido. O tipo de homem que eu fiz questão de destruir na Europa. O tipo de homem que me fez perder um altar. A diferença é… Ayume não tem armadura. Ainda. Agora estou no meu escritório, observando o vidro fumê que me dá visão completa do andar onde ela trabalha. Ela caminha apressada, tentando esconder que está tremendo por dentro. Uma guerreira ferida. Ela não faz ideia de que, enquanto respira, meu time já está traçando o mapa exato da vida do filho da desgraça que a ameaçou. Localização. Agenda. Contatos. Pontos fracos. Posso neutralizá-lo. Se ela me permitir chegar perto o suficiente. E isso começa agora. Apertei o botão do interfone. Minha voz não tremula. A dela sim, quando chega. — Sim, senhor? Só o som dessa resposta já acende algo em mim. Uma chama contida que lambe o autocontrole. Eu sei que ela sente também. Foge porque sente. — Preciso falar com você. Na minha sala. Alguns segundos de silêncio. Ou resistência. Ou medo. — Já estou indo. Desliguei antes que ela mudasse de ideia. Ela bate à porta. Entra. Postura impecável, olhar tentando ser frio, coração disparado. Eu sei porque reconheço esse tipo de respiração. — Feche a porta atrás de você. Ela obedece. É quase encantador ver um espírito livre lutando tanto para não ceder — e mesmo assim cedendo. Me levanto e caminho até ela. Deixo pouca distância entre nós. O suficiente para ela ter que decidir se recua ou se encara o perigo. Ela encara. — Você acha que eu não percebo quando as coisas ultrapassam limites? — pergunto. — Já disse que posso lidar com isso — ela responde, ríspida. A boca dela treme quando tenta ser dura. Ela me dá vontade de sorrir. De provocá-la até ela admitir que quer o que não deveria querer. — Você pode ser forte — digo — mas força não deveria doer. Ela endurece a expressão. A cicatriz por baixo da roupa parece pulsar no mesmo ritmo que o medo. Eu chego mais perto apenas inclinando o corpo. Quero que ela sinta a gravidade que existe entre nós. — Eu vou te ajudar. — Eu não quero sua pena. — Quem falou de pena? Ela fica em silêncio. O silêncio dela fala mais do que qualquer defesa. Pego uma pasta sobre a mesa. Coloco nas mãos dela. Dentro há um contrato. — O que é isso? — pergunta. — A solução para o seu problema. Ela abre o documento e os olhos percorrem as linhas. Sua respiração muda logo na primeira cláusula. Eu observo. Contrato de proteção pessoal e segurança patrimonial. Eu pago a dívida. Eu elimino o risco. Eu tiro Vinícius do caminho — para sempre. Mas há condições. — Você fica sob minha responsabilidade durante um ano — digo. — Agenda comigo. Ambientes comigo. Viagens comigo. Segurança máxima com você. Ela respira fundo. — Isso é… posse. — Não. Isso é garantia. Ela ergue o rosto, e eu vejo a faísca de orgulho brilhando nos olhos dela. — Você quer me trancar? — Quero te manter viva. — A que preço? Minha voz sai lenta, densa, honesta demais: — Sua presença. Ela engole em seco. — Você poderia escolher qualquer mulher para isso. Por que eu? — Porque nenhuma delas te faria falta se fosse embora. O impacto é imediato. Ela se afasta um passo. Mas não longe o suficiente. — Não posso aceitar — diz, firme. — Pode — respondo — se quiser continuar respirando sem olhar por cima do ombro. Ela aperta os lábios. Olha o papel. Depois olha para mim. — O que você espera de mim nesse… contrato? Quero dizer a verdade. Que espero tudo. Que quero o corpo dela e a confiança dela e a respiração dela dizendo meu nome. Mas digo a parte que posso admitir agora: — Obediência. Sinceridade. Proximidade. Ela ri. Baixo, nervosa. — Você sabe que isso é perigoso, não sabe? — Para mim ou para você? Ela hesita. Então diz: — Para nós dois. A coragem dela de usar “nós” abre um sorriso nasalado na minha mente. Ela tenta devolver o contrato. — Eu preciso pensar. Eu toco a folha com ela ainda segurando. Toque de papel. Mas minhas mãos roçam seus dedos. Arrepios dela. Domínio meu. — Pense rápido — digo. — A cada segundo que você hesita, ele se aproxima. Ela fecha os olhos como quem está à beira de um salto. Eu a encurro contra a mesa. Sem tocar. Apenas o suficiente para o corpo dela sentir que o meu está pronto para qualquer guerra. — Você não manda em mim — ela sussurra. — Ainda não — eu devolvo. Ela abre os olhos. Nosso rosto a poucos centímetros. Respiração quente. Os dois prontos para quebrar todas as regras. — Você está confundindo desejo com proteção — ela tenta. — E você está confundindo medo com liberdade. Ela inspira com força. Como se meu cheiro fosse perigoso demais para ser respirado em gola cheia. — Eu não confio em homens — diz. — Eu não confio no amor — respondo. Silêncio. Silêncio que fala. Silêncio que aproxima. — Então por que isso? — ela pergunta. — Porque o que eu sinto por você não deveria existir. Mas existe. Ela empalidece. Ou ruboriza. Não sei. Só sei que o sangue dela acelera e eu consigo ver isso no pescoço, vibrando sob a pele. — Você é… o maior risco da minha vida, Ayume. Ela tenta passar, mas minha sombra a impede. — E o que acontece quando eu aceitar? — sussurra. Eu prendo a respiração. — Eu te protejo. Eu compro sua liberdade. Eu destruo quem te ameaçar. Mas em troca… eu vou estar em cada parte da sua vida. A cada hora. Em cada merda de segundo em que você tentar me afastar. Ela desvia o rosto, mas não vai embora. — Um ano é muito tempo. — Para salvar sua vida… é tempo suficiente. Ela fica olhando para a porta. A vontade de fugir tão clara quanto a vontade de ficar. Então pergunta baixinho: — O que mais esse contrato me exige? Eu deveria mentir. Poderia dizer que é apenas profissional. Mas não consigo. — Você fica ao meu lado. E eu não pretendo ser fácil de lidar. Os olhos dela brilham com a primeira fagulha de desejo assumido. Um tremor curto na boca entrega. O corpo dela quer. Mesmo quando a mente recusa. — E quando acabar o contrato? — ela insiste. — Eu decido quando acaba. Ela fecha o contrato com a mão firme. Mas as emoções dela estão tremendo. — Eu penso. Depois respondo. Eu a deixo ir. Mas deixo claro: — Se ele ligar de novo… Você me chama. Eu atendo por você. Ela não debate. E isso é rendição suficiente para hoje. Ayume sai da sala com o documento. Os saltos ecoam pelo chão como passos rumo a um destino que ela não escolheu… mas vai querer. Encosto as mãos na mesa. Respiro fundo. E admito uma verdade incômoda: Eu não estou protegendo somente ela. Estou protegendo algo que desperta em mim quando ela está perto. E se ela assinar esse contrato… a vida dela passa a ser minha responsabilidade. Mas principalmente… passa a ser meu direito. Um ano ao meu lado. Comigo. Por mim. Para mim. Se isso não é sentimento… então é algo maior. E não há dinheiro no mundo que me faça abrir mão.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD