Capítulo 7 – A Noite em Que Eu Não Dormi

1057 Words
Ayume A cidade nunca dorme de verdade. Ela apenas troca o barulho de forma. Naquela noite, São Paulo respirava embaixo da minha janela com um cansaço quente, quase humano. Sirenes distantes, passos apressados, o ronco constante de motores — como se o mundo seguisse vivendo apesar do nó que se formava dentro de mim. Eu não consegui dormir. Deitei. Virei para um lado. Depois para o outro. O lençol grudava na pele como se também soubesse que algo estava errado. O contrato estava sobre a mesa da sala. Não aberto. Não fechado. Apenas ali. Esperando. Levantei descalça, sentindo o piso frio tocar meus pés como um aviso. A luz amarela do abajur não iluminava tudo — deixava sombras suficientes para que a dúvida tivesse onde se esconder. Peguei um copo d’água, bebi um gole que não desceu, e encarei o papel como quem encara um espelho que mostra mais do que o rosto. Um ano. Um ano sob a proteção de um homem que fala como quem manda. Um homem que olha como quem vê além. Um homem que despertou algo que eu passei anos tentando adormecer. Passei os dedos pela borda da pasta sem abrir. Meu corpo lembrava antes da minha mente. A proximidade dele. A voz baixa. A promessa escondida por trás de cada ordem. Proteção. Essa palavra sempre me deu medo. Sentei no sofá e fechei os olhos por um instante. Bastou isso para o passado achar uma fresta. — Eu cuido de você. A voz não era a dele. Era outra. Mais doce. Mais mentirosa. Lembrei do toque que começou como carinho e terminou como posse. Das promessas ditas com boca quente e cumpridas com mãos frias. Lembrei de como eu acreditei que amor fosse sinônimo de aguentar. Meu estômago revirou. Promessas quebradas não fazem barulho quando racham. Elas estalam por dentro. Abri os olhos rápido demais, como se pudesse expulsar a lembrança à força. Caminhei até o banheiro e liguei a torneira, deixando a água correr como se pudesse levar embora tudo o que insistia em voltar. O espelho devolveu uma mulher que eu conhecia bem. Olheiras fundas. Olhos atentos demais. A cicatriz escondida sob o tecido, mas nunca ausente. Apoiei as mãos na pia. — Você sobreviveu — murmurei para mim mesma. Sobreviver virou hábito. Mas viver… isso ainda me assustava. Voltei para a sala e, dessa vez, abri o contrato. As letras eram frias. Organizadas. Objetivas. Não havia emoção ali — só controle. Segurança. Poder escrito em cláusulas. Disponibilidade integral. Proteção pessoal reforçada. Contato direto. Fechei os olhos de novo. Ele não tinha prometido amor. Não tinha prometido carinho. Não tinha prometido futuro. E talvez fosse isso que mais me confundia. Homens que prometem amor mentem fácil. Homens que prometem proteção… esses são perigosos. Porque proteção cria dependência. E dependência cria silêncio. Passei a mão pelos cabelos, sentindo o couro cabeludo sensível. Meu corpo estava cansado, mas minha mente seguia alerta, como se o perigo pudesse entrar pela porta a qualquer momento. O celular vibrou ao meu lado. Congelei. Olhei a tela com o coração acelerado antes mesmo de tocar. Número desconhecido. Por um segundo, pensei que fosse ele — o passado tentando me puxar de volta como um vício. Mas não era. Mensagem curta. Direta. “Conseguiu descansar?” Teo. Meu peito reagiu com algo que não era medo. Raiva? Não. Era… reconhecimento. Ele não perguntou se eu tinha decidido. Não perguntou sobre o contrato. Não exigiu resposta. Respirei fundo antes de digitar. Ayume: Ainda não. Três pontinhos apareceram. Sumiram. Voltaram. Teo: Não force. Decisões feitas com medo custam caro. Fechei os olhos. Ele sabia. Não porque eu tivesse contado. Mas porque ele enxerga. Essa era a parte mais perigosa. Coloquei o celular de lado e me levantei outra vez. Caminhei até a janela. A cidade estava iluminada como um organismo vivo, insistente, teimoso. Pessoas amavam, erravam, caíam, levantavam… tudo ao mesmo tempo. Eu também estava ali, suspensa entre duas versões de mim. A que corre. E a que enfrenta. Minha mão deslizou até o abdômen, pressionando levemente o lugar onde a cicatriz mora. Ela sempre doía quando eu estava prestes a mudar algo importante. Como se o corpo dissesse: lembre-se do que já te feriu. — Eu lembro — sussurrei. Mas lembrar não significava mais obedecer. Foi ali, de pé, olhando a cidade que não se importava com meus dilemas, que entendi algo que me escapava há anos: O medo ainda existia. Mas ele já não mandava em mim. Antes, o medo me paralisava. Agora, ele apenas me alertava. Voltei para o sofá e peguei o contrato outra vez. Li cada linha como quem mede o peso real de uma escolha. Não havia romantização ali. Não havia promessa falsa. Havia risco. Havia controle. Mas havia também algo que eu não podia negar: Ele estava disposto a colocar o próprio poder entre mim e o perigo. E ninguém nunca fez isso antes. Sempre fui eu por mim. Sempre eu me defendendo. Sempre eu sangrando em silêncio. O que me apavorava não era o contrato. Era a possibilidade de baixar a guarda. A possibilidade de descansar. Encostei a cabeça no encosto do sofá e deixei as lágrimas virem — poucas, contidas, cansadas. Não era choro de desespero. Era luto. Luto pela mulher que precisou endurecer cedo demais. — Eu não sou fraca por querer ajuda — falei em voz alta. Dizer isso doeu mais do que a cicatriz. Peguei o celular outra vez. Ayume: Você não está tentando me salvar para se sentir poderoso? A resposta demorou mais dessa vez. Teo: Se fosse isso, eu já teria exigido sua assinatura. Engoli em seco. Teo: Estou tentando evitar que alguém te machuque enquanto você ainda acredita que precisa enfrentar tudo sozinha. Fechei os olhos. A frase não soou como ordem. Soou como constatação. Deitei no sofá sem apagar a luz. Não queria escuridão. Não naquela noite. O contrato ficou sobre a mesa, visível. Presente. Vivo. Eu não assinei. Ainda. Mas algo dentro de mim já não lutava para fugir. O medo não tinha ido embora. Ele só tinha mudado de lugar. E pela primeira vez em muito tempo, percebi que talvez coragem não fosse ausência de medo. Talvez coragem fosse escolher mesmo tremendo. A cidade continuava acordada. E eu, finalmente, entendi: Não dormi aquela noite… porque estava acordando para mim mesma.
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