Capítulo 12 – Distância Que Queima

1543 Words
Ayume O problema de dividir o mesmo espaço com alguém como Teo não era a proximidade. Era a ausência do toque. Descobri isso logo no primeiro dia depois da proposta. O escritório parecia menor. Não fisicamente — mas emocionalmente. Cada passo dele tinha peso. Cada silêncio entre nós parecia carregado de algo que não podia atravessar a linha invisível que havíamos traçado sem combinar. Nenhum toque. Nenhuma aproximação além do necessário. Profissional. Contido. Frio. Mentira. Ele estava ali, a poucos metros, falando com alguém ao telefone, e meu corpo reagia como se fosse chamado pelo nome. Não pelo som — pela presença. O ar mudava quando ele entrava. Não era perfume. Era intenção. Eu mantinha os olhos na tela do computador, mas sabia exatamente onde ele estava. Sabia pelo jeito como minha respiração se ajustava sem pedir permissão. Sabia porque minha pele parecia mais atenta. — Ayume — ele chamou. Meu nome na voz dele nunca era neutro. Levantei com a pasta nas mãos, postura firme, distância calculada. Parei ao lado da mesa dele, respeitando o espaço que eu mesma precisava manter. — Precisa de algo? — perguntei. Ele ergueu o olhar devagar. Não havia pressa. Não havia provocação explícita. Ainda assim, senti como se estivesse sendo medida de dentro para fora. — Sente-se — disse. Obedeci. A cadeira ficava de frente para ele. Espaço suficiente para conversarmos. Perto demais para fingir indiferença. Ele empurrou alguns documentos em minha direção. Negócios. Números. Coisas importantes que eu compreendia bem demais para permitir distrações. Li, fiz observações, respondi perguntas. Minha mente funcionava. Meu corpo… não. A mesa entre nós parecia menor a cada minuto. Teo apoiou os cotovelos no tampo de vidro, entrelaçando os dedos. Um gesto simples. Mas foi ali que senti o perigo. Porque aquele gesto não era de comando. Era de contenção. — Você está bem hoje? — ele perguntou. A pergunta era comum demais para o que provocou em mim. — Estou — respondi rápido. Ele sustentou o olhar. Silêncio. Esse silêncio não cobrava. Não pressionava. Apenas existia, como se esperasse que eu dissesse algo que nem eu sabia formular. — Se não estiver — ele disse por fim —, não precisa fingir comigo. Aquilo queimou. Não porque fosse íntimo demais. Mas porque era cuidadoso demais. — Prefiro manter o foco no trabalho — respondi. Ele assentiu. Um gesto curto. Aceitação aparente. Mas os olhos… os olhos não obedeceram. Eles desceram um segundo além do necessário. Voltaram. Ficaram. Como se o toque tivesse sido substituído pelo olhar. Meu pulso acelerou. Levantei antes que algo escapasse. — Vou providenciar o que pediu — disse. Quando dei a volta na mesa, senti a mudança. Ele também levantou. Ficamos próximos demais por um instante que não deveria existir. Meu braço quase roçou o dele. Quase. O quase é pior que o toque. Meu corpo reagiu como se tivesse sido alcançado. Um arrepio subiu lento pela espinha. Eu parei. Ele também. A distância entre nós era mínima. Decente. Insuportável. — Ayume — ele disse baixo. Não avancei. Não recuei. — Isso não é fácil para você — ele continuou. — Não é fácil para nenhum de nós — respondi. Ele respirou fundo. O som foi discreto, mas eu ouvi. Porque estava atenta demais. — Não vou te tocar — disse. — Enquanto você não decidir. A frase foi uma promessa. E uma ameaça ao mesmo tempo. Assenti. Não confiei na minha voz. Passei por ele sentindo o calor do corpo dele sem encostar. Como se a pele tivesse memória antecipada. Como se o espaço entre nós estivesse vivo. Caminhei até minha mesa com as mãos firmes, mas o coração fora do ritmo. Sentei. Respirei. Tentei voltar ao mundo real. Inútil. Teo estava ali. Eu estava ali. E nada acontecia. Era isso que queimava. Horas depois, ao fim do expediente, nos encontramos de novo no elevador. Apenas nós dois. As portas se fecharam com um som seco, definitivo. O espaço se comprimiu. Eu encarei os números subindo. Ele, o reflexo no espelho metálico. Nenhum de nós falou. O silêncio era um fio esticado demais. Quando o elevador parou, ele falou sem me olhar: — A distância só funciona quando os dois querem manter. As portas se abriram. Saí sem responder. Mas meu corpo já tinha entendido a verdade que minha razão tentava negar: A distância entre nós não era proteção. Era contenção. E quanto mais a segurávamos… mais ela queimava. Segui pelo corredor tentando manter o passo firme, mas cada metro parecia exigir esforço consciente. O prédio se esvaziava aos poucos, vozes se dissolvendo, portas se fechando, como se o mundo estivesse gentilmente nos empurrando para fora daquele espaço onde nada podia acontecer — e, ainda assim, tudo acontecia. Do lado de fora, o ar da noite me acertou o rosto. Não trouxe alívio. Trouxe clareza. A rua estava iluminada, pessoas passando, carros buzinando ao longe. Vida em movimento. Eu, parada por dentro. Esperei o carro chegar com o celular na mão, mas sem realmente ver a tela. Pensava na frase dele. Pensava no jeito como ele dissera, sem me olhar, como quem confessa algo para si mesmo. A distância só funciona quando os dois querem manter. Eu queria? Queria manter? Ou queria apenas não atravessar uma linha que, uma vez cruzada, não permitiria retorno? O carro chegou. Entrei, dei o endereço e encostei a cabeça no banco. A cidade corria do lado de fora, borrada, como se meus olhos estivessem sempre um segundo atrasados em relação ao mundo. Minha respiração demorou a se ajustar. O corpo ainda estava em alerta, como se o perigo fosse íntimo demais para ser nomeado. Em casa, acendi apenas a luz da sala. O apartamento parecia grande demais quando eu estava sozinha. Deixei a bolsa na cadeira, os sapatos no canto, e fiquei de pé, no meio do espaço, tentando decidir o que fazer com a energia acumulada no peito. Caminhei até a cozinha, abri a geladeira, fechei. Abri a janela da sala, deixei o ar entrar. O contrato ainda estava ali, onde eu o deixara. Intacto. Silencioso. Um terceiro corpo na sala. Aproximei-me da mesa e passei a mão pela capa da pasta. Não abri. Não ainda. Sentei no sofá e abracei um travesseiro, gesto antigo, quase infantil, mas honesto. Precisava segurar alguma coisa que não me pedisse decisão. Fechei os olhos. O elevador voltou à minha mente. O espelho metálico, o reflexo duplicado, a forma como ele ocupava o espaço sem me tocar. Lembrei do calor contido, da tensão que parecia um músculo contraído há tempo demais. Lembrei do quase. O quase é c***l porque promete sem entregar. E o corpo odeia promessas incompletas. Levantei de novo, inquieta. Caminhei até o banheiro e lavei o rosto. A água fria trouxe o choque necessário para me manter acordada. Encostei as mãos na pia e me observei no espelho. Os olhos estavam mais escuros. Não de cansaço. De atenção. — Você está segura — eu disse. Era verdade? Em partes. Havia seguranças no mundo. Portas. Rotinas. Distâncias. Mas havia também uma segurança que eu não conhecia bem: a de ser vista sem ser tocada. De ser desejada sem ser tomada. De ser respeitada no limite que eu mesma impunha. Isso me assustava mais do que o perigo explícito. Voltei para a sala e me sentei outra vez. O celular vibrou na mesa. Não pulei. Não congelei. Apenas olhei. Mensagem dele. Teo: Chegou bem? Simples. Prático. Cuidadoso. Demorei a responder. Não porque não quisesse. Porque precisava saber o que aquela resposta significaria. Ayume: Sim. Três letras. Um mundo contido. A resposta veio rápido demais para ser coincidência. Teo: Boa noite. Não houve continuação. Nenhuma tentativa de alongar a conversa. Nenhuma brecha. Coloquei o celular com a tela para baixo e respirei fundo. Aquilo deveria me tranquilizar. E, de certa forma, tranquilizou. Mas também acendeu algo que eu não sabia nomear direito: a vontade de ser chamada de novo. Não por carência. Por reconhecimento. Deitei no sofá, as pernas recolhidas, o teto me encarando de volta. O apartamento estava silencioso, mas não vazio. Havia algo no ar, uma espécie de eletricidade residual, como depois de uma tempestade que não chega a cair. Pensei nas regras. Nas minhas. Nas dele. Nenhum toque. A regra parecia simples no papel. No corpo, era outra história. Porque o corpo não entende limites abstratos. Ele entende proximidade, intenção, risco. E ali, naquela distância mantida à força, havia mais risco do que eu estava disposta a admitir. Não porque ele fosse perigoso. Mas porque eu era. Porque eu estava começando a querer o que vinha depois do limite. E querer é um passo que não se desfaz com facilidade. Virei de lado e fechei os olhos, tentando descansar. O sono veio aos poucos, entrecortado, como se não tivesse certeza se era bem-vindo. Antes de adormecer, um pensamento se impôs com clareza desconfortável: A distância entre nós não me protegia do desejo. Apenas o concentrava. E quanto mais eu fingia que aquele espaço era suficiente… mais eu entendia que não seria. Quando o sono finalmente me levou, levei comigo a certeza que eu ainda não estava pronta para dizer em voz alta: Não tocar não era neutralidade. Era escolha. E toda escolha, cedo ou tarde, cobra seu preço.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD