Capítulo 8 – Homens Que Compram Segurança

1083 Words
Teo  Eu sempre soube quanto custa manter alguém seguro. Não falo apenas de dinheiro. Falo do tipo de custo que não aparece em contratos, mas cobra juros dentro do peito. O tipo de preço que se paga em noites sem dormir, decisões tomadas no escuro, escolhas que não admitem arrependimento depois. Segurança nunca foi algo abstrato para mim. Ela tem valor. Tem número. Tem peso. E quase sempre… tem sangue envolvido. O escritório estava silencioso demais naquela noite. A cidade lá fora ainda pulsava, mas aqui dentro tudo parecia suspenso — como se o prédio inteiro estivesse esperando que eu tomasse uma decisão que não queria assumir em voz alta. Encostei na mesa de vidro e observei São Paulo do alto. Luzes espalhadas como um mapa de rotas que não levam a lugar nenhum específico. Homens caminhando apressados, mulheres voltando para casas que talvez não as protejam. O mundo girando como sempre girou: desigual, perigoso, indiferente. Foi assim que aprendi cedo: quem pode pagar, sobrevive. quem não pode, reza. Meu pai dizia isso com naturalidade assustadora. Não como ameaça, mas como lógica. Como quem explica o funcionamento básico de uma engrenagem. — O mundo não protege ninguém, Teo. Ou você compra segurança… ou vira estatística. Cresci acreditando nisso. Comprei seguranças. Comprei silêncios. Comprei soluções. E, ainda assim, perdi. O altar vazio voltou à minha mente sem pedir licença. A humilhação estampada em jornais, o sorriso forçado diante de câmeras, a sensação de ter sido desmontado em público como um brinquedo caro quebrado por descuido. Eu não perdi por falta de dinheiro. Perdi por confiar. A confiança sempre foi o erro mais caro. Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço acumulado nos músculos. O copo de uísque sobre a mesa permanecia intacto. Não queria entorpecimento. Precisava de clareza — por mais desconfortável que ela fosse. Ayume. O nome dela não vinha como desejo puro. Vinha como conflito. Eu não deveria pensar nela depois do expediente. Não deveria carregar o rosto dela para dentro do meu silêncio. Mas era inútil fingir que ela não tinha atravessado algo em mim. Ela não pediu proteção. Ela não implorou ajuda. Ela não tentou me seduzir com fragilidade. E talvez por isso mesmo eu tenha me envolvido. Mulheres que pedem salvação querem um salvador. Ayume queria apenas continuar em pé. Foi isso que me atingiu. A imagem dela segurando o contrato como se fosse uma arma apontada para si mesma me veio com nitidez incômoda. O jeito como os dedos dela tremiam, não de medo puro, mas de cálculo. Ela não estava desesperada. Estava avaliando. E isso… isso me fez respeitá-la mais do que deveria. Respeito é perigoso. Respeito cria frestas onde a razão deveria levantar muros. Caminhei até a estante e abri a gaveta inferior, onde guardo coisas que não gosto de lembrar. Relatórios antigos. Dossiês. Nomes que não existem mais oficialmente. Homens que acharam que podiam possuir o que não era deles. Homens que confundiram poder com direito. Fechei a gaveta com mais força do que o necessário. Vinícius. O nome dele queimava diferente. Não era ciúme. Não era rivalidade. Era algo mais cru. Algo que reconhece o próprio inimigo porque já esteve perto demais daquele espelho. Eu conheço homens assim. Fui criado por um deles. Treinado por outros. Eles acreditam que tudo tem preço — inclusive pessoas. E a linha que separa proteger de possuir… essa linha é fina demais quando se tem poder absoluto nas mãos. Foi isso que me fez hesitar. Não em proteger Ayume. Mas em como protegê-la. O contrato era limpo. Legal. Frio. Do jeito que o mundo entende segurança. Nenhuma promessa emocional. Nenhuma mentira doce. Apenas controle de cenário, redução de risco, neutralização de ameaça. Ainda assim, havia algo ali que não era apenas técnico. Eu queria tê-la perto. Não para usá-la. Não para exibi-la. Mas porque a proximidade dela fazia algo em mim que eu não controlava completamente. E isso me irritava. Homens como eu não gostam do que não controlam. Peguei o celular e desbloqueei a tela sem pensar. Nenhuma mensagem nova. Nenhuma decisão tomada. Ela estava acordada. Eu sabia. Pessoas em conflito não dormem. E eu não estava dormindo também. — Você está cruzando uma linha — murmurei para o vidro, vendo meu reflexo se misturar à cidade. Mas qual linha, exatamente? A linha entre oferecer proteção e exigir presença? Entre garantir segurança e criar dependência? Entre cuidar… e dominar? A verdade que eu não queria admitir era simples e incômoda: Eu não estava tentando salvá-la apenas porque podia. Eu estava tentando salvá-la porque não suportaria vê-la quebrar. E isso não é racional. Isso não é estratégico. Isso é pessoal. Encostei as duas mãos na mesa e fechei os olhos por um instante. Não vi gráficos. Não vi contratos. Vi a cicatriz dela. Vi o esforço absurdo que ela fazia para não pedir nada a ninguém. Vi alguém que sobreviveu sem rede de proteção num mundo que devora os distraídos. E pensei: quanto custa continuar sozinha? Homens compram segurança porque têm medo. Medo de perder controle. Medo de parecer fracos. Medo de amar errado. Eu já tinha comprado segurança para mim. Blindagem emocional. Distância calculada. Nenhuma brecha. Mas Ayume não cabia nesse modelo. Ela não queria ser salva. Ela queria não ser ferida de novo. Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Voltei ao sofá e sentei sem encostar no encosto. Postura de quem está pronto para reagir. O corpo treinado nunca relaxa por completo. Se ela assinasse, eu assumiria responsabilidade total. Não apenas jurídica. Moral. Emocional. Eu teria de vigiar meus próprios impulsos com o mesmo rigor que vigio ameaças externas. Porque proteger alguém não dá direito de possuí-la. E eu precisava ter certeza de que conseguiria lembrar disso… quando o desejo tentasse me convencer do contrário. Peguei o celular outra vez. Não escrevi nada. Algumas coisas não se dizem. Elas se provam. Se Ayume aceitasse, eu teria que ser diferente do homem que já fui. Não menos poderoso. Mas mais consciente. Segurança comprada com controle absoluto vira prisão. Segurança oferecida com escolha… vira aliança. A linha era essa. E eu sabia exatamente onde pisaria. O relógio marcava quase três da manhã quando finalmente me levantei. A cidade ainda acordada. Eu também. Homens como eu não dormem quando estão prestes a mudar algo essencial. Porque no fundo, eu sabia: Não era só Ayume que estava em risco. Era o tipo de homem que eu escolheria ser daqui para frente. E essa decisão… não se compra.
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