CAPÍTULO 30:– O Silêncio Que Provoca

1109 Words
Ayume Existem silêncios que machucam. E existem silêncios que comem a gente viva por dentro. O de Teo… é o segundo. Eu segurei a pasta com o contrato o resto do dia como se ela pudesse me segurar também. Um objeto não salva ninguém, mas às vezes dá a sensação de que estamos menos sozinhos. Ou menos expostos. Quando o expediente terminou, a maioria dos funcionários saiu rápido, ansiosos pela vida lá fora. Eu fiquei um pouco mais, esperando o ar da empresa ficar menos denso e o meu coração voltar para o lugar. Mas não voltou. Teo estava na sala ao lado, e isso era suficiente para bagunçar tudo. Eu tentava me convencer de que o certo era ir embora sem cruzar o caminho dele. Que manter distância era o único método de sobrevivência que eu conhecia desde que aprendi a medir o perigo olhando nos olhos de um homem. E, ainda assim, minhas pernas me levaram até lá. Bati na porta, suave demais para alguém que pretende colocar limites. — Entre — ele disse, antes mesmo de eu ter certeza se queria entrar. Abri a porta, hesitante. Ele estava de pé, apoiado na mesa, sem terno, sem gravata. Apenas a camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços, revelando veias que pareciam mapas de uma guerra interna. O cabelo um pouco bagunçado, como se a noite tivesse sido longa e o dia mais ainda. Ele me olhou. E o olhar dele entrou em mim. Não como uma seta. Como um toque. — Pensou? — perguntou. Assenti, embora a resposta ainda fosse um nó na garganta. — Eu tenho medo — confessei, surpreendendo até a mim mesma. Ele se aproximou um passo. Silêncio. Outro passo. Mais silêncio. Até que eu senti o calor do corpo dele a dois palmos de distância do meu. — O medo não te impediu de bater nesta porta — disse ele. Eu queria recuperar o ar que ele me tirava sem tocar. — Eu precisava… ver você antes de ir. Ele ergueu o rosto um pouco, como se isso fosse a resposta que ele esperava — e a que devia me assustar. — Por quê? As palavras, pequenas demais. A verdade, grande demais. — Para saber se eu ainda tenho escolha. A expressão dele desfez qualquer parede que ele mantinha de pé. — Você sempre tem escolha, Ayume. — sua voz veio baixa, firme. — Só que algumas escolhas… têm consequências mais fortes do que outras. Meu coração pulou como se tentasse fugir pela boca. Ele ergueu a mão até a linha do meu maxilar, sem encostar. O gesto ficou suspenso, como se ele me desse a chance de recusar. Eu não recusei. E ele encostou. Tão lento, tão cuidadoso, tão… íntimo. Meu corpo inteiro respondeu, mesmo que a mente gritasse que aquilo era perigoso demais. O toque dele no meu rosto parecia dizer: você não precisa fingir força agora. — Eu não devia… — tentei. Ele se aproximou mais, a boca quase tocando a minha. — Eu também não devia — respondeu. — Mas estamos aqui. O silêncio entre nós começou a ferver. Ele aproximou o nariz do meu — uma aproximação que era mais confissão do que qualquer palavra. Eu senti o perfume dele. Quente. Amadeirado. Invadindo meus limites. — Me diga para parar — ele pediu. Era um desafio. Era um pedido. Era uma ordem disfarçada. Eu abri a boca para dizer. Mas o que saiu foi: — Não pare agora. Ele fechou os olhos por um segundo, como se precisasse controlar o próprio impulso. E quando abriu, eu já não era mais uma funcionária diante do chefe. Eu era a mulher que ele queria. A mão dele desceu devagar pela minha nuca, envolvendo o pescoço como se segurasse algo precioso demais para deixar cair. Ele me puxou até nossos corpos se tocarem por completo — um encaixe inesperado e inevitável. Eu respirei mais fundo. Ele sentiu. E sorriu com a boca, mas com os olhos, ele queimou. — Não sabe o que está pedindo — disse, num sussurro que arrepiou até a ponta da minha coluna. — Eu sei exatamente — respondi — e é isso que apavora. Ele deslizou a mão até a minha cintura e me puxou ainda mais contra ele. Meu corpo já não obedecia nenhum comando lógico. Os lábios dele tocaram os meus. Não foi um beijo. Foi uma promessa. Suave demais para saciar. Forte demais para esquecer. Eu gemi baixo — um som que traía o controle que eu tentava manter. Ele abriu a boca para falar algo. Mas desistiu. Preferiu que o silêncio falasse. E ele falou. Meu Deus… como falou. A outra mão percorreu minhas costas, parando exatamente onde a cicatriz dormia sob a roupa. O toque suave naquela região fez minha respiração se partir em dois pedaços — dor antiga e desejo novo lutando dentro do meu peito. Ele percebeu. — Eu nunca vou tocar onde você sente medo — sussurrou — a não ser que seja para arrancar esse medo de você. Minha garganta fechou. Minhas pernas quase cederam. — Por que você faz isso comigo? — perguntei. Ele apoiou a testa na minha, e o mundo ficou pequeno, concentrado em dois corpos e uma respiração só. — Porque você me faz sentir outra vez. E eu já tinha desistido disso. Quase chorei. Quase o beijei. Quase assinei aquele contrato ali mesmo. O celular dele vibrou. O meu também. A realidade bateu na porta. E eu recuei um passo. Ele não tentou me manter perto pela força. Mas os olhos dele… os olhos me seguraram. — Não vá sem me avisar onde estará — ele disse. Não era pergunta. Era cuidado. Era poder. Eu deveria contestar. Mandar que cuidasse da própria vida. Mas mentir para mim mesma já me custou caro demais no passado. — Eu te mando mensagem quando chegar — prometi. Ele assentiu, lentamente. — E Ayume…? — Sim? — Silêncio também é resposta. — A voz dele veio carregada de intenção. — Mas não o tipo de resposta que me fará desistir. Meu coração se apertou. Ele deu dois passos para trás, me devolvendo a liberdade. Ou talvez apenas me emprestando. Fui até a porta com as pernas trêmulas e a respiração perdida, como se tivesse corrido uma maratona emocional. Antes de sair, ouvi a última ordem não dita: Volte para mim. Eu fechei a porta com cuidado. Segurei a pasta contra o peito. E tentei fazer o coração bater dentro do ritmo certo. No caminho para casa, uma frase me perseguiu: Ele me pediu silêncio. E mesmo assim… ele ouviu tudo o que eu senti.
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