Ayume
Tudo o que eu mais desejei na vida foi ser livre.
E, ironicamente, é agora — diante de um contrato que pretende controlar cada passo meu — que sinto a liberdade correr em direção ao perigo como um animal selvagem que encontra uma brecha no portão.
Segurei a pasta com o contrato entre os dedos enquanto caminhava até minha mesa. O papel parecia mais pesado do que deveria. Talvez porque não carregasse apenas regras… carregasse destino.
Sentei.
Abri.
Li.
Cláusula 1: Disponibilidade integral ao CEO, incluindo viagens, eventos e mudanças de agenda.
Minha respiração ficou presa no peito.
Um ano ao lado dele… próximos demais para ignorar o calor.
Cláusula 2: Segurança pessoal reforçada, incluindo seguranças particulares, monitoramento e proteção constante.
Meu coração agradeceu essa proteção.
Minha alma temeu o preço que ela cobra.
Cláusula 3: Total transparência sobre potenciais ameaças.
Transparência.
Eu conheço essa palavra.
Ela arranca segredos e expõe cicatrizes que o mundo não precisa ver.
Mas foi a Cláusula 5 que me fez engolir seco:
Contato pessoal direto com o CEO. A qualquer hora. Em qualquer situação.
O ar mudou de textura.
A coluna sofreu o peso de uma verdade incômoda.
Ele quer proximidade.
Ele quer controle.
Ele quer… eu.
E o pior?
Parte de mim quer pertencer.
Quer ter onde encostar quando o medo se aproxima demais.
Quer as mãos dele afastando a escuridão.
Mas outra parte — a parte que sangra por dentro — lembra que homens já me prometeram proteção antes.
Promessas podem doer mais do que golpes.
Fechei os olhos por um momento, tentando respirar entre os escombros da decisão.
Quando abri… Teo estava lá.
Apoiado na parede de vidro, braços cruzados, observando cada milímetro do meu rosto. Ele não espera convite para existir nos meus pensamentos — ele invade o espaço sem pedir permissão. A presença dele faz o ar esquentar.
— Já decidiu? — ele perguntou.
A voz baixa, sem pressa.
Mas cada palavra dele veio marcando território.
— Ainda não — respondi, virando a página como se lesse algo que já tinha memorizado.
Ele se aproximou.
Passos lentos.
Intenção rápida.
Quando parou atrás de mim, minhas costas imploraram por distância… e por contato.
— Você sabe que não tem muito tempo — ele disse, inclinando-se o suficiente para que a respiração dele roçasse meus cabelos.
Eu apertei o papel.
— Você quer que eu assine.
— Eu quero que você continue viva.
A resposta dele veio carregada de algo que eu não poderia nomear.
E não querer nomear talvez fosse mais seguro.
— Eu posso encontrar outra forma — murmurei.
— Pode. — Ele disse como quem concede um luxo. — E vai demorar. E vai falhar. E ele vence.
Meu corpo gelou.
Teo percebeu.
— Eu não quero te controlar, Ayume.
Eu quero te proteger.
Virei para encará-lo, e meus olhos encontraram os dele, cinzentos e intensos demais para ignorar.
— Qual a diferença?
O silêncio respondeu por ele.
Não havia diferença.
Porque proteção, às vezes, se confunde com posse.
E posse, às vezes, se disfarça de amor.
Ele colocou a mão no encosto da cadeira.
Não tocou em mim.
Mas basta a intenção para bagunçar minha lógica.
— Você teme que eu te machuque — ele afirmou, sem acusações. Apenas verdade.
— Eu não confio em homens que mandam. — respondi.
— Eu comando. — Teo corrigiu. — Mas não mando no que você sente.
A audácia dele provocou meu coração e meu orgulho ao mesmo tempo.
— E o que eu sinto? — perguntei.
Ele se abaixou até ficar na minha altura.
Nossos rostos perigosamente próximos.
— Que eu posso te proteger.
E que isso te apavora.
Meu corpo se perdeu por um instante.
Medo.
Vontade.
Vontade com medo.
— Você está indo longe demais — eu sussurrei.
— Eu ainda nem comecei — ele respondeu.
A coragem me empurrou para trás.
Levantei, fechando o contrato com firmeza.
— Não vou deixar ninguém me ter outra vez.
Ele deu um passo, me encurralando suavemente entre seu corpo e a mesa.
— Você acha que pertencer enfraquece — sua voz veio grave demais — mas eu vejo uma mulher que precisa descansar só um pouco. Só o suficiente para sentir o que é ser cuidada sem pagar com dor.
Meus olhos arderam.
Eu odiava essa parte.
A parte que queria acreditar.
— Se eu aceitar… — minha voz falhou — o que você vai querer de mim?
Ele segurou minha cintura com dois dedos apenas — como quem testa se um toque pode ser santo ou pecado. Meu corpo respondeu antes de mim. Arrepios, coração desritmado, calor subindo pelo pescoço.
— Quero a sua confiança — disse baixo. — E quero seu medo longe.
A proximidade fez minha mente silenciar.
— Isso é tudo? — eu perguntei, numa tentativa fraca de provocar.
— Por enquanto. — o olhar dele desceu para minha boca como se tivesse destino marcado — O resto… você me dá quando quiser. Ou quando não resistir mais.
Eu respirei fundo.
Mil razões para correr.
Mil motivos para ficar.
O celular vibrou dentro da minha bolsa.
Mensagem.
Não olhei.
Não hoje.
Mas Teo viu meu susto.
E isso foi suficiente para reacender a promessa:
ele não deixará ninguém encostar em mim sem que ele sangre por isso.
Ele se afastou lentamente, mas sua voz ficou colada à minha pele.
— Ayume… assine o contrato.
Eu não respondi.
Mas as mãos tremiam segurando a pasta.
Ele caminhou até a porta.
Parou antes de sair.
— Você merece estar segura.
Eu posso garantir isso.
Deixou a sala.
Levando consigo metade do meu ar.
Fechei os olhos.
A cicatriz pulsou sob o tecido como quem tenta me lembrar do passado.
Mas o som da voz dele puxou meu futuro.
Eu estava nascendo de novo.
Com medo…
mas com fogo.
Olhei para o papel.
Para as linhas que poderiam se tornar algemas ou asas.
E pensei:
Será que a liberdade sempre precisa do amor errado… para reconhecer o amor certo?
Não assinei.
Ainda.
Mas dobrei o contrato com cuidado e o guardei na bolsa.
Porque parte de mim — a parte que não teme mais a própria sobrevivência — já tinha decidido.
Um ano à mercê dele.
Ou um ano longe da escuridão.
No fim, talvez seja a mesma coisa.
Eu só precisava de coragem para admitir em voz alta o que minha pele já sabe:
Eu já estou escolhendo.