CAPÍTULO 2 – O Olhar Que Ele Não Domina

1371 Words
Narração: Teo A vida me ensinou que sentir é fraqueza. E fraquezas se aproveitam. Fraquezas te derrubam, te expõem ao ridículo… te deixam sozinho na frente de câmeras do mundo inteiro enquanto alguém cuspindo promessas te apunhala por trás. Eu deveria ter aprendido. Deveria ter fechado todas as portas do peito. Deveria ter trancado qualquer emoção em um cofre sem retorno. Mas ontem ainda doía. E hoje… doeu diferente. A porta daquela sala se abriu e, por um segundo que jamais admitirei em voz alta, meu corpo esqueceu como se controla o próprio pulso. Eu estava pronto para avaliar competências, identificar fraquezas, medir resultados. Eu vim para o Brasil com uma missão: apagar o escândalo, reconstruir meu trono, provar que ninguém me destrói. Então, por que eu travei? Ela estava ali, arrumando a própria respiração com a mesma precisão com que alinhava a postura. Como se preparasse o mundo para notar que ela existe. Pele quente, perfume doce de fruta misturada com algo floral que eu não consegui decifrar. Um aroma que se infiltra na memória. E os olhos… Aqueles olhos negros, fundos, firmes. Não havia submissão neles. Havia poder. E poder reconhece poder. Meu pai sempre disse que poder se sente antes de se ver. Eu senti Ayume. Era para eu tê-la ignorado, como faço com qualquer funcionário. Eu deveria ter apenas entregue ordens, estabelecido limites e deixado claro que meu escritório não é lugar para distrações. Mas a distração estava me encarando como se fosse eu quem estivesse atrasado para acompanhá-la. E eu estava. Aquele olhar me colocou em desvantagem desde o início. — Você deve ser Ayume. Ela respondeu pronta. Voz firme. Sem tremor, sem deslize. A autoconfiança dela entrou primeira, a pele veio depois. Eu me aproximei porque precisava comprovar uma hipótese: seria impressão ou perigo real? Os olhos dela não desviaram. Ninguém me olha assim sem tremer. Ninguém deveria conseguir. Ela conseguiu. Enquanto falávamos sobre o trabalho, sobre estar disponível para mudanças, sobre minhas exigências… minha cabeça estava em outro lugar. Estava imaginando a boca dela dizendo meu nome em um tom diferente. Estava reparando no formato do quadril. Estava tentando não encarar a curva do pescoço que pedia beijo como quem pede redenção. Isso não pode acontecer. Não agora. Não comigo. Tentei recuperar o domínio da situação. Eu precisava mostrar que o mundo ainda obedece às minhas regras. — Minhas exigências costumam ser altas. Ela ergueu o queixo, num gesto tão pequeno e tão provocante que me arrancou o ar. — Ótimo. As minhas também. Aquela mulher não sabe o que faz com palavras. Ou sabe bem demais. Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento. Desejo. Forte. Rápido. Imprudente. Quis arrastar aquela boca para a minha e descobrir se o gosto confirmava o perigo. Quis sentir as mãos dela no meu peito, talvez me afastando no início… e me puxando depois. Quis descobrir se aquela postura séria resiste ao toque certo no lugar certo. Eu não deveria pensar assim. Mas pensar em quê? Em perdão? Em casamento destruído? Em juramentos rasgados diante de câmeras? Não existe mais espaço para sentimento nobre dentro de mim. Mas existe fogo. Ainda existe. Ela mexe em algo que eu não estava preparado para encarar. Por que justamente ela? Por que agora? O mundo inteiro espera que eu renasça frio. Que eu construa muros, torres, trincheiras. Que eu governe com mãos de ferro, sem me distrair. Mas Ayume entrou na sala como se abrisse uma janela. E eu detesto janelas. Elas deixam entradas demais. Ela disse que estava preparada para me acompanhar em tudo. Não faz ideia do que “tudo” significa quando se trata de mim. Eu me aproximei mais. Quase toquei o ombro dela sem tocá-lo. Quase sussurrei ao invés de falar. Quase deixei escapar que ela me desestabiliza. Mas quase nunca é suficiente para derrubar um rei… até ser. — Que o seu primeiro dia seja memorável. Eu quis dizer outra coisa. Quis dizer: “Vai ser difícil te manter distante.” Quis dizer: “Não me olhe assim se não puder bancar o que esse olhar provoca.” Quis dizer: “Eu não aguento mais sentir nada… mas você me fez sentir.” Engoli tudo. Engoli a vontade, a raiva da vontade e o medo da raiva. Ela sustentou o olhar. Corajosa demais. Tentadora demais. E eu senti algo que não queria sentir: respeito. É raro, caro e perigoso. Respeito abre espaço para tudo que eu preciso evitar. Ela piscou lentamente. Um gesto simples. Mas quase me fez perder o foco. O mundo continua me observando, cobrando que eu vire a página do escândalo. O Brasil inteiro aguardando o magnata poderoso que foi humilhado no altar. O homem que deve provar que ninguém o quebra. Eu vim para dominar. Não para desejar. Depois que ela saiu da sala para buscar uns relatórios, fiquei sozinho com meus pensamentos — coisa que detesto. E percebi que não era apenas atração. Não era só o corpo dela pedindo espaço na minha mente. Era algo mais profundo. Algo que cutuca onde não existe defesa. Porque ela não sorriu para mim como quem espera favor. Ela não recuou um centímetro quando eu avancei. E quando nossa respiração se encontrou no meio do caminho… ela não desviou. Como se dissesse, sem dizer: tente me controlar, se for capaz. O problema é que eu controlo tudo. Menos o que aquela mulher provoca. Minha assistente pessoal. Escolhida antes de eu chegar. Péssima ideia manter alguém assim tão perto. Péssima ideia me permitir notar o brilho da boca dela. Péssima ideia querer mais. Eu deveria mantê-la longe. Mas não vou. Quero testar os limites dela. Quero ver até onde esse olhar aguenta sem ceder. Quero descobrir o que ela esconde atrás da postura impecável. Quero rasgar cada camada dessa coragem até chegar no ponto onde ela treme. E, quando tremer… quero ser eu quem a sustenta. Talvez eu esteja cometendo um erro. Talvez eu esteja indo direto para um campo minado. Talvez eu esteja prestes a repetir o que jurei nunca mais permitir. Mas o desejo não aceita ordens lógicas. Desejo quer intensidade. Desejo quer pele. Desejo quer Ayume. Depois de anos carregando cinzas no peito… senti fogo outra vez. Um fogo perigoso. Ela precisa entender uma coisa: ninguém sobrevive ileso ao meu lado. Ninguém toca em mim e sai o mesmo depois. E se ela consumir o que existe por trás do meu controle… terá que pagar o preço. Quando a porta se abriu de novo e ela retornou com os documentos nos braços, meu olhar desceu para o movimento da cintura dela acompanhando cada passo. Uma espécie de hipnose involuntária. Ela percebeu. E não disfarçou. Sorveu o ar e ergueu levemente o rosto, como quem diz que sabe exatamente o efeito que causa. Como se convidasse para o desafio que eu pretendia evitar. Eu dei meu melhor para parecer intacto. Mas meu peito denunciava: Eu perdi o primeiro round. Ela colocou os papéis sobre a mesa com firmeza. — O senhor precisa de mais alguma coisa? Preciso. Mas não posso dizer. Ainda não. — Quero que esteja sempre um passo à frente de qualquer necessidade da empresa — respondi, recuperando meu tom habitual. — Incluindo as minhas. O olhar dela brilhou. Não de medo. De provocação. — Eu consigo acompanhar o seu ritmo. Meu sangue aqueceu de um jeito indecente. Ela não tem ideia do que está dizendo. Ou tem, e isso torna tudo ainda mais perigoso. Ela virou para sair da sala. Eu deveria ter deixado. Mas a língua foi mais rápida que a razão: — Ayume. Ela parou. Virou o rosto devagar. A boca entreaberta em silêncio curioso. — Não teste meus limites. Ela ergueu a sobrancelha com elegância. — Depende só de mim? E saiu. Sem pedir licença. Sem pedir desculpas. Sem me olhar como um troféu ou uma ameaça. Saiu como quem promete retorno. Como quem acende um pavio. Como quem sabe que, a partir daquele instante, nada mais será morno. Senti o peito responder com uma pulsação que não sentia há meses. E admiti — ainda que apenas para mim — a verdade que tentei esconder desde o primeiro segundo: O controle… não é mais só meu.
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