CAPÍTULO 3 – Balanço Entre Dor e Desejo

1353 Words
Ayume Meu corpo sempre teve seus próprios modos de lembrar que o passado ainda existe. Às vezes é como uma fisgada discreta. Às vezes é como uma faca lenta. Hoje, foi apenas um aviso leve, quase um sussurro, mas suficiente para me tirar do eixo enquanto eu organizava relatórios atrás da mesa. Respirei fundo, tentando ignorar o incômodo na lateral do abdômen, bem onde a pele guarda uma cicatriz que nunca me deixa esquecer o que já suportei. Passei a mão por cima da camisa, como se pudesse apagar a memória com um simples toque. Mas cicatrizes não são borracha. São marca. São história que recusa ser enterrada. Ainda era cedo. O escritório estava silencioso, com a luz da manhã entrando pelas janelas e se espalhando em reflexos dançantes pelo chão de mármore. O café que eu trouxera comigo esfriava lento, abandonado sobre a mesa. Eu tentava focar nas planilhas, nos números, na empresa que agora dependia de mim para funcionalidade interna. Tentava fingir que o olhar dele não tinha me marcado. Não tinha me invadido. Não tinha me questionado inteira sem fazer nenhuma pergunta real. Mas o corpo sempre sabe. E o meu corpo já tinha entendido demais. — Srta. Ayume. A voz dele soou às minhas costas, como se o meu nome tivesse sido moldado para sair daquela boca. Minha pele arrepiou antes de eu decidir virar para encará-lo. Quando fiz, quase me arrependi. Teo caminhou na minha direção com o tipo de presença que não termina quando o corpo para. Ela continua, ecoa, ocupa espaço que você não cedeu. Terno alinhado, gravata impecável, o rosto de quem aprendeu a nunca demonstrar tudo o que sente. E mesmo assim… eu vi um traço de algo escondido. Algo que parecia reconhecer minhas dores sem que eu dissesse uma palavra. — Aqui está o resultado da triagem dos funcionários. — Entreguei os documentos para ele, firme, mesmo que meus dedos denunciassem ansiedade por dentro. Ele recebeu sem desviar os olhos dos meus. Goteiras de eletricidade correram por minha espinha. — Você está confortável na função? — Ele perguntou. Confortável? Essa palavra nunca fez parte da minha vida. — Sim. Uma mentira suave, mas necessária. Ele ergueu o queixo. Como se pudesse ler meu silêncio. Como se pudesse entrar nele. — Se algo ou alguém estiver ultrapassando seus limites, quero que me informe imediatamente. Engoli o ar por obrigação. Limites… Talvez ele não devesse mencionar essa palavra comigo. — Posso me cuidar sozinha, senhor. Ele se inclinou ligeiramente, aproximando seu corpo do meu espaço. Meu coração empurrou as costelas para avançar também. — Eu não duvido disso — sussurrou. O sussurro dele parecia uma mão tocando minha pele sem permissão. Arrepios. Desejo. Medo. Um equilíbrio perigoso demais. Virei o rosto discretamente, precisando de um respiro. A cicatriz latejou, como se lembrasse das mãos que a causaram. Mãos que se diziam amor enquanto destruíam tudo. Não agora. Não aqui. Ninguém mais vai me encostar de novo. Ninguém. — Ayume. O jeito como ele disse meu nome… como se meu nome tivesse gosto, como se ele quisesse prová-lo… Isso mexeu com algo que eu achei que estivesse morto. — Você está pálida — comentou, franzindo o cenho. — Só preciso de ar — respondi. Ele deu um passo para o lado, abrindo caminho até a janela. E eu, tola, segui como se meus pés obedecessem à gravidade dele. A brisa entrou forte quando a janela se abriu. Uma lufada quente, carregando o cheiro das ruas, buzinas distantes, vida brasileira pulsando lá embaixo. Ele ficou parado ao meu lado, observando São Paulo se mover em ritmo frenético. — Esse lugar respira poder — ele comentou. — Respira sobrevivência — corrigi. Ele virou o rosto devagar até me encarar. — Então respire fundo, Ayume. Você está aqui justamente para isso. Por um instante, deixei o peito expandir. Deixei o ar entrar como se fosse força. Mas quando soltei… ele aproximou o corpo do meu sem me tocar. Assim mesmo… eu senti. Senti cada centímetro dele. Senti a distância inexistente. Senti a tentação de me inclinar um milímetro e descobrir o que mais existia ali. Me afastei. Era isso ou eu me queimaria. — Preciso continuar meu trabalho — murmurei. Ele piscou, lento. Um aviso sutil de que ele tinha notado a fuga. — Vá — ele disse, voz baixa. — Mas entenda algo: eu sempre percebo quando alguém tenta fugir do que sente. Meu corpo congelou. Meu coração disparou. Minha mente juro que gritou: não olha de volta. Eu olhei. E me perdi. Aquele olhar não deveria existir em um homem que diz estar curado de sentir. Era o olhar de quem está tentando dominar o próprio desejo… e falhando miseravelmente. — Eu não sinto nada, senhor — respondi, tentando vestir armadura. Ele sorriu. Maliciosamente inteligente. Quase c***l. — Ainda. — Só isso. Quando ele se virou e saiu, minhas pernas quase desistiram de mim. Segurei a borda da mesa com força. O mundo girou um pouco. A cicatriz ardeu de novo. Um aviso. Você não pode se dar ao luxo de desejá-lo. Mas a pele não ouve alertas. A pele só quer sobreviver à próxima carícia. O celular vibrou na mesa. Mensagem desconhecida: Você realmente achou que podia mudar de vida sem me avisar? Você sabe que tem uma dívida comigo. Por onde quer que vá, ela te segue. O sangue fugiu das minhas veias. A cicatriz queimou. As mãos tremeram. Ele tinha encontrado meu número. Minha respiração virou espinho. Outro texto chegou: A gente se fala logo, meu amor. Meu amor. Como se ele não tivesse arrancado amor de mim à força. Como se ele tivesse o direito de nomear meus sentimentos. Meus dedos quase deixaram o celular cair. Corri até o banheiro e lavei o rosto, tentando não desmoronar. Água fria contra o calor do pânico. O reflexo no espelho mostrou uma mulher lutando contra fantasmas que sabem demais sobre ela. Meu peito estava apertado demais. A lembrança de gritos abafados. A dor marcando meu corpo. A escuridão que não quis me devolver. Eu me abracei por um segundo. Só um segundo. E foi nesse instante que a porta se abriu sem aviso. Teo. Ele me viu com água escorrendo pelo queixo. Me viu frágil. Me viu expondo uma fraqueza que jurei nunca deixar ninguém ver. — O que está acontecendo? — Ele perguntou, se aproximando rápido. — Nada — respondi, enxugando o rosto com a mão. Ele segurou meu pulso. Firmemente. Com cuidado. O mundo parou. — Não minta para mim — ele disse. Meu coração bateu tão forte que quase denunciou tudo. Eu puxei o braço devagar, tentando esconder a cicatriz sob o tecido. — Só… enjoo — falseei. Os olhos dele baixaram para a posição da minha mão protegendo a lateral do corpo. Ele viu. Não tudo. Mas tentou. Eu tremi. Ele deu mais um passo, agora perto o bastante para eu sentir sua respiração quente na minha bochecha. — Se alguém te feriu — ele disse, baixinho — eu quero saber. A voz dele estava carregada. Não de raiva. De proteção. De posse. De algo que nasce mesmo quando ninguém autoriza. Meu corpo inteiro reagiu àquela promessa escondida. Desejo e medo, mãos dadas. Pele pedindo socorro. Coração pedindo risco. Me afastei como quem salva a própria vida. Ou talvez como quem tem medo de encontrar um lar. — Já passou — murmurei, mesmo sabendo que não era verdade. Ele não sorriu dessa vez. Só me observou com olhos que enxergavam fundo demais. — Quando estiver pronta… você me conta. Saindo, ele fechou a porta devagar. Mas o efeito dele continuou dentro de mim. Latejando. Crescendo. Pedindo passagem. A cicatriz ainda queimava. Mas, pela primeira vez em anos… não era a única coisa queimando. Eu me encostei na pia e respirei fundo. Dor e desejo travando guerra dentro de mim. Medo e vontade caminhando lado a lado. Eu tentei me convencer de que precisava fugir. Mas algo dizia que meu destino estava olhando diretamente para mim com olhos cinzentos demais para ignorar. Eu não tinha mais controle. E talvez… eu nem quisesse.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD