Teo
Eu sempre observei tudo. Pessoas, gestos, intenções invisíveis. Cresci aprendendo que ninguém te fere antes de te estudar primeiro. E talvez por isso agora o incômodo não saía do meu peito.
Ayume voltou à sua mesa depois daquela conversa no banheiro, tentando agir como se estivesse bem. Mas a água ainda brilhava na pele dela. O tremor ainda escondia a coragem atrás dos dedos.
Algo tinha acontecido.
Algo que ela não quis me dizer.
Algo que mexeu com ela do jeito que eu não deveria me importar… mas me importei.
E quando eu me importo, eu me movo.
Rápido e sem pedir licença.
Saí de perto antes que ela notasse demais. Fui direto para minha sala, onde Olivier me esperava. Meu braço direito no Brasil. Amigo de infância. O único que viu o que eu fiquei no dia em que fui transformado em piada mundial.
Ele largava uma pilha de papéis na minha mesa quando me olhou com aquela cara de quem percebeu algo errado.
— Você está estranho — disse.
— Estou observando.
Ele riu, mas havia cautela no olhar.
— Então observou Ayume muito de perto.
Revirei os olhos, mas não o suficiente para negar.
— Há algo que ela está escondendo — respondi. — E não é pequeno.
Olivier se recostou na poltrona com um suspiro lento.
— Todo mundo esconde alguma coisa, Teo. Até você.
— Isso não me impede de exigir respostas — retruquei.
A irritação veio rápida.
Quando a proteção acorda, ela vem com dentes.
O celular vibrou na mesa. Era uma mensagem da minha equipe de inteligência corporativa. Eu tinha solicitado uma verificação completa do quadro de funcionários antes mesmo de entrar no país. Precaução nunca é exagero, principalmente em território novo.
Abri o arquivo. O nome dela estava lá.
Ayume Santos.
E ao lado dele…
um anexo confidencial.
Cliquei.
O mundo afunilou na tela.
Registro de ocorrência. Violência. Hospital. Agressor: Vinícius Barreto.
Meu sangue esquentou tão rápido que quase senti ranger os dentes.
Outro arquivo se abriu automaticamente, mostrando uma foto dele. Terno caro, sorriso falso, olhos de quem se acha dono de tudo que toca.
Eu conheço esse tipo de homem.
Já fui treinado por um deles.
Vinícius é filho de um dos maiores investidores privados do país. Números grandes, alianças perigosas, influência como arma.
E esse desgraçado já encostou nela.
Deixou marca.
Marcou onde ninguém deveria ousar.
Eu li mais:
Dívida em aberto. Ameaças recorrentes.
Relação manipuladora.
Perseguição.
A mandíbula travou.
O ódio subiu como álcool em combustão.
— Que foi? — Olivier perguntou, voz tensa.
Joguei o celular para ele ver.
O silêncio dele pesou.
— Droga… — murmurou. — Esse cara tem poder real. Teimoso. Doente. Perigoso.
Perigoso.
Sim.
Mas não para mim.
Para ela.
Meu peito se apertou com uma urgência que eu não reconhecia em mim mesmo. Eu não a conheço. Mas cada pedaço dela parece pedir defesa.
Não pedi para sentir.
Mas senti.
— Isso explica muita coisa — continuou Olivier. — Ela foi marcada, Teo. E se ele ficou sabendo que ela está aqui…
Fechei a mão em punho, tão forte que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Ele não vai chegar perto dela — declarei.
Olivier arqueou a sobrancelha.
— Te conheço. Quando usa esse tom, significa que acabou de se meter numa guerra pessoal.
— Eu vou resolver.
— E como pretende fazer isso? Baixar decreto? Comprar o silêncio do cara?
Eu encarei a cidade pela parede de vidro. O Brasil, lá embaixo, pulsava sem saber a fúria que eu estava prestes a liberar.
— Se necessário — respondi. — Mas primeiro… quero saber até onde ele foi.
Voltei ao relatório. E então vi a foto.
Não dela.
Da cicatriz.
O golpe doeu em mim.
Imaginá-la sangrando.
Imaginá-la chorando sem ajuda.
Imaginá-la sendo tocada por quem não respeita nada.
O desejo que eu sentia se misturou com algo mais pesado.
Mais profundo.
Quase primitivo.
Proteção.
Posse.
Justiça.
Quando fechei o arquivo, eu sabia que já tinha feito minha escolha. E que qualquer movimento a partir daqui… não seria profissional. Seria pessoal.
Batidas na porta.
Olivier se levantou para atender.
Luana entrou com Bibi no colo, sorridente demais para o clima da sala.
— Espero não estar atrapalhando — ela disse.
— Nunca atrapalha — Olivier sorriu para as duas.
Mas minha atenção foi capturada por outra coisa:
Ayume aparecendo atrás de Luana.
Ela tentou agir normal.
Mas os olhos dela traíram.
Havia medo neles.
E havia algo mais… alívio ao me ver?
Talvez eu esteja imaginando.
Ou talvez ela queira acreditar em alguém.
— Vim convidar o chefe novo para o almoço com a equipe, já que hoje é dia de boas-vindas — Luana explicou.
Bibi me encarou com curiosidade audaciosa.
— Você é o novo rei?
Soltei um meio sorriso.
— Algo assim.
— Então trate bem minha tia Ayu. — Ela pontuou com a mãozinha na cintura. — Ela é forte, mas é coração mole.
Meu peito reagiu como se alguém tivesse fechado a mão em volta dele.
Olhei para Ayume.
Ela desviou na mesma hora.
O que ela acha que está escondendo?
Olivier se aproximou da filha e a pegou no colo, deixando o ambiente mais leve. Mas eu ainda estava preso à única pessoa que tentou desaparecer ali dentro.
— Ayume — chamei.
Ela ergueu o rosto sem alternativa.
— Sim?
— Quero que almoce comigo hoje. Assuntos da empresa.
Ela hesitou.
Dois segundos.
Três.
Quase quatro.
E então cedeu.
— Claro.
Havia resistência nos lábios dela.
Havia desejo na respiração.
Havia história por trás dos olhos.
E eu quero cada fragmento.
Quando Luana saiu com Olivier e Bibi, nós ficamos sozinhos de novo.
O ar ganhou peso.
Ela abraçou a própria bolsa como quem busca escudo.
— Se você quer que eu seja eficiente, preciso do resto da documentação da fusão — disse, tentando manter o tom profissional.
— Você vai receber tudo que precisar — respondi.
Ela assentiu, pronta para ir embora.
Mas eu não deixei.
— Ayume.
Ela parou.
— Há alguém te ameaçando?
O medo passou rápido pelo rosto dela, como relâmpago que ninguém deveria ver. Mas eu vi.
— Eu não quero misturar minha vida pessoal com o trabalho — ela disse.
— Só responde: esse alguém existe?
Ela fechou os olhos por um segundo.
E isso foi resposta o bastante.
Me aproximei.
Não tocando.
Mas perto o suficiente para que ela sentisse que eu estaria ali antes de qualquer golpe a atingir.
— Eu não tolero que ninguém toque em quem trabalha ao meu lado.
A respiração dela falhou.
Foi microscópico.
Mas eu percebi.
— Posso me proteger sozinha, senhor.
— Eu sei que pode. — Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Só quero deixar claro que… não vou esperar para reagir.
O olhar dela se perdeu no meu por tempo demais.
E quando ela desviou, seus passos estavam rápidos demais para não entregar fuga.
Assim que ela saiu, voltei à mesa e peguei o celular.
Teclando para minha equipe:
Rastrear Vinícius Barreto.
Quero tudo.
Movimentações, localização, contatos.
E quero hoje.
O ódio estava em silêncio dentro de mim.
Mas ele tinha forma.
E destino.
Porque agora eu sabia o que a feriu.
E quem a machucou.
E se esse homem é uma ameaça…
…já deveria estar começando a ter medo.
Não de Ayume.
De mim.
Eu não perdi tudo para ficar parado.
Se esse ex acha que pode reivindicar o que já ousou destruir um dia…
ele vai descobrir que algumas dívidas não se cobram com ameaça.
Cobram-se com poder.
E o meu é suficiente para fazê-lo ajoelhar.