Ayume
Eu sempre achei que podia controlar a dor se a escondesse.
Que se eu respirasse fundo o suficiente, ela perderia o poder de me dobrar.
Mas dor antiga é como vidro enterrado na pele:
até o menor movimento pode fazer tudo sangrar de novo.
E hoje… eu me movi.
O almoço com a equipe deveria ser leve, uma formalidade para me enturmar e mostrar que sou mais do que o medo que carrego. O restaurante a três quadras da empresa era barulhento o bastante para me distrair. Luz de sol refletindo em copos, barulho de talheres, cheiro de comida caseira misturado com perfume barato — Brasil vivo, pulsante, cheio de pessoas que não fazem ideia de como algumas batalhas são travadas em silêncio.
Teo estava sentado à minha frente.
Olivier ao lado dele.
Luana bem perto de mim, sorrindo como se pudesse costurar pedaços meus só com presença.
Bibi dormia no colo da mãe, exausta de brincar com os guardanapos antes da comida chegar.
E eu tentava focar em qualquer coisa que não fosse… ele.
Teo com a postura imponente mesmo sentado.
Teo com os dedos longos brincando com o guardanapo, distraído e atento ao mesmo tempo.
Teo com aqueles olhos cinza que me observavam quando ele achava que eu não estava olhando.
O garçom trouxe os pratos.
Arroz soltinho, feijão bem temperado, bife com cheiro de alho dourado.
Eu deveria estar relaxando.
Eu deveria estar saboreando a paz.
Mas meu celular vibrou.
Uma.
Duas.
Três vezes.
O coração esfacelou o controle que eu tentava manter.
Peguei o aparelho lentamente, como quem recolhe uma cobra adormecida.
Mensagem.
Ele.
Meu amor.
Saudades do seu corpo.
Você me deve muito mais do que dinheiro.
Senti o gosto de ferro na boca.
O ar ficou curto.
Minhas mãos gelaram.
Respire.
Respire.
Só respire.
Outra notificação surgiu na tela, e minhas pupilas dilataram como se fosse um golpe físico:
Eu sei onde você trabalha agora.
Não houve grito.
Não houve barulho.
Somente o colapso silencioso que rasga o estômago.
Me levantei devagar, evitando que o pânico assumisse o comando diante de testemunhas.
— Vou ao banheiro — murmurei para Luana.
Ela me olhou com preocupação instantânea, mas apenas assentiu.
Caminhei até o corredor estreito com passos firmes demais para quem estava à beira de desmanchar.
Quando a porta do banheiro se fechou atrás de mim, segurei a pia com as duas mãos.
Meu reflexo não conseguiu sustentar meus olhos por mais que alguns segundos.
Então, o celular vibrou de novo.
Mensagem de voz.
Toquei.
Arrependo-me na mesma hora.
A voz dele envenenou o ar.
Arrastada.
Cruel.
Intimação travestida de carinho.
Você sempre foi minha, Ayume.
Eu vou te buscar.
Não importa quem tente se meter no meio.
Engasguei no próprio medo.
A cicatriz latejou forte, como se quisesse se abrir de novo.
Eu queria gritar.
Mas apenas respirei com dificuldade, tentando segurar as lágrimas.
Uma delas escapou.
Outra veio.
E outra.
De repente, senti presença.
Antes mesmo de levantar os olhos.
A porta se abriu.
Teo.
O mundo é pequeno demais para esconder o que ele viu no meu rosto.
— Ayume.
Seu nome na boca dele tem um peso diferente quando estou fraca.
— Não… — tentei afastá-lo com um gesto. — Só preciso um minuto…
Ele fechou a porta atrás de si, devagar.
Passos lentos na minha direção.
Sem pressa.
Sem alarde.
Mas com uma intensidade que acendeu meu corpo mesmo dominado pelo medo.
— Olhe para mim.
— Eu… não quero que me veja assim.
Ele se aproximou até que nossos braços quase se tocassem.
— Eu já te vi forte demais, Ayume. Posso te ver humana também.
Uma lágrima caiu sem permissão.
Ele ergueu a mão.
Por um instante, achei que fosse secá-la.
Mas ele se conteve.
Apenas manteve a mão perto o suficiente para ser convite.
Seu olhar desceu para o celular que tremia na minha mão.
— Deixe-me ver.
Neguei.
Pavor puro.
— Ele não vai parar — sussurrei.
Teo respirou fundo, e os olhos dele mudaram.
De controle para perigo.
De contenção para uma fúria quase silenciosa.
— Ele — repetiu.
Não era uma pergunta.
Era uma sentença.
Eu não queria que ele se sentisse responsável.
Não queria que me visse como fraqueza.
Não queria que ele carregasse meu trauma.
Eu estava ciente de cada coisa que eu não queria…
Mas meu corpo queria outra.
Ele tocou meu queixo com duas pontas de dedos.
Delicado.
Mas poderoso.
— Diga o nome dele.
Minha respiração falhou.
— Não posso.
— Pode — ele corrigiu — quando não estiver mais sozinha com isso.
Fechei os olhos.
Senti seu cheiro amadeirado.
Senti a proximidade.
Senti o tempo prestes a ceder.
— Vinícius — consegui dizer, quase sem voz.
A reação dele foi animal.
Os maxilares endureceram.
O peito expandiu como se preparasse ataque.
Os olhos cinza se tornaram aço derretido.
— Ele é seu medo — Teo concluiu.
— Ele é a minha dívida — corrigi.
— Dívida não se paga com dor — ele respondeu, firme. — Não enquanto eu estiver aqui.
Meu coração se desfez em silêncio.
A cicatriz doeu menos sob aquelas palavras.
— Não quero envolver você nisso.
— Tarde demais — ele devolveu.
Eu olhei.
Ele já estava dentro do meu problema.
Dentro do meu perigo.
Dentro do meu sangue acelerado.
Teo aproximou mais o corpo.
Eu não recuei.
— Se ele encostar em você, Ayume… — a voz dele veio baixa, quase mortal — eu resolvo.
Meu corpo respondeu com um arrepio que subiu pelas costas até a nuca.
— Por quê? — murmurei. — Por que… eu?
Os olhos dele deslizaram pela minha boca antes de voltar ao meu olhar.
— Porque você me faz sentir o que eu não devia — admitiu.
Eu perdi a força das pernas.
Ele percebeu.
E, sem tocar, me sustentou apenas com a firmeza de estar ali.
— Ele não pode te tocar de novo — Teo reforçou.
— E se ele tentar…?
O meio sorriso que surgiu no rosto dele não tinha nada de leve.
Tinha a promessa silenciosa de destruição.
— Não vai gostar do resultado.
O ar ficou denso.
Quente.
Quase vivo.
Ele deu um passo atrás.
Não por vontade.
Por controle.
— Vamos voltar — disse, voz firme demais para esconder o que sentia.
Assenti, tentando reunir todos os pedaços de mim que ele tinha visto.
Antes de abrir a porta, ele disse:
— Quando doer, você me procura.
Meu coração se partiu em duas verdades:
Eu não posso. Eu preciso.
Respirei fundo.
Enxuguei o rosto com o dorso da mão.
E segui atrás dele, com a sensação nítida de que agora…
meu destino tinha um protetor.
Mas também tinha um risco:
me apaixonar pelo homem que pode salvar meu corpo…
e incendiar meu coração.
Eu caminhei de volta para a mesa como se nada tivesse acontecido.
Mas dentro de mim, algo havia mudado.
Algo sangrou.
Algo acendeu.
A dívida ainda respirava nas sombras.
O desejo, porém…
já respirava nele.