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2012
Há uma coisa sobre super-heróis que sempre fora imperceptível aos olhos infantis, quase como se houvesse um comando programado em seus cérebros para idolatrarem aqueles seres tão poderosos. Eles são corajosos, bondosos e dificilmente podem ser comparados a humanos. Os Thunderblood, grupo mais conhecido, sempre estiveram ali, na televisão, nas ruas, nos enormes telões dos prédios da Times Square, dificilmente alguém não os conhecia. E, quando criança, sempre houve aquele brilho, pequeno e quase esquecível, de expectativa que um dia eles a tirariam dali.
No entanto, ao crescer, esse comando se dissolve em seus cérebros e permite que a verdade seja revelada quase que automaticamente. Eles tem o título de heróis, são poderosos e miseravelmente humanos, nada da magia infantil permaneceu após completar dez anos. Continuou sendo uma criança, de fato, porém a confiança, a esperança, que tinha em relação aos heróis não era mais a mesma. E, diante dessa dura realidade, sobreviver se tornou mais difícil do que antes. Porque, antes de descobrir a verdade, poderia facilmente fantasiar sua salvação, imaginar-se sendo libertada daquele buraco em que foi jogada.
E, agora, o medo era casual, alimentado diariamente por cada rua estreita que se aventurava através do Beco. O lugar reunia bêbados perdidos e desesperados, grávidas desamparadas, crianças azaradas e homens donos de comércios. A cada virada de esquina, a rua é estendida por comércios de fachadas desgastadas, a calçada com asfalto irregular e esburacado. Nenhuma criança deveria crescer ali.
O Beco, local pelo qual ninguém sabia exatamente onde era localizado, era o tipo de lugar que só uma pessoa muito azarada poderia acabar descobrindo. Ou você nasce lá e consequentemente morre lá, porque dificilmente alguém consegue sair do Beco. Ou você é jogado nele, fundido no buraco gasto e esquecido, e antes que se dê conta estará pensando na morte e desejando avidamente pela salvação. Não há religião pela qual poderá se agarrar, nem para bondade para buscar se guiar. Não há nada além do medo.
Elizabeth aprendeu a sobreviver ali antes mesmo de aprender a ler – algo pelo qual tão pouco sabia fazer. Ela se esgueirava pelas sombras, camuflando-se no silêncio que descobriu ser seu maior aliado. No silêncio, ninguém prestava atenção nela o suficiente para importuná-la ou agredi-la. E como um fantasma andava nos topos dos prédios, descendo as escadas e fugindo de qualquer confusão que aparecia à espreita.
Essa era a sua rotina, fugir e se esconder, se camuflar na escuridão e sobreviver com o que encontrava nas latas de lixo.
Hoje não ocorreu como o planejado.
Antes do amanhecer, Elizabeth se rastejou pelo barro e saiu de seu esconderijo. O caminhão de cervejas ficou estacionado no estacionamento a noite inteira, permitindo que ela conseguisse um lugar minimamente seguro para descansar. O último lugar que dormiu foi em cima do telhado de uma casa de mulheres, não era muito silencioso devido a música do primeiro andar e os gritos do segundo andar, mas às vezes encontrar lugares à noite não servem só para dormir, também servem para se esconder.
Agachada e silenciosamente, Elizabeth cruzou o estacionamento contornando os carros e parando toda vez que ouvia sons de passos. Com cautela, ela empurrou o portão de ferro e passou pela fresta, os tênis sujos de barro quase deslizando contra a grama molhada.
Elizabeth virou a primeira esquerda, avançando na rua de comércios com a cabeça abaixada e escondida pelo capuz do casaco. Os prédios eram praticamente grudados uns aos outros, oscilando em cores de tinta desbotada e gasta, com estruturas frágeis e que pareciam prestes a desmoronar a qualquer mínimo movimento. Apesar de cedo, comerciantes locais montavam suas barracas no meio da rua, indiferentes à possibilidade de estarem atrapalhando a passagem de carros.
No telão do prédio mais alto dali, um motel de quatro andares, a imagem dos Thunderblood passava no noticiário. Crianças se amontoavam ali, paradas com as cabeças erguidas e os olhos arregalados em admiração. Algumas ainda carregavam caixas pesadas que precisavam levar para algum comércio, mas, naquele momento, elas ainda lembravam o que era ter esperança. Elizabeth passou por elas como um fantasma, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.
Ela fez seu caminho através das barracas erguidas, afundando o queixo no peito ao sinal da chuva. Esbarrar em alguém era meramente um costume, enfiando a mão no bolso da pessoa e arrancando o que encontrava. Era sobrevivência, cordialidade para o inferno.
Uma mulher carregava uma caixa de maçãs, a tentação foi demais para Elizabeth continuar seu caminho sem apressar o passo e tropeçar, esbarrando na caixa. As maçãs rolaram no asfalto, o grito irritado da mulher foi alto, mas não alto o suficiente para quebrar as vozes altas e comandos que vinham de todos os lados.
– Sua i****a! – a mulher berrou, sua mão descendo com força na cabeça de Elizabeth que caiu no chão, o t**a a derrubando.
Elizabeth foi rápida em alcançar as maçãs, enfiando duas no bolso antes que a mulher visse. Murmurando um pedido de desculpas, ela manteve a cabeça baixa ao jogar as maçãs na caixa e voltar seu caminho, rápida o suficiente para fugir de outro ataque da mulher.
A chuva engrossou, os pingos devastando a feira que se erguia, porém as pessoas continuavam lá, suas rotinas miseráveis não podendo ser mudadas. Parecia que suas vidas foram moldadas e resumidas naquilo, por mais triste que fosse.
Cruzando uma rua, Elizabeth subiu a escada lateral de um prédio, se lançando contra o corrimão a tempo de fugir da onda de crianças que atravessaram correndo os degraus, braços magros e ossudos sustentando sacolas de pano pesadas. Seus rostos com olhos profundos e ossos visíveis passando como um borrão, mas que causavam familiaridade em Elizabeth.
Sentando-se no degrau molhado, Elizabeth curvou até encarar o reflexo de seus olhos na poça de água no degrau debaixo. Ela não era muito diferente das outras crianças do Beco, talvez um pouco mais magra por não receber comida como as outras que trabalhavam e recebiam como salário um pão seco e um copo de água. Seu cabelo é curto e cheio de falhas, a cor beirando a um castanho-escuro, mas devido ao barro tem a cor meio estranha que foi esfregada nele. A pele tem um tom desbotado de branco e meio doentio, os olhos castanhos encarando aquela aparência magra e triste.
Alcançando uma maçã no bolso, esfregou a fruta contra a parte da roupa limpa e levou a boca. Dando uma mordida, Elizabeth se permitiu descansar as costas na lateral da parede enquanto observava a rua de cima.
Nada ali era novo, tudo era pouco colorido e muito infeliz.
Elizabeth estava pensando em encontrar um lugar coberto para se esconder da chuva quando sons de tiros acertaram a vitrina de uma loja e o som foi o suficiente para quebrar a monotonia do Beco. Os estilhaços foram seguidos por gritos que despertaram a rua inteira em caos absoluto, pessoas correndo e alcançando o que seguiam, fugindo para um lugar seguro. Mas existia um lugar seguro no Beco?
Elizabeth está se levantando para subir até o terraço, largando a maçã no degrau quando as pessoas se lançaram para cima, correndo pelos degraus em sua direção. Uma mão alcançou seu ombro e pela primeira vez se sentiu vista, o homem que a segurou olhou diretamente em seus olhos antes de empurrá-la para trás. Seus pés tentam encostar nos degraus, mas é como voar, e por um segundo ela se lembra da história do menino que não queria crescer e tinha seus meninos perdidos. É ridículo, mas consegue ter uma breve paz entrando em seu coração antes que colidisse contra o chão.
A queda foi dolorosa, porém Elizabeth não sabe se foi pelos pés pisoteando e a esmagando ou a causa da dor foi o impacto dos degraus. De qualquer maneira, o suspiro de alívio que escapou de seus lábios a fez relaxar ao cair no asfalto, o rosto pressionando contra a rigidez molhada do chão.
A dor queima seu corpo, vibrando em seus ossos e alcançando cada centímetro possível. Parece uma doença, um veneno corroendo sua vida, e, por um segundo, Elizabeth pensa que sim, sim a vida acabaria ali e tudo bem. O gosto da maçã foi extinguido para dar espaço ao gosto rançoso e metálico do sangue, inundando seus dentes de um vermelho vibrante.
Mais à frente, liderando a confusão, um grupo se destacou dos moradores e comerciantes do Beco. Enquanto os conhecidos do Beco estavam ajoelhados, p****s nivelados no asfalto molhado, aquele grupo era bom. Apenas bom. Carregavam armas pequenas e nada assustadoras, estavam vestidos com roupas boas, pareciam saudáveis e falavam baixo e calmamente com cada um ali.
Por um instante delirante, Elizabeth pensou ver os Thunderblood e seu coração bateu acelerado contra seu peito ao ter esse pensamento.
Os disparos continuam e só então, caída ali e atormentada pela dor, Elizabeth percebe que o grupo não está atirando. Acima deles, no topo de um prédio de três andares, duas pessoas têm armas enormes – e aquelas trazem medo a Elizabeth –, eles disparam com tanta raiva e, no entanto, nenhuma alcança o grupo. É incrível, e Elizabeth não compreende como sendo que eles não são os Thunderblood e não há como fugirem de balas tão precisamente direcionadas a eles.
Ela não consegue focar neles, sua visão está embaçada e tudo que consegue ver é um borrão deles. O sangue desliza pelo seu ferimento na testa, acobertando seus olhos que se fecham rapidamente para impedir ter sangue nos olhos.
Os tiros cessam e o silêncio é assustador, Elizabeth ouve a chuva furiosa com o término daquela violência. E, então, o chão treme abaixo dela e o som das pedrinhas se chocando contra as poças de água fazem Elizabeth abrir os olhos a tempo de ver uma mulher, ela imagina que seja uma mulher, erguendo os braços. As pessoas em cima do prédio são arremessadas, voam em direção ao chão. E… Elizabeth acha tudo incrível. Aquele grupo poderiam ser os Thunderblood? Mesmo depois de ter perdido a esperança neles, seriam eles ali?
Piscando algumas vezes, Elizabeth assiste a uma pessoa se aproximando, sua visão borrada demais para conseguir distinguir se aquele poderia ser o Gavião Arqueiro ou só um homem qualquer. Se tivesse forças para se levantar, se a dor não fosse ofuscante e desnorteante, ela se levantaria dali ou faria o máximo para se afastar. Porém, não consegue.
Ela assiste com completo horror um desconhecido se aproximar, seguido por uma mulher, e então uma mão pesada em seu ombro.
– Ela está viva? – a voz é quase acobertada pelo som da chuva, mas Elizabeth é capaz de decifrar as palavras e sem dúvidas vem de uma voz feminina.
Lutando para continuar acordada, Elizabeth pisca os olhos, mas a cada tentativa a escuridão a rodeia com pontos pretos em sua vida. Ela se sente flutuando, rodeada por um calor que não sabe da onde vem, porém que é facilmente recebido.
Elizabeth desistiu de lutar para permanecer acordada, afundando na escuridão.
★★★
O cheiro doce alcançou suas narinas antes que Elizabeth pudesse processar que a dor não estava mais serpenteando seus ossos, e a sensação foi tão confortante que a próxima coisa que percebeu foi como se deixar relaxar permitiu que seu corpo afundasse. O chão não é macio e tão pouco aconchegante, Elizabeth precisou abrir os olhos para entender onde estava.
A luz era fraca e iluminava o ambiente, permitindo que Elizabeth ajustasse sua visão aos poucos até reconhecer as coisas ao seu redor. O som da televisão era baixo, impedindo que ela conseguisse decifrar as palavras que deslizavam pela saída de som e preenchiam o quarto. O cobertor que a cobria era azul, e a cor a assustou quando se deu conta do quão bonito o azul poderia ser. Nem se comparava ao céu que sempre fora nublado, porém que na televisão era tão vivo e bonito. E aqui, também era. Esse foi o primeiro indício de que estava no céu.
O segundo indício foi o homem sentado na poltrona ao lado da cama, o terno parecia nunca ter sido usado antes e a cor também não era apagada. Ele estava calmo, alheio a Elizabeth acordada na cama, assistindo a televisão com as mãos reunidas no colo. Elizabeth ficou impressionada, observando o homem e tendo certeza que aquele era… Era o dono do céu.
Ao invés de gritar, o que sempre achou que aconteceria quando acordava em um lugar desconhecido com um estranho ao seu lado, Elizabeth afundou mais nos travesseiros e alcançou o cobertor, analisando-o com interesse. Era um azul tão bonito, diferente de qualquer cor que já viu em toda a sua vida, e essa percepção a fez sorrir.
– Antigamente, eu adorava colecionar as figurinhas do Capitão. – O homem disse de repente, casualmente, como se Elizabeth e ele se conhecessem há anos. Ele ainda olhava para a televisão, quase como se soubesse que poderia assustá-la caso olhasse para ela. – Eu o admirava muito. – Ele colocou a mão no bolso do terno e tirou um pedaço de papel, estendeu a Elizabeth sem ainda a encarar, mas seu sorriso era visível. Elizabeth olhou com cautela, alcançando a figurinha e se sentando na cama. – Conheci o herói que mais admirava, isso me custou um preço. – Uma pequena mancha vermelha cobria a ponta da figurinha, havia uma assinatura e Elizabeth desejou poder saber ler agora. – Sabe qual foi o preço? – Elizabeth balançou a cabeça em negação, ainda olhando para a figurinha. – Querer ser que nem ele. – Ele a olhou, sorrindo, calmo e o brilho de admiração em seus olhos fez Elizabeth relaxar os ombros, a tensão fugindo de seu corpo.
– Você conheceu o Capitão. – Elizabeth compreendeu, surpresa e em seguida animada, no entanto olhou para os lados e se lembrou que ainda não sabia onde estava e quem era ele. Capitão não morreu, então ali não era o céu. – Onde estou?
– Está num lugar seguro. – assegurou com muita confiança, fazendo Elizabeth franzir as sobrancelhas.
Se lugares seguros sempre existiram, onde estiveram aquele tempo todo? Elizabeth queria saber, precisava saber. Lugares seguros não eram mera invenção de sua mente? Não eram rumores que corriam pela água suja do esgoto e se infiltravam nas ruas estreitas do Beco? Interessante, mas triste. Era o tipo de coisa que ela precisava ter descoberto antes, há anos atrás quando ainda havia fé, embora não soubesse em que exatamente.
– O que é um lugar seguro? – Pergunta e não entende o olhar entristecido que o homem recebe a pergunta, quase como se a dúvida de Elizabeth fosse lamentável.
– Você irá descobrir com o tempo. – Ele garante, oferecendo um sorriso que não tira a tristeza de seus olhos, mas sua tentativa é apreciada por Elizabeth que assente com a cabeça e olha em volta, procurando por uma explicação. – Por hora, que tal me dizer sobre você.
– E você? – Elizabeth questiona, olhando para ele com a cabeça levemente inclinada para o lado. Tantas perguntas, ela se sentia em um mundo novo como Wendy e seus irmãos se sentiram na primeira vez que visitaram a Terra do Nunca. Era um sentimento único, libertador e, ao mesmo tempo, assustador. Estar tão distante do Beco, livre do caos angustiante e sufocante que a acorrentava na desesperadora realidade que sua vida seria limitada aquilo. – Não sei absolutamente nada sobre você… Senhor. – acrescenta, encolhendo os ombros com a mera possibilidade de ser jogada fora com qualquer deslize que tivesse.
Inesperadamente, o homem sorri e parece muito calmo, como se achasse engraçado a atitude dela.
– Sou Philip Thompson, um agente da OSAEU. – Ele se apresenta e por alguma razão parece esperar que Elizabeth não entendesse. – Trabalho ajudando as pessoas…
– Como os Thunderblood? É assim que você conheceu o Capitão? – Ela se reprime rapidamente, empurrando a animação para o fundo mais seguro de sua mente. Sem erros, ela não pode voltar para o Beco.
– Sim, eu trabalhei com os Thunderblood por um tempo. – revela, se levantando da poltrona. – Você gosta dos Thunderblood?
– Todos gostam deles. – Elizabeth aponta a verdade que acredita ser mundialmente conhecida, porque, sinceramente, quem não gosta dos Thunderblood? Criminosos, é claro. Porém, como uma criança que perdeu a fé até em si mesma, ela apreciava uma verdade refletida na realidade c***l do Beco. Os criminosos vieram de lá? Por isso não gostam dos Thunderblood? Ela pensava que sim, por um tempo acreditou nisso, mas ainda gostava dos Thunderblood apesar de tudo.
– Qual o seu nome?
– Elizabeth. – Em algum momento, esse se tornou o seu nome, e embora houvesse variações inimagináveis para esse nome como Liz, Beth, Lizzie, Eliza e Eli, ela sempre imaginou que seu nome fosse Elizabeth. Alguém a nomeou assim, ela gostava de imaginar que fora sua mãe, que também a presenteou com a história do menino que não queria crescer já que essa era sua única memória. Um nome e uma história, foi assim que ela veio para o Beco.
– Quantos anos você tem, Elizabeth? – Thompson perguntou, gentilmente, se sentando na beirada da cama com as mãos reunidas no colo.
– Tenho doze anos. – respondeu, e em seguida acrescenta: – Mas não sei exatamente como sei disso, é um…
– Instinto? – Oferece em ajuda e Elizabeth não tem tanta certeza se é isso que procura para descrever, mas aceita.
– É, tipo isso.
– Você sabe há quanto tempo ficou naquele lugar?
– Os fogos de artifício comemoram meu aniversário todo ano, então fazem cinco anos desde que eu os assisto no Beco.
A única parte legal de seu aniversário é isso, todo ano fogos de artifício são lançados e, embora seja mesquinho de sua parte pensar assim, ela finge que são lançados em comemoração a mais um ano de sua vida. São tão bonitos, diferentes e altos que são capazes de acobertar qualquer som que vinha do Beco.
– Seu aniversário é no ano novo? – Thompson perguntou, surpreso.
– Bem, eu não sei. Talvez? Acho que sim.
– Certo. – Thompson apenas concorda. – Você está com fome? Sente alguma dor?
– Na verdade, me sinto muito bem. – confessa, porque a verdade é que quase não sente nenhuma parte de seu corpo e essa é a melhor sensação que já sentiu em toda a sua vida. Ela não pode deixar de sorrir com essa sensação, mexendo as mãos e sentindo-se uma espectadora, abrindo e fechando os dedos até que sorrir se tornasse doloroso. – Fome é difícil dizer.
– Por que?
– Sempre estou com fome… Ei, espera. – Elizabeth ainda vestia as mesmas roupas, embora estivessem mais limpas do que antes, com algumas manchas de barro que ela se preocupava que não saíssem. Enfiando a mão no bolso do casaco, voltou a sorrir ao achar a maçã que roubara mais cedo. – Aqui, quer um pedaço. – perguntou, ostentando a fruta com os cantos da boca erguida em um sorriso genuíno de felicidade.
– Não…
– Ah, que isso. Você me tirou de lá e… – Elizabeth encolheu novamente os ombros, sentindo-se pequena demais para o tamanho do quarto e para as roupas elegantes de Phillip Thompson. Não havia nada que pudesse fazer para agradecê-lo e, mesmo que ele a jogasse fora a qualquer momento, ela ainda gostaria de oferecer algo. – Eu não tenho nada para dar além disso. Não estou com tanta fome, fazem alguns dias e, honestamente, a cada dia fico melhor nisso.
– Nisso? – Phil perguntou com um olhar estranho, a testa franzida e a boca se contorcendo de uma forma engraçada que fez Elizabeth rir, acenando com a cabeça.
– É, ficar sem comer. O senhor não? Ah, você é daquelas pessoas que tem uma refeição por dia? – Elizabeth acena com a cabeça em compreensão, a julgar pelas roupas dele fazia sentido. – Não é muito fácil roubar comida, eu tive sorte hoje… Ou ontem? Não sei há quanto tempo eu dormi. Bem, comida é difícil de se conseguir a não ser que você queira trabalhar e sofrer. Embora sofrer seja o esperado, mas – Elizabeth dá de ombros e continua a estender a maçã. –, ei, é o Beco, né? – ri sem nenhum toque de humor em sua voz e Thompson só a encarou preocupado. – Por favor, aceite. – pediu, a voz saindo mais baixa do que o esperado.
Com relutância e novamente aquele olhar estranho, Thompson alcançou a maçã e a analisou.
– Você está com fome. – Phil simplesmente afirma, suspirando com pesar. – Irei buscar algo para você comer.
Ele se levantou da cama e caminhou para fora do quarto, Elizabeth sentiu o coração acelerar em puro terror ao imaginar Thompson cruzando aquela porta e a deixando para trás. Ele iria embora, a deixaria, e ela nem ao menos sabia o que aconteceria depois.
Empurrando a coberta para o lado, Elizabeth pulou para fora da cama e parou logo em seguida, sentindo-se nauseada ao ver dois Thompson virando para encara-la. O mundo dobrou-se ao meio diante de seus olhos e, ainda assim, Elizabeth se apoiou na parede para andar em direção a Thompson.
– Elizabeth, você precisa descansar. – Thompson falou, oferecendo a mão para ajudá-la quando Elizabeth cambaleou para frente.
Onde será que fica um lugar seguro? Ela se perguntou, olhando para o teto em busca de uma resposta. Em toda a sua vida, um lugar seguro foi refúgio debaixo de um caminhão, o topo de um prédio e qualquer lugar que oferecesse distância e segurança rápida. Agora, aquele lugar bonito com o homem bem vestido ofereciam lugar seguro.
– Eu morri? – indagou, essa possibilidade parecendo ainda muito provável. – Lugares seguros são encontrados após a morte, certo? Então aqui é o céu?
Thompson olhou para Elizabeth
– Por favor, não quero ficar aqui sozinha. – implorou, agarrando a mão de Phil que a manteve em pé quando o quarto girou e tudo se tornou desconcertante de encarar.
A porta do quarto abriu, duas portas talvez? Elizabeth não tinha certeza.
Uma mulher apareceu com a cabeça na fresta da porta, olhando para Elizabeth e Thompson ao sorrir, parecendo muito feliz em ter os encontrado. Seu cabelo é castanho e ondulado, não muito longo, e seus olhos castanhos podem estar brilhando ou Elizabeth está delirando. De qualquer maneira, ela é bonita e sorri mesmo quando seus olhos se estreitaram em preocupação ao olhar para Elizabeth.
– Ei, como você está, garota? – perguntou, empurrando a porta ao entrar no quarto.
– Tem duas de você. – Elizabeth falou, piscando perdida para as duas mulheres se agachando a sua frente. Ela reprimiu a vontade de recuar, imaginando que Thompson a abandonaria caso mostrasse medo com alguém que ele conhecia. Era difícil se manter em pé e evitar sentir medo, mas Elizabeth se esforça para conseguir continuar longe do Beco.
– É, você não está bem. – A mulher segurou a outra mão de Elizabeth com carinho, deixando ela se acostumar com a nova presença e toque. – Que tal comer alguma coisa e depois descansar, hein? O que acha?
– Não quero ficar sozinha…
– Você não vai sozinha, sou amiga de Thompson. – contou. – Que tal irmos até à cozinha com Thompson? Contanto que se segure, você acha que consegue andar?
– Consigo. – ela não tinha tanta certeza sobre isso, porém qualquer garantia que pudesse oferecer em troca de não ficar sozinha, ofereceria sem pensar duas vezes, por mais mentiroso que soasse.
– Ótimo, então vamos lá. – A mulher levantou, ainda segurando a mão de Elizabeth. – A propósito, me chamo Daisy.
– Elizabeth.
Sendo sustentada por Daisy e Thompson, Elizabeth obrigava sua visão a se estabelecer para conseguir contemplar cada belo detalhe do caminho em direção a cozinha. O corredor era de paredes brancas e curto, rapidamente levando a uma sala de estar com dois sofás bege e uma mesinha de centro espelhada.
– O que é aqui? – resolveu perguntar, ao olhar para uma janela e ver uma imensidão de azul que a fez querer se aproximar, porém considerou sua situação atual e concluiu que não conseguiria se manter de pé se soltasse as mãos de Daisy e Thompson.
– É um avião. – Thompson respondeu.
– Uau, eu não sabia que aviões eram tão grandes. – admitiu ao ver mais adiante uma escada que levava ao andar de cima. Mesmo com a visão desfocando e duplicando algumas vezes, Elizabeth apreciou muito o quão bonito e limpo era o lugar.
– Nem todos são assim. – Daisy revelou, soltando a mão de Elizabeth assim que chegaram na cozinha, sorrindo para ela ao colocar suas mãos na cintura de Elizabeth e a impulsionar para cima. Sentada na bancada, Elizabeth olhou atentamente para cada detalhe e não pôde deixar de ficar curiosa quanto as coisas tem a aparência de novas ali. – O que quer comer?
– Temos lasanha congelada, frutas, o sanduíche do Leonard. – Thompson falou, abrindo a geladeira e se inclinando para ver melhor. – O sanduíche do Leonard?
– Parece uma boa. – Daisy concordou, pegando uma banana e a oferecendo para Elizabeth que pegou, descascando com tanta rapidez que precisou respirar ao se lembrar que apreciar o gosto é melhor do que comer com pressa e não sentir nada. – Como se sente, Elizabeth?
– Bem. – responde rapidamente, pegando mais um pedaço da banana. – Se é um avião, então estão indo para algum lugar. Onde estão indo?
– Nova York. – Thompson respondeu, colocando o prato ao lado de Elizabeth na bancada, pegando a casca da banana para jogar fora quando Elizabeth terminou de comer.
Nova York... Elizabeth não sabia muito sobre Nova York além de que era uma cidade localizada na região nordeste dos Estados Unidos, informação pela qual ela tirou da televisão da vez em que se esgueirou pela escada de incêndio de um prédio e assistiu pela pequena janela lateral. Também era a cidade em que frequentemente os Thunderblood eram vistos, Elizabeth torcia para que o Beco fosse localizado em Nova York para que um dia fosse salva pelos heróis, no entanto nunca aconteceu.
– É um sanduíche de presunto cru, muçarela de búfala e molho pesto. – Phil informou, enchendo um copo de água e o dando para Elizabeth que deu um gole.
– É o sanduíche favorito de Leonard. – Daisy contou com divertimento, encostando na bancada ao lado de Elizabeth.
– Quem é Leonard? – perguntou, pegando o sanduíche e o analisando.
– Você vai o conhecer em breve.
Com muito cuidado, até demais para um sanduíche, Elizabeth abriu a boca e deu uma mordida que considerou boa para conseguir alcançar o presunto cru, a muçarela de búfala e o molho pesto. Os sabores explodem em cada canto da boca e derretem na língua, o molho pesto envolvendo perfeitamente o presunto cru junto a muçarela, o pão abraçando eles, e o gosto é tão maravilhoso que Elizabeth fecha os olhos e tomba a cabeça para trás.
– Bom, não é? – Daisy questionou, sua voz sendo influenciada pelo seu sorriso que Elizabeth percebe, ao abrir os olhos, que é capaz de transmitir a felicidade que por alguma razão ela está sentindo.
– Muito bom.
– Você não tem família, não é? – Daisy perguntou com cautela, mas Elizabeth está perdida demais no sabor para se importar, apenas balançando a cabeça em concordância ao dar mais uma mordida na sanduíche. – Então você pode se acostumar a isso, né? Ao menos, por um tempo até encontrarmos uma família para você. – a pergunta é direcionada a ela, mas Daisy encara com Thompson como se esperasse uma confirmação.
Engolindo rapidamente, Elizabeth olhou para Thompson que novamente tinha aquele sentimento estranho refletindo em seus olhos. Dessa vez, ela consegue interpretar e esse reconhecimento a faz alcançar o copo de água e dar um longo gole. Thompson a encarava com um carinho nunca antes direcionada a ela, o cuidado que ele e Daisy utilizaram para ajudá-la e agora estarem esperando por uma resposta.
– Vocês não vão me jogar fora? – Finalmente a dúvida de Elizabeth é verbalmente dita, e o olhar assustado de Daisy combina com os olhos arregalados de Thompson. – Eu não quero parecer rude, eu sinto muito. Só pensei que isso não duraria muito, sabe? Talvez amanhã vocês queiram me jogar em algum canto e é compreensível, porque não dá para me manter num avião desse tamanho. Vocês tem trabalho, imagino, e…
– Elizabeth, jogar fora? – Daisy parece perplexa, olhando para Elizabeth com os olhos castanhos arregalados. – Nunca faríamos isso.
– Oh. – Elizabeth sussurrou, surpresa. – Então… Eu ficarei aqui até acharem alguém para mim?
– Você é só uma criança, precisa de um lar. – Thompson diz, a voz suave e calma, fazendo Elizabeth apenas acenar com a cabeça em compreensão de que ninguém iria a jogar fora, não de novo. – Coma. – sugeriu, se apoiando na bancada da pia.
Elizabeth voltou a comer, constantemente reprimindo o sorriso que insistia em aparecer ao perceber que realmente estava livre do Beco, não haveria voltas e só memórias. Ela finalmente estava longe das garras do Beco, e não foram os Thunderblood que a salvaram.
Elizabeth fantasiou o momento em que se veria livre do Beco, a esperança, embora fraca e quase inexistente dentro dela, ainda brilhava apesar de tudo. No entanto, ela jamais imaginou que seria assim. A verdade é que quando ainda alimentava o sonho de ser salva, ela imaginava que seria pelos heróis, os Thunderblood, mas jamais pensou que seria salva por um agente da OSAEU, o que, na verdade, ela nem sabia o que significava. Sentindo-se verdadeiramente feliz, Elizabeth sorriu, a felicidade queimando dentro dela com uma nova sensação que ela achou que não poderia ser capaz de ter novamente.
Cedendo a felicidade, ela sorriu.