Mason Rehsyas não gostava da OSAEU por vários fatores, mas, em especial, ele odiava não saber quem andava pelos corredores do complexo como se fosse um maldito fantasma.
A princípio, ele pensou que estava alucinando e provavelmente precisava se alimentar melhor. Que o casaco preto que ele via como uma capa era só parte de sua imaginação, fazia mais sentido pensar isso do que acreditar que uma pessoa era capaz de estar parada no corredor e em um piscar de olhos desaparecer sem deixar vestígios.
No entanto, essa teoria foi desconsiderada quando ouviu falar da Agente Fantasma, uma pessoa capaz de ocultar cada movimento que faz com alguma força que ninguém é capaz de explicar.
Essa agente fantasma tem sido o verdadeiro pesadelo de Mason nos últimos dias que esteve no complexo, se sentindo um i****a a procura de uma coisa que parece nunca ter estado lá.
Sem nome.
Sem rosto.
Os agentes afirmaram não saber quem era a agente fantasma, porém, os únicos que ao menos viram seu rosto eram os agentes da equipe de Phillip Thompson. Todos residem no décimo andar, até mesmo a agente fantasma.
Mason se sentiu t**o ao apertar o botão do décimo andar, encostando as costas na parede de metal ao esperar o elevador chegar no andar desejado. Ele não sabia realmente se alguma coisa ia mudar quando descobrisse a identidade da fantasma que assombra os corredores da OSAEU, entretanto ele podia culpar sua curiosidade com o tédio que sentia ao ter que ficar andando sem rumo pelo complexo.
As portas se abriram no sétimo andar e alguns agentes entraram, com eles, Daisy Jones entrou e sorriu assim que viu Mason.
– E aí, Mason. – Daisy parou ao lado dele, sorrindo. – Faz tempo que eu não te vejo.
Daisy parecia preocupada quando percebeu o número do décimo andar já pressionada, afinal, ninguém além da equipe de Phillip Thompson morava naquele andar. Havia boatos que diziam que foi um presente de Nicolas Farleya excelente equipe de Thompson e o próprio Thompson, um presente muito caro. Deveria existir mais de dez quartos e duas cozinhas, uma sala de treinamento e um elevador exclusivo que os levava direto para o estacionamento.
Mason não sabia quem compunha a equipe de Thompson, ao menos, não conhecia todos os integrantes. Ele tinha uma vaga lembrança de ouvir o nome de Melinda Jay, mas nunca a viu pessoalmente. E também ouviu falar de dois cientistas, eles realmente eram próximos do fantasma, Mason só teve a oportunidade de quase ver o rosto coberto por que a agente fantasma acompanhava os dois cientistas.
– Você estava me procurando? – Daisy perguntou, de repente, virando-se para encarar Mason.
– Por que?
Daisy apontou o dedo para o painel, com as sobrancelhas franzidas em dúvida.
– Você está indo para o meu andar.
– Você mora nesse andar? – Mason indagou, surpreso, incapaz de acreditar que suas dúvidas poderiam ser esclarecidas tão rapidamente. Daisy, sua única amiga desde que chegou ao complexo, era simplesmente integrante da equipe de Phillip Thompson. Mason não acreditou que foi i****a por não ter percebido antes.
– Claro que moro. – Daisy respondeu.
As portas foram abertas assim que chegaram ao décimo andar e Daisy gesticulou para que Mason a seguisse, ele ficou feliz em fazer isso.
Na entrada, a sala de estar era composta por dois sofás, um sofá bege de quatro lugares e o outro azul-marinho com três lugares, e uma poltrona onde havia uma jaqueta jogada no braço. Mason reconheceu de imediato o símbolo prateado bordado nas costas da jaqueta.
– Elizabeth como sempre deixando as coisas jogado por aí. – Daisy falou com pesar, dobrando a jaqueta e a jogando no sofá de bege, se sentando na poltrona. – Então, o que você queria fazer aqui?
★★★
A sala de arquivos era um cubículo no sétimo andar, com altas gavetas que alcançam o teto, cada uma contendo um painel de segurança para colocar a senha ou pressionar a digital para liberar os arquivos guardados ali dentro. Uma mesa redonda foi relocada para o meio da sala, permitindo que houvesse espaço o suficiente para que cada gaveta pudesse ser aberta sem maiores problemas. A máquina de café foi a única coisa que Elizabeth trouxe para lá, junto a sua caneca de heróis em quadrinhos, e, apesar de não receber muitas visitas, outra caneca com a mesma temática ficava ao lado da máquina.
Cansada de estudar casos antigos, Elizabeth suspirou e girou na cadeira, os pés para o ar enquanto as pernas estão por cima do braço da cadeira. Tirou o celular do bolso com a intenção de perder o tédio, checando as notícias mais recentes desde a manhã anterior. Sua caixa de mensagem nunca esteve tão cheia, contendo as mais inúmeras mensagens desde Maria Hill pedindo que terminasse o maldito relatório de uma missão já completa – apenas para testar a qualidade dos relatórios de Elizabeth –, até mensagens de Jemma Simmons e Leonard Fox implorando para contar o que ocorrera na semana passada quando Anthony Starkingingapareceu em seu quarto.
Ignorando todas as mensagens, entrou nas matérias mais comentadas apenas para encontrar Derek Rehsyas perdendo mais um processo. Fazia tempo que ele enfrentava processos por causa de seus negócios ilegais, entre eles, o uso de informações confidenciais, roubo e assassinato. Era bizarro como a cada semana os crimes dele iam aumentando, e o mais bizarro era o esforço dele em querer incriminar seu filho, Mason, um jovem de dezessete anos.
A verdade é que até pouco tempo ninguém fazia ideia da existência de Mason Rehsyas, o garoto foi um verdadeiro fantasma durante anos. Elizabeth sentiria inveja de sua quase inexistência se ele não estivesse tão visível quanto agora que a maioria das matérias tem seu rosto estampado nelas, mais exposto do que nunca.
Um leve clique e a maçaneta é girada, a porta é aberta apenas para revelar Phillip Thompson acompanhado de Nick Farley. Elizabeth girou a cadeira para ficar de frente para eles, olhando de um para o outro à espera da repentina presença. Aquela sala havia praticamente virado dela, ninguém entrava lá devido ao acesso limitado, e também os que tinham acesso não pareciam muito animados em revisitar casos passados. De qualquer maneira, Elizabeth estava satisfeita em ter a sala para si.
– Você ao menos usou a porta dessa vez. – Farley percebeu, olhando para cima e notando a saída de ar fechada pelos parafusos. – Começava a pensar que tínhamos um verdadeiro fantasma vagando pelas tubulações de ar.
– Não tenha tanta certeza sobre isso. – Elizabeth recebeu um olhar crítico de Nick Farley, quase como se ele tivesse descoberto sobre sua aventura nas tubulações na semana passada. Pensando melhor, ele provavelmente sabe e esse mero pensamento é o suficiente para fazer Elizabeth empurrar as pernas para baixo, corrigindo sua postura. – Algum motivo especial para estarmos fazendo uma festa? Não o vejo há algumas semanas, Farley.
É claro que isso era culpa de Elizabeth, que sempre recuava com seu silêncio quando via Farley no corredor ao lado, fugindo incontáveis vezes dele. Mas ela não admitiria em voz alta. De forma alguma. Ela gostava de ignorá-lo para evitar falar sobre ir para a Caixa de Areia, uma parte da organização da OSAEU que ela preferia ignorar.
– Starking falou com você sobre a proposta dele, imagino. – Nicolas Farleydisse, seu tom sério o suficiente para Elizabeth segurar o sarcasmo que queimava sua língua. Thompson estava parado perto da porta, seu olhar calmo não ajudando em nada para diminuir as suspeitas de Elizabeth sobre o caminho que aquela conversa seguiria. – Ele me ligou hoje e avisou que o prazo era ontem, e você não deu nem sinal.
Elizabeth assistiu Farley ligar a máquina de café e por segundos que pareceram horas, eles apenas ficaram em silêncio ouvindo a caneca ser preenchida pelo café. Ela não gostava de compartilhá-la, era uma coisa dela e que normalmente abria exceções para Thompson, mas não ofereceu sua opinião em voz alta. Embora seu sarcasmo e sua falta de comunicação com outras pessoas além da equipe de Thompson, Elizabeth era bastante pacífica quando encontrava Nick Farley.
– Você quer me dizer a razão de ter ignorado Starking? – perguntou, se apoiando na beirada da mesa, em frente a Elizabeth. Ele a analisava, parecendo identificar cada opinião contida que ela tinha.
– Não gosto de trabalhar em equipe. – Não era totalmente mentira, mas não era totalmente a verdade.
– Pensei que já tivéssemos conversado sobre isso, Elizabeth. – Nicolas Farleyfalou, dando um gole no café antes de deixar a caneca ao seu lado. – Você terá que fazer parte de uma equipe em algum momento, independente de sua opinião. Em alguns meses, você vai completar dezesseis anos e terá dois anos para escolher uma parte da organização para se familiarizar. A Caixa de Areia é a que mais se encaixa com você, mas antes você precisará fazer parte da academia da OSAEU, se especializar em determinada área. E, no entanto, nem isso você quer. – Elizabeth sabia que ele estava certo, ela precisava saber o que faria da vida, não era mais uma criança perdida vagando pelo complexo da OSAEU. – Então, me diga, o que você quer fazer, Elizabeth? Porque nós dois sabemos que você terá que escolher ou será mandada para a área que eu achar melhor.
– E se não concordar? – as palavras correram de sua boca, muito baixas e calmas para a aspereza que pareceram acertar Nick Farley.
– Elizabeth. – Thompson avisou.
– Quando Thompson te trouxe aqui, você tinha uns doze anos e era uma minúscula comparada aos agentes daqui. Eu sabia que seria um erro deixar que ele te criasse nesse ambiente, mas concordei de qualquer maneira. – Apesar de toda a situação, Farley aparentava estar indiferente, como se já tivesse uma decisão preparada. – E, com o passar dos anos, você foi se encaixando nesse complexo e mostrando interesses particulares como seus estudos sobre os Thunderblood. Há também seu conhecimento sobre cálculo que a cada dia se torna mais vasto, e, é claro, seu claro problema com armas de fogo.
Elizabeth engoliu em seco com a citação sobre sua ineficácia com tal habilidade, enfiando as mãos nos bolsos para contê-las antes que começassem a tremer.
– Você tem potencial, eu e Thompson sabemos disso, mas aqui – ele direcionou suas mãos para a pequena sala de arquivos. –, está te limitando. E eu não quero um peso morto em meu complexo, de forma alguma.
Ela sabia o que estava por vir, era tão nítido no olhar repentinamente ferido de Thompson. Era como ser arrancada de seu conforto e jogada num mundo diferente, embora fosse só uma apresentação dramatizada dos fatos. Culpe os filmes dos anos 90 que ela assistia, mas era melhor fingir que Farley estava prestes a dizer seria o fim do mundo ao invés de pensar no lado positivo – se é que havia um lado positivo.
– Então, com isso, tomei a decisão por você. – Farley revelou, o estômago de Elizabeth.
– Eu vou trabalhar com Tony Starking.
– Andou bisbilhotando de novo? – Thompson acusou.
– Não, claro que não! – Se defendeu, porque era verdade. – Qual é? Olha o discurso de Farley, é óbvio que vou trabalhar com ele.
– Não é tão r**m quanto parece. – Thompson disse suavemente, oferecendo a Elizabeth que um sentimento que poderia ser comparada a segurança, mas Elizabeth não confiou o suficiente para acreditar.
Ela não gostava de pensar no que aconteceria caso o projeto de Anthony Starkingingdesse certo, quais seriam as consequências de achar que pode controlar as pessoas como se fossem peças de xadrez. Não é o tipo que soa certo nem que poderá dar certo, porém com o dinheiro e boas palavras, Elizabeth entendia como Starking conseguiu convencer Nicolas Farleydaquela loucura.
No entanto, Elizabeth tinha escutado a reunião deles e lembrava de ter ouvido Farley negar, então, de repente, ele mudou de opinião. Não foi uma fala impensada, Starking conseguiu encontrar alguma coisa que era de total interesse de Farley, que o fez aceitar a proposta sem pensar na opinião de Elizabeth.
Ela não estava surpresa com isso, talvez decepcionada. Mas definitivamente não estava surpresa, poderia até esperar por isso.
– Você não será envolvida diretamente no projeto. – Farley continuou, alheio ao olhar intenso que Elizabeth direcionava para o gaveteiro mais alto. – Seu nome não estará lá a não ser que você queira. E você não vai trabalhar de graça, receberá uma quantia considerável todo o mês. E, ao finalizar o projeto, você poderá trabalhar como estagiária nas indústrias Starking.
– Você só pode estar brincando! – Elizabeth girou na cadeira, voltando-se completamente para Nick Farley. – E o meu estágio no complexo? Você disse que eu poderia ter minha primeira missão oficial quando eu completasse dezoito anos! – Elizabeth apontou o dedo de modo acusador, a raiva correndo por suas veias através da onda gélida. O frio, a princípio, não é doloroso como sempre foi e talvez tenha sido isso que fez Elizabeth não se preocupar. – Você me prometeu!
Nicolas Farleya encarou seriamente, era nítido o esforço que fazia para não aumentar o tom de voz quando respondeu:
– E como você faria isso? Com facas? Elizabeth, você m*l consegue segurar uma arma como poderia ser capaz de ir para uma missão com apenas facas?
Elizabeth respirou com dificuldade, observando o ar se condensar diante de seus olhos. A temperatura abaixou drasticamente para o bem de todos naquela sala, no entanto, Elizabeth preferiu colocar a culpa no ar-condicionado, embora ele estivesse quebrado há meses.
A verdade é que ela não estaria com tanta raiva se Farley não tivesse sido contra toda essa situação antes, e agora, de repente, sua opinião mudou drasticamente por alguma razão em especial que ele prefere manter em segredo. E também Phillip Thompson não está ajudando com sua culpa inexplicável que beira seus olhos, fazendo com que Elizabeth se questione quais são as reais razões para eles deixarem ela e Starking trabalharem juntos.
Ela não odeia Tony Starking, só que suas motivações são no mínimo questionáveis e Elizabeth não gosta das coisas que ele pode fazer com um programa desse em mãos. Ele é a mesma pessoa que acha que pode colocar uma armadura em volta da Terra e dizer que está protegendo as pessoas que ali vivem.
– Por muito tempo, deixei você viver nessa realidade onde sua falta de habilidade podia ser apagada com sua inteligência. – Farley se aproximou, muito mais alto que Elizabeth, mesmo que ela sentada ou não mudaria absolutamente nada de estivesse em pé. Ela se sentiu pequena, incapaz de se mover ao se dar conta da verdade nas palavras de Nick Farley. – Pensei que você iria amadurecer seu pensamento conforme crescesse, mas você continuou com esse sonho de que conseguiria ser uma agente apesar de tudo.
– Farley… – Thompson tentou interromper, finalmente percebendo o quão duro as palavras de Farley soavam para alguém como Elizabeth, que alimentou-se da possibilidade de ser uma agente e poder finalmente compensar todos que fizeram parte da sua salvação. Ter saído do Beco foi graças a Thompson e ela sabia que não seria possível recompensá-lo nem se desse todo o dinheiro do mundo a ele.
– Você foi o culpado disso! – Nicolas Farleyvirou para encarar Phillip Thompson, acusando-o. – Ela poderia ser mais útil nos laboratórios da Caixa de Areia do que em campo.
– Ela já entendeu. – Thompson apontou, suavemente, olhando gentilmente para Elizabeth que não registrou o momento em que se encolheu na cadeira giratória. – Ela já entendeu. – repetiu, mais firmemente dessa vez.
Farley lançou um rápido olhar a Elizabeth, verificando-a antes de suspirar e sair da sala sem dizer mais uma única palavra.
– Respire. – Thompson pediu, calmamente, parando em frente a Elizabeth. – Vamos lá, me acompanhe. – Phil agachou na frente dela, observando as mãos de Elizabeth tremerem ao segurarem os braços da cadeira.
Apesar do intenso frio, Thompson não demonstrou incômodo mesmo quando estava visivelmente tremendo.
Por alguns minutos, Elizabeth e Thompson somente respiravam, Elizabeth tendo que acompanhá-lo ao perceber que m*l se lembrava de puxar o ar. Ela não acreditava que havia deixado-se enganar pelas promessas boas demais de Farley sobre um futuro onde sua incapacidade não seria um problema. É claro que era. Que agente poderia ser sem uma arma? Seus poderes poderiam m***r seus colegas de equipe. Ela jamais seria uma boa agente, não importa o quanto aquela verdade doesse.
– Me desculpa. – Elizabeth sussurrou assim que sentiu que suas palavras saíram confiantes, mas soaram frágeis.
– Não tem com o que se desculpar. – Thompson garantiu. – Prometo a você que não será tão r**m. É uma oportunidade incrível.
– Tudo vai mudar. – Elizabeth percebeu, caindo para trás no encosto da cadeira. – Não vou ser uma agente. Vou ter que mudar do décimo para andar para… Eu vou ter que ir para o complexo dos Thunderblood? – Essa perspectiva a fez arregalar os olhos.
– Talvez. Provavelmente sim.
Elizabeth desviou os olhos de Thompson para os arredores da sala de arquivos, registrando cada detalhe como se temesse esquecer. Aquele lugar por muito tempo foi considerado seu, aquele complexo foi sua casa e a equipe que tanto sonhou em fazer parte foi sua família, apesar de nunca ter sido capaz de admitir. E, agora, sua vida está fadada a trabalhar em um possível laboratório onde não terá nada para fazer além de resolver cálculos.
– Ei, olhe para mim. – Phil pediu, enfiando a mão dentro do terno. – Serão somente alguns meses, eu prometo. E, quando tudo terminar, farei de tudo para Farley aceitar o fato de que você será a melhor agente deste complexo, combinado? – Ele tirou de dentro do bolso interno do terno uma caixa de veludo preta.
Elizabeth pegou a caixa, sentindo os olhos de Thompson seguirem cada movimento seu ao puxar a tampa e olhar para dentro.
Dentro da caixa, uma faca de cabo de madeira com as iniciais E.C. cravadas na madeira. A lâmina era afiada o suficiente para Elizabeth passar o dedo superficialmente por cima e o resultado ser um corte preciso e limpo, perfeito para alguém que tem as mãos leves como ela.
– Eu ia dar no seu aniversário, mas faltam alguns meses ainda, então… Tente não m***r ninguém, ok? – Thompson sorriu para Elizabeth.
– Farei o meu melhor. – era uma promessa vazia, porém Elizabeth sorriu e guardou a faca de volta na caixa.