Elizabeth, embora se considerasse uma pessoa realista, imaginou uma realidade onde teria uma vida normal, com uma família particularmente comum, sem nada com que se preocupar além das suas notas escolares e romances bobos na adolescência. É como um sonho de uma noite de verão, onde poderia ter férias, amigos e poucos traumas. Não era pedir muito, imaginou ela, porém, aparentemente, esse era um sonho para outra vida.
Para alguém que cresceu no Beco, Elizabeth reconhecia o fato de não ser mais capaz de ter uma noite sem pesadelos. A longa lista de traumas que colecionou no Beco, voltavam para assombrá-la todas as noites, com sussurros de vozes bêbadas e passos cambaleantes que tentavam a alcançar.
Ela nunca expressou esse sonho em voz alta, parecia o tipo de coisa que poderia se esperar de qualquer pessoa – o sonho de ser feliz –, porém, para ela, a agente fantasma, soava quase infantil. Thompson não fazia ideia, Elizabeth gostava de fazê-lo pensar que ela gostava da vida que levaria caso seguisse para um laboratório, onde passaria dez horas de seu dia sentada em frente a uma cadeira com nada além de cálculos para resolver. É uma vida muito melhor do que esperava ter no Beco, então se contentou com isso ao perceber que seria exatamente o que teria quando Farley deixou claro que ela nunca se tornaria uma agente..
– Você precisa de mais roupas? – Farley perguntou, quebrando o pesado silêncio que se alastrou assim que Mason os deixou no elevador, com a desculpa de que precisava resolver algumas coisas.
– Não.
Farley a olhou, desconfiado a julgar pela maneira que seus olhos ficaram por mais tempo do que o necessário na mochila que Elizabeth levava nas costas.
– Vão ser longos meses. – Farley continuou, com um pesado suspiro. Elizabeth não respondeu. – Pegue. – disse, oferecendo um grosso envelope a Elizabeth, que olhou pelo canto de olho antes de pegar e enfiá-lo no bolso da jaqueta. – Você ao menos não poderia hesitar.
– Não sou i****a. – Elizabeth o seguiu pelo estacionamento, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta, seu silêncio amargurado sendo o karma de Nick Farley, que parecia pessoalmente frustrado.
– Sabe, eu sei que você está com raiva pelo o que eu falei, mas é bom que eu diga isso agora. – Nicolas Farleyfalou, estranhamente seu tom de voz saiu gentil e sua mão pousou no ombro de Elizabeth, a fazendo parar de andar antes de chegarem ao jatinho que os esperava. – Uma agente que não consegue machucar as pessoas, levará sua equipe à morte. Você usa facas porque sabe exatamente onde atingir para não m***r, o que é péssimo. As pessoas vão aceitá-la para m***r, você iria morrer em sua primeira missão.
– Nem tudo se resume a m***r pessoas, Farley.
– Talvez, mas eventualmente essa sua dificuldade se tornará um obstáculo que a levará à morte. – Elizabeth mexeu o ombro, afastando a mão de Farley. Ela tendia a ter problemas com toque físico, sua mente traidora a levando para os momentos mais assustadores que passou no Beco. Não era sua culpa, ela sabia disso, porém Nicolas Farleyinterpretou esse afastamento como um ato de rebeldia e acabou por suspirar, cansado. – Você ainda é uma adolescente, pode encontrar coisas novas, acabar se formando em uma faculdade e ficar longe dessa vida.
O problema é que Elizabeth se sentia em dívida com Phillip Thompson e a OSAEU, então, ao menos nessa vida, ela seria incapaz de fazer uma faculdade. Ela precisava lutar pela OSAEU, orgulha-los ao mostrar que salva-lá valeu a pena, que ela valia alguma coisa. Era mais uma necessidade desesperada do que pensava, um objeto de vida para orgulhar aqueles que a ajudaram, sem se importar com os próprios desejos.
– Você está com facas, não é? – Farley perguntou, e antes que Elizabeth pudesse responder, ele falou: – Me de todas, você não precisa de facas no complexo dos Thunderblood.
– Não. – Elizabeth recuou um passo, olhando com raiva para Nicolas Farleycomo se ele fosse louco.
– Elizabeth, estou tentando te proteger. O problema aqui não é só sua dificuldade com armas. – Ela sabia do que ele estava falando e isso a assustou. Ele poderia querer ter aquela conversa agora, não depois de tanto tempo.
– Farley…
– Sua condição especial a torna perigosa, logo você não poderia trabalhar com uma equipe. Me diga, Elizabeth, como isso funcionaria?
Em silêncio, quase mortificada pelo banho de água fria que recebeu, Elizabeth tirou faca por faca de seus respectivos esconderijos.
Primeiro, dobrou os joelhos e alcançou as facas enfiadas nos canos das botas. As lâminas estavam cravadas nas solas, tornando humilhante para Elizabeth enganchar os dedos nos cabos e puxá-los com força. Ela jogou as facas no chão, aos pés de Farley.
As próximas facas foram retiradas dos bolsos internos nas mangas da jaqueta, deslizando para fora com facilidade. Elizabeth as jogou para as outras facas. E, em seguida, tirou as duas facas que guardava na cintura e arremessou na pilha de facas no chão.
– Com que finalidade você estava levando tantas facas? – Farley indagou, olhando para a pilha de facas.
– Um churrasco, talvez. – Elizabeth respondeu, o sarcasmo amargo envolvendo suas palavras. Ela ajeitou as alças da mochila e piscou um olho para Farley. – Vejo você daqui a uns meses.
Elizabeth contornou Farley e a pilha de facas, e seguiu para o jatinho que a esperava. Honestamente, ela não teria problemas em pegar um simples avião, como pessoas normais faziam, no entanto, Anthony Starkingingse mostrou disposto a disponibilizar um jatinho particular para que não houvesse atrasos.
– Você deve ser Elizabeth. – Um homem de terno falou, esperando ao lado da escada que levava para o interior do jatinho. – Sou Happy, Tony pediu para eu acompanhá-la até o complexo dos Thunderblood.
– Ah, isso é ótimo. – Não era, mas Elizabeth forçou a boca a se mexer até que se formasse um sorriso.
– Sua mala onde está? – Happy perguntou, olhando para trás como se encontrar uma pilha de malas.
– É só isso e fica comigo, mas eu agradeço. – Elizabeth seguiu pelas escadas, segurando com força a mochila antes de sentar-se em uma das poltronas da cor creme. Céus, era confortável. Ela dormiria se sua cabeça não estivesse pensando em tantas coisas diferentes.
Happy entrou no jatinho, olhando para Elizabeth com uma dúvida em seus olhos que fez Elizabeth o encara-lo da mesma maneira, mas seus olhos refletiam mais a confusão que sentia pela maneira que o homem parou na porta. Happy estreitou os olhos, em dúvida, quase como se quisesse lembrar de alguma coisa.
– Eu te conheço? – Enfim, Happy perguntou. – Você me lembra alguém, só não consigo lembrar quem.
– Bem, algumas pessoas dizem que pareço a Angelina Jolie. – brincou, porque ninguém disse isso. Aquela mulher era bonita demais para a compararem com Elizabeth. Happy, no entanto, levou a sério.
– Não, não é ela. – Happy continuou parado, esforçando-se para lembrar a semelhança que Elizabeth compartilhava com alguém. – Que estranho, deixa pra lá.
– Ok. – Apesar disso, Elizabeth ergueu uma sobrancelha em puro ato de ironia, somente para ver em seguida o rosto de Happy iluminar-se em um estado estupor que a faz erguer ambas as sobrancelhas e isso só fez com que o estado de Happy piorasse. – Você acabou de ter aquelas cenas de filme onde o personagem vê o universo inteiro em segundos? Porque se teve, eu recomendo um psicólogo. Você pode ter uma parada cardíaca com isso.
Elizabeth queria apenas quebrar o clima constrangedor que se estabeleceu quando Happy ficou parado, ali, igual a uma estátua que a qualquer momento quebraria com o menor movimento. Era um pouco assustador e ela não sabia dizer se era por conta dos olhos abertamente arregalados de Happy ou se era o quão terrivelmente imovel ele estava.
– O senhor está bem? – Resolveu perguntar, abandonando a mochila em cima da poltrona. – Você parece pálido.
Happy piscou e a surpresa dissolveu o estado de choque.
– Meu deus, por um segundo eu pensei…
– Angelina Jolie, não é? Eu sei, as pessoas confundem ás vezes. – Elizabeth falou, recorrendo ao sarcasmo para quebrar a estranheza que aconteceu ali. – Só não conta pra ninguém, ok? Não quero pessoas pedindo autógrafos ou coisas do tipo.
– Céus, você é igualzinha a Tony! Parece filha dele. – Happy finalmente comentou, rindo como se a possibilidade fosse absurda demais para ser levada a sério. – Imagine só, uma segunda versão dele só que adolescente? Nossa, me dá até calafrios. – Happy comentou, bem-humorado, antes de subir a escada e fechar a porta. – Eu vou lá para frente, na cabine, qualquer coisa é só chamar.
Elizabeth, apesar do tom humorado de Happy, ficou quieta por muito tempo pensando nas palavras do homem. Ninguém nunca havia a comparado com Tony Starking, na verdade, uma vez Daisy Jones fez um comentário semelhante e foi repreendida severamente por Nick Farley. O episódio na época passou em branco por Elizabeth, que não levou a sério. Era só uma brincadeira no fim das contas e dessa vez também foi. Ela suspirou, sentindo-se i****a por levar a sério algo tão bobo.
★★★
Elizabeth não gostava de dormir, era uma coisa pessoal sua e normalmente o sono dificilmente era calmo, então, ficou surpresa por ter adormecido na poltrona do jatinho. Não era sua intenção, em um segundo estava tentando solucionar um problema que Simmons havia lhe mandado pelo email e no outro estava adormecendo com o peso enorme que deitou-se sob suas pálpebras.
O céu escuro e acobertado pela fumaça fez Elizabeth reconhecer aquela parte do Beco em que estava, lembrando-se com detalhes assustadores os momentos que viveu ali, no topo do prédio de uma casa de prazeres, que dava acesso ao telhado através de uma escada de incêndio na lateral do prédio. Para uma criança de nove anos, os gritos que vinham dos cômodos do prédio eram, no mínimo, assustadores. As noites passavam devagar conforme Elizabeth prestava atenção, encolhida do lado da caixa de água com o casaco surrado e sujo de barro estirado sob seus ombros para imitar um cobertor. O chão, molhado pela chuva, não era confortável, mas era melhor que o barro molhado do estacionamento.
Ela não se mexeu quando ouviu passos pesados e descompassados subirem pelos degraus da escada, nem ao menos ousou respirar no instante que percebeu que era um homem que subia. Na verdade, ela ficou parada não porque queria, mas porque esqueceu-se como movia parte de seu corpo. O medo a devastou dos pés a cabeça assim que percebeu que não poderia fugir, não quando o homem parou no topo das escadas, o único lugar que dava para acesso para sair do telhado.
Ele assobiou, encontrando Elizabeth encolhida no meio da escuridão.
– Olá, docinho. – Sua voz era enjoativa e o cheiro que álcool o acompanhava. – O que você está fazendo aqui sozinha? – Elizabeth imaginou que se ficasse parada, talvez o homem a deixasse pensando que estava morta. No entanto, ela descobriu mais tarde que não fazia diferença para os homens se ela estava ou não morta, isso não interferia em nada em suas intenções. – Está com frio? Eu posso aquecê-la.
O homem andou até ela como um lobo rodeando a sua presa, a violência atravessando seus olhos que dilataram com a percepção de ter o que lhe foi negado na casa de prazeres por não ter dinheiro. Elizabeth viu na escuridão um sorriso com dentes amarelos direcionados a ela, e só então ela finalmente percebeu o que aconteceria ali.
Foi naquele momento que percebeu que, se não se mexesse, sua vida, que nunca teve um sentido, não faria realmente nenhum sentido. Ela não seria capaz de sustentar uma vida dessa por muito tempo, não poderia se olhar no reflexo da água e ver seus escuros olhos cheios de lágrimas por uma noite perdida em dores e lágrimas.
Seus olhos correram para o caco de vidro ao seu lado, aquele que achou junto a uma garrafa estilhaçada perto das escadas antes de subir. Ela o agarrou com força, alheia a dor que envolveu a palma de sua mão cortada.
– Você está respirando, docinho? – O homem perguntou, pouco preocupado, colocando a mão pesada em cima do ombro de Elizabeth.
Elizabeth segurou o casaco com uma mão e com a outra afundou o caco onde sabia que seria letal, onde sentia seu coração bater todas as noites que pressionava os dedos contra o pescoço. Ela sabia que um ferimento daqueles levaria a morte, sua intenção era exatamente essa quando cravou o caco de vidro no pescoço do homem, o ato foi rápido que m*l registrou quando se levantou e segurou o casaco com mais força contra o corpo.
O homem abriu a boca para falar, mas sufocou-se com a dor ao pressionar as mãos no ferimento, o sangue deslizando pelos seus dedos. Elizabeth cambaleou para trás, os olhos arregalados para o homem caído de joelhos, o sorriso malicioso dissolveu-se para uma careta de puro horror, o choque em seus olhos foi o suficiente para Elizabeth, que correu o mais rápido que podia.
Elizabeth ficou tão aliviada quando alcançou as escadas, olhando para trás para verificar se o homem ainda respirava. O homem estava estirado no chão, o sangue acumulando no chão junto com as poças de água.
Ela ficou aliviada e virou-se para continuar seu caminho, mas seu rosto bateu em uma massa quente e dura. Cambaleou e caiu para trás, as mãos pressionadas no chão gélido, seus olhos ficando terrivelmente arregalados ao ver um homem alto.
– O que te assustou, gatinho?
– NÃO! – Elizabeth gritou, abrindo os olhos com tanta força que sentiu-se nauseada ao levantar, pontos escuros invadindo sua visão.
Uma mão segura seu ombro, dedos longos e enormes agarrando sua jaqueta junto ao seu ombro como se quisesse mantê-la presa. Essa mera intenção a fez deslizar a faca que guardava debaixo da manga, os dedos segurando com força no cabo assim que encontrou a garganta da pessoa. Seus olhos não registraram o rosto nem o lugar ao seu redor, seus primeiros instintos foram se afastar e atacar.
– Calma! – Happy pediu, afastando-se com as mãos erguidas acima de sua cabeça para mostrar que estava desarmado. Seus olhos refletem a preocupação que sentia, nem um pouco assustado com a faca direcionada a ele, embora Tony Starking, que em algum momento apareceu no jatinho, parecia genuinamente assustado com o que viu. – Calma, foi só um pesadelo. – garantiu a Elizabeth, que não conseguia manter a respiração em conformidade, sentindo o coração tentar fugir de seu peito com o quão acelerado ele batia.
– Elizabeth, respire. – Starking pediu, a uma distância segura de Elizabeth que manteve a faca por perto. – Você está segura. Você está no complexo dos Thunderblood, o lugar mais seguro do país, não tem com que se preocupar. – falou. – Agora, eu quero que você respire e abaixe essa faca, ok?
Elizabeth fez o que foi pedido, desviando os olhos para a janela para verificar a verdade nas palavras de Tony. No reflexo do vidro, ela viu a si mesma com os olhos cinza e a pele tão pálida que poderia ser comparada a um cadáver. Era uma visão f**a, um mero vislumbre da coisa que Farley tentava evitar que machucasse seus agentes, e agora ela compreendia o porquê nunca iria se tornar uma agente.
– Eu sinto muito. – lamentou, puxando a alça da mochila pelo ombro.
– Não se preocupe… – Starking falou, porém Elizabeth foi mais rápida em controlá-los em direção a saída, descendo as escadas com mais velocidade do que imaginou ser preciso.
Ela não sabia para onde estava indo, mas em algum momento chegou à entrada do complexo.