Capítulo 1 - O Peso da Coroa
A Rocinha nunca dormia.
Mesmo de madrugada, o morro pulsava como um coração descompassado. O som distante de um baile ecoava pelas vielas, misturado ao ronco das motos, às conversas nas lajes e ao barulho das notas sendo contadas em algum canto escuro.
Do alto, a cidade brilhava.
Lá embaixo, a Zona Sul exibia seu luxo. Lá em cima, o verdadeiro poder era decidido sem terno, sem gravata e sem votação.
Kauã observava tudo em silêncio.
Encostado na mureta da laje, tragava devagar, enquanto o vento batia em seu rosto. Seus olhos percorriam cada rua, cada beco, cada ponto iluminado da comunidade.
Aquele era o seu reino.
Ou pelo menos, seria.
— Tá pensativo demais pra quem acabou de faturar uma carga milionária.
Bandido surgiu ao seu lado, segurando duas garrafas de whisky. Entregou uma a Kauã, que aceitou sem desviar o olhar da vista.
— Pensando no futuro.
Bandido soltou uma risada curta.
— No nosso ou no dos outros?
Kauã finalmente sorriu de canto.
— No meu.
Antes que Bandido pudesse responder, o celular de Kauã vibrou no bolso. O nome na tela fez seu semblante mudar na hora.
Dono.
Seu pai.
Ou melhor, o homem que comandava a Rocinha há mais de vinte anos.
Kauã atendeu imediatamente.
— Fala.
Do outro lado, apenas respiração pesada.
Depois, uma voz tensa.
— Vem pro hospital. Agora.
O mundo pareceu parar.
— O que aconteceu?
— Foi uma emboscada.
A ligação caiu.
Por um segundo, Kauã permaneceu imóvel.
Então, jogou a garrafa no chão com tanta força que o vidro explodiu em dezenas de pedaços.
— Liga o carro.
Bandido não fez perguntas.
Sabia, pelo olhar do amigo, que algo havia mudado.
E mudanças, na Rocinha, quase sempre vinham acompanhadas de sangue.
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O hospital particular na Barra estava cercado.
Carros pretos ocupavam toda a entrada. Homens armados vigiavam cada acesso. Policiais observavam de longe, sem coragem — ou sem interesse — de se aproximar.
Kauã desceu do carro como um furacão.
Atravessou a recepção ignorando enfermeiras, seguranças e qualquer tentativa de barrá-lo.
No corredor, encontrou Mendes.
O velho braço direito do pai estava com a camisa manchada de sangue.
— Como ele tá?
Mendes hesitou.
Péssimo sinal.
— Levou três tiros.
Kauã sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
— E quem foi?
— Ainda não sabemos.
Mentira.
Naquele mundo, sempre se sabia.
Só ainda não era a hora de dizer.
A porta da UTI se abriu.
O médico apareceu, mas Kauã nem olhou para ele. Seus olhos estavam fixos na maca que surgia logo atrás.
Dono estava irreconhecível.
Pálido. Fraco. Cercado por aparelhos.
O homem que parecia invencível agora lutava simplesmente para respirar.
Quando viu o filho, fez um sinal discreto com a mão.
Kauã entrou sozinho.
A porta se fechou atrás dele.
Por alguns segundos, apenas o som das máquinas preencheu o ambiente.
— Não era pra ser hoje… — Dono murmurou, com a voz falhando.
— Não fala assim.
Dono esboçou um sorriso cansado.
— Um rei precisa saber quando a guerra chegou até o trono.
Kauã apertou a mandíbula.
— Eu vou encontrar quem fez isso.
— Vai.
A respiração do pai ficou mais pesada.
— Mas antes… vai assumir.
Kauã congelou.
— O quê?
Dono segurou seu pulso com a pouca força que ainda tinha.
Mesmo assim, parecia uma ordem impossível de desobedecer.
— A Rocinha é sua agora.
As palavras pesaram mais do que qualquer arma.
Mais do que qualquer dinheiro.
Mais do que qualquer inimigo.
Kauã sempre quis aquele momento.
Mas não daquela forma.
Nunca daquela forma.
— Eu não tô pronto.
Dono soltou uma risada fraca.
— Ninguém tá.
Seus olhos encontraram os do filho.
Firmes.
Poderosos.
Mesmo à beira da morte.
— Respeito não se pede.
Kauã sentiu um nó se formar na garganta.
— Se conquista.
A frase ficou suspensa no ar.
Segundos depois, os monitores começaram a disparar.
Enfermeiros invadiram a sala.
Médicos gritaram ordens.
Kauã foi empurrado para fora.
E ali, no corredor gelado daquele hospital, ele ouviu o som que mudaria sua vida para sempre.
Um apito contínuo.
Longo.
Cruel.
Definitivo.
Bandido abaixou a cabeça.
Mendes fechou os olhos.
A Rocinha acabava de perder seu rei.
E ganhar algo muito mais perigoso.
Um herdeiro.
Kauã enxugou discretamente a única lágrima que permitiu cair.
Quando levantou a cabeça novamente, não havia mais luto em seu olhar.
Apenas poder.
Apenas sede.
Apenas guerra.
— Reúne todo mundo.
Bandido assentiu.
— Hoje?
Kauã encarou as luzes da cidade pela janela do corredor.
— Agora.
Ele ajustou a corrente no pescoço, respirou fundo e caminhou em direção à saída.
Cada passo ecoava como uma sentença.
Naquela noite, a Rocinha conheceria seu novo dono.
E o Rio de Janeiro aprenderia a temer seu nome.