O vento suave batia contra a face do garoto azul. O guarda chuva protegia os dois seres contra as gotas de água que atingiam o tecido levemente. Não estava tão frio, embora, por falta de agasalhos, o homem e a mulher tentavam permanecer juntos o maior tempo possível.
Olhando por todas as direções, os novos exploradores se depararam com uma encruzilhada bem a frente do portão. A estrada seguia por duas direções oposta, à esquerda, mais a frente era se visível uma estrada de terra coberta por neve, enquanto que na outra direção, uma neblina cobria a vista do horizonte. À frente à mata fechada impedia a descoberta do que vinha adiante.
- Vamos pela neve. – Amnie propôs, Eliot concordou.
Os dois seguiram em meio à frente fria pela estrada de terra. A p******o não vinha sendo muito eficaz após algum tempo de caminhada, até que o homem decidiu entrar em meio a mata na esperança de encontrar alguma ajuda. Se locomovendo a passos lentos, os dois se aproximavam de uma pequena loja de doces. Apesar de reconhecível, sua estrutura estava se deteriorando gradativamente, as janelas quebradas e a porta escancarada puseram uma aflição nos rostos dos visitantes.
- Por que teria uma loja de doces em meio a uma floresta? – Amnie falou quase que em um
sussurro.
Eliot se aproximou do comercio lentamente. A garota ficou parada onde estava à pedido do homem, que continuava a vasculhar o local. Os utensílios estavam esparramados pelo chão fora da doçaria. A pessoa que cuidava daquele estabelecimento parecia ter o abandonado há décadas.
- Não tem ninguém, vamos entrar um pouco e tentar nos aquecer. – Eliot se virou para sua parceira e sinalizou para que se aproximasse.
- Tem certeza? Podem ter ratos, ou sei lá. Podemos ficar doentes. – A garota relutou.
- Prefere morrer de frio aqui fora? – A sugestão foi o bastante para convencê-la a entrar.
Dentro da velha doçaria, os dois seres se acomodaram no canto mais seco. Por sorte, haviam poucas goteiras, o que deixava a maioria do chão seco. Havia mais de três horas que estavam caminhando, e seus corpos estavam exaustos. Eliot procurou por algo que pudesse limpar o chão, até que encontrou uma vassoura colorida e pôs se a varrer um canto. Enquanto isso, Amnie explorava as outras partes do antigo comércio, tomando o cuidado para não sair de perto do garoto.
As paredes possuíam várias prateleiras e quadros ilustrados com o que provavelmente seriam os produtos oferecidos pela companhia. Limão, chocolate, morango, a doçaria parecia produzir variados sabores de doces, era interessante como a decoração chamava a atenção para um padrão. A garota percebeu que os quadros compunham uma trilha para um sabor principal: o maravilhoso Cogumelo índigo. Uma especiaria rara que apenas um freguês poderia pagar, dizia o quadro logo abaixo.
- Cogumelo Índigo... – Amnie repetiu as palavras do cartaz em voz alta.
- O que disse? – Eliot se sentiu estranho após ouvir aquele nome. Um relance de memória veio logo a sua mente, e com ele, uma intensa dor de cabeça. O homem cambaleou por alguns passos.
- Eliot, você está bem? – Sua parceira o segurou antes que pudesse cair.
- Estou. – Tentou se recompor. – Apenas tive uma leve dor de cabeça.
- Sente- se um pouco. Eu vou fazer a limpeza por você.
- Obrigado. – Eliot acomodou-se na parte já limpa, enquanto Amnie fazia a limpeza.
- Acha que iremos encontrar algo? – A garota dava leves vassourados no chão.
- Não tenho certeza, mas temos que fazer isso antes de sete dias.
- Sete? Como assim? – A aquela altura, Amnie já havia soltado a vassoura. – Olha, sei que não confia em min. E sei que está escondendo algo, mas não pode ser tão b****a a ponto de não me contar as coisas.
- Se eu estava naquela casa com você, havia um motivo. Então, por favor, me conte tudo que sabe. – A morena tentou ser cuidadosa com as palavras.
- Quando acordei... – O garoto pensou por um segundo se devia contar ou não. Enfim prosseguiu. – Estava escrito no meu braço que meu nome era Eliot. E eu não poderia sair daquela casa sem você.
- Alguém nos vigiava? Havia guardas? – Amnie interrompeu.
- Não, simplesmente não havia porta. Procurei por toda casa, em todos os andares. Não havia saída que levasse para fora.
- E as janelas?
- Não quebravam. Pareciam feitas de aço puro, tudo que eu jogava sobre elas, voltava. Quase fiquei louco. Procurei por qualquer coisa que me levasse a mais pistas, as únicas coisas que achei foram anotações em livros que não conseguia entender. – Eliot olhava para o chão, disperso.
- Foi um inferno ficar acordado e sozinho por treze dias. – Continuou dizendo.
- E o que dizia nas anotações? Digo... Você conseguia entende-las? – A voz da garota parecia mais meiga na intenção de aliviar a tensão.
- Treze somados a sete leva ao equilíbrio divino. As sete pragas... Entre outras coisas que não me lembro. Percebi que restaria mais sete dias depois que você acordou. Hoje é o dia quatorze. – Eliot estava cansado.
- Está anoitecendo, melhor que você durma. Fico de vigia. – Amnie se voluntariou.
- Não precisa...
- Não se preocupa, já dormi por treze dias seguidos. Estou sem sono. – Interrompeu brincando.
Amnie se sentou próxima a janela, segurando a vassoura em posição de ataque. A idéia de estar em um lugar desconhecido a apavorava, e muito mais depois de descobrir o que seu parceiro havia passado. Embora não se lembrasse de seu passado, a morena achava tudo aquilo uma loucura, e duvidava se seu amigo não estava louco. Aquilo não era normal para ela.
Enquanto Eliot tentava dormir, a garota observava o perímetro ao redor da doçaria. Logo a frente, potinhos de luz vermelha começaram a se difundir entre a escuridão, e junto a eles, passos de cascos se tornavam cada vez mais audíveis. Amnie não sabia se corria dali ou ficava parada. Escolheu ficar no mesmo lugar. Assim que o barulho se tornou o mais alto possível, três cavalos apareceram diante do estabelecimento abandonado.
A garota não podia acreditar no que estava vendo. A sua frente, três cavalos com corpos totalmente putrefatos faziam barulhos semelhantes a de bestas, e montado a um, uma bela mulher olhava para a doçaria. A figura feminina possuía uma energia amarga. Seu corpo, trajado com fitas de balé negras e ensangüentadas, era pálido e preto em algumas regiões. Seus olhos totalmente brancos brilhavam na escuridão. A estrutura corporal, apesar de extremamente magra, parecia ser apertado tanto pelas fitas que o material se fundira com os restos de tecido que um dia pareciam humanos.
- Entrem e procurem por ele. – A mulher ordenou com uma voz áspera.
Um de seus cavalos adentrou o local. Amnie, antes da entrada do animal, correu até Eliot que finalmente havia pegado em sono profundo. O homem acordou assustado com os toques da menina, e logo tentou perguntando o que estava acontecendo, mas foi interrompido pelos sinais da morena para que fizesse silêncio.
A aquela altura, os dois corriam o máximo que podiam em direção a estrada de terra. Graças a sorte, os dois foram tão rápidos que não foram avistados pela possível seguidora. A chuv havia voltado a se tornar forte e novamente, as criaturas estavam encharcadas. Amne se sentiu aliviada ao encontrar o chão lamacento e marrom da antiga rota, acreditava que aquele seria seu porto seguro. Sem cavalos e mulheres fitadas.
- O que você viu lá? – Elliot perguntava ofegante, tentando se recompor.
- Havia uma mulher enrolada em uma fita e três cavalos podres. Eles pareciam vir atrás de você. Pareço maluca dizendo isso, mas é verdade! – Parecia que a garota iria ter um ataque de pânico.
- Cavalos podres? Estava escuro, Amnie. Talvez você estivesse imaginando algo. Muitas coisas parecem erradas no escuro. – O homem tentou acalmá-la.
- Não! Eu sei que os vi! Se não acredita, por que não volta?! – Amnie deu suas ultimas palavras e saiu dali, adentrando na escuridão para frente da estrada.
Eliot estava muito cansado para continuar, então decidiu para e se deitar perto de uma árvore fora da trilha. Sua cabeça ainda doía e a chuva o estava fazendo congelar. Por fim, enquanto o homem descansava, barulhos de cascos começaram a ser ouvidos de longe, da mesma forma que Amnie ouvia. E pareciam se aproximar a cada instante.
Bem a sua frente, a bela dama com fitas sufocantes parou em frente ao moreno. Tentando ter o máximo de cuidado, a criatura sinalizou para que ficasse calmo, mas não se aproximasse. E embora seus extintos o mandassem fugir, Eliot se sentia bem, próximo a aqueles seres.
- Quem são vocês?! – Estava assustado. Os cavalos pareciam extremamente gigantes,
comparado ao tamanho do homem.
- Eliot! Por favor, fique e me escute. – A figura feminina se aproximou aos poucos.
- Sei que não se lembra de nada, mas há algo que sei que deva saber. – Continuou ela.
- Não siga este caminho. Não precisamos do equilíbrio divino! – A moça falava desesperadamente.
- Como assim? – Ele não conseguia compreender.
A criatura, sem continuar sua explicação, desapareceu logo que o homem voltou seus pés à estrada. E Eliot preferiu não voltar a vê-la. Enquanto caminhava, seus olhos rondavam o horizonte à procura de Amnie. Não sabia se poderia gritar e atrair algo pela estrada, disso tinha muito medo. Talvez fosse mais medroso do que a própria parceira. Até o ponto de gritar quando foi pego de surpresa por ela á medida que olhava para trás.
- Não faça mais isso. – Disse evitando olhá-la nos olhos.
- Seu medroso. Achou que algo havia acontecido comigo? – Amnie tinha um pouco de esperança de que ele se importara com seu sumiço.
- Você estava certa, eu vi a criatura. – Eliot estava sério, e a mulher ficou assustada.
- E o que você fez? Está bem? Ela lhe machucou?! – A morena procurava por machucados sob o rosto do outro, como se fosse sua mãe.
- Nada aconteceu. Ela apenas me disse para não seguir a trilha.
- E depois? Ela tentou te pegar? Você foi enfeitiçado?
- Não, eu acabei voltando para a estrada e ela desapareceu.
- Estranho, será que ela está fazendo uma emboscada? – Amnie arqueou a sobrancelha com o rosto completamente encharcado.
- Quando você disse aquela frase na doçaria, minha cabeça começou a doer e lembrei-me de algo. – Mais uma vez, Eliot olhava para o chão enquanto caminhava.
- O que?
- Foi algo vago. Eu estava naquele lugar, minhas roupas eram no tom azul. Haviam palmas batendo e então me perguntaram: Por que cogumelos azuis? E respondi, tem tem um sabor único para min. Depois disso não me lembro mais de nada.
- Isso é um ótimo começo! Você descobriu que tem memórias aqui! – Amnie estava feliz com a notícia.
- E você? Não se lembrou de nada?
- Não... As coisas parecem sem sentido para min. Sou tão burra que nem sabia o que era um relógio. – A mulher estava tristonha.
- Você ainda está com o guarda chuva? – Eliot perguntou na intenção de animá-la.
- Não, acabei o deixando cair na correria. Desculpa. – A morena esperava por uma bronca.
- Você não parece uma adulta, sabia? Tem o jeito de uma criança problemática. – Eliot gozou da garota, sorrindo.
- Enfim, sou a problemática. E você é o medroso perseguido por cavalos podres.
- Aliás, essa foi uma péssima descrição. Eles apenas não tinham pele.
- Você chegou perto deles? – Eliot fez a indagação.
- Uma vez quando o cavalo entrou pela porta, eles fedem mais que um morto. Por que a pergunta?
- Nada, era para saber sobre o cheiro. Vamos continuar caminhando, temos que achar algum lugar para ficar antes que a chuva fique mais forte.