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A Morte Nos Uniu

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Blurb

Em um mundo dominado por zumbis, Rike é salvo por Lionel, um rapaz protetor e impaciente. Entre provocações, brigas bobas e momentos de carinho, os dois se aproximam e descobrem sentimentos inesperados. Enquanto enfrentam perigos, perdas e lutam para sobreviver, precisam aprender a confiar um no outro. Afinal, em um mundo onde qualquer despedida pode ser a última, amar alguém também significa ter medo de perdê-lo. Mesmo quando tudo parece perdido, o amor ainda pode florescer.

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O cara que me salvou
Eu nunca imaginei que fosse morrer daquele jeito. Quer dizer, eu já tinha pensado na morte algumas vezes, mas nunca imaginei que meu fim seria correndo por uma rua imunda, com uma mochila nas costas e um bando de zumbis querendo me transformar em jantar. Sinceramente, eu esperava algo menos humilhante. Meu nome é Rike, tenho vinte e dois anos e, até algumas semanas atrás, minha vida era relativamente normal. Eu tinha meus problemas, meus planos e algumas preocupações que agora pareciam ridículas. Naquela época, eu reclamava quando a internet caía. Hoje, eu daria tudo para ter internet de novo. O mundo começou a desmoronar com notícias estranhas, pessoas atacando desconhecidos e hospitais ficando lotados. No início, muita gente achou que fosse algum tipo de doença passageira. Eu também quis acreditar nisso. Até os mortos começarem a levantar. Depois disso, tudo aconteceu rápido demais. Os mercados foram saqueados, as ruas ficaram abandonadas e as autoridades desapareceram das telas. Quem ainda tinha família tentava encontrá-la. Quem estava sozinho fazia o possível para continuar respirando. Eu estava no segundo grupo. Fazia dois dias que eu saía do esconderijo apenas quando precisava procurar comida. Naquela manhã, porém, com meus suprimentos quase acabando, decidi arriscar uma caminhada até um mercado que ficava algumas ruas adiante. A ideia parecia boa na minha cabeça. Na prática, foi uma m***a. — Parabéns, Rike. Mais uma decisão genial — resmunguei enquanto corria. Eu tinha me perdido. Para completar, três zumbis estavam atrás de mim, e outros dois tinham aparecido na rua que eu pretendia usar como saída. Olhei para trás por um segundo e me arrependi imediatamente. Um deles usava uma camisa social rasgada. Outro tinha metade do rosto coberta de sangue. O terceiro estava descalço e andava de um jeito tão torto que parecia ter quebrado todas as articulações do corpo. — Vocês não cansam, não?! Obviamente, ninguém respondeu. Virei uma esquina e quase tropecei em uma bicicleta caída. À minha frente, um caminhão bloqueava parte da rua, cercado por carros abandonados. Tentei passar pela lateral, mas ouvi um ruído perto da entrada de uma loja. Um homem estava caído junto à porta. Por um instante, achei que estivesse morto de verdade. Então ele levantou a cabeça. — Ah, não. Nem vem! Ele se levantou lentamente e começou a caminhar na minha direção. Virei para correr pelo outro lado, mas já era tarde. Uma mão agarrou meu tornozelo. Caí com tudo no asfalto. — ME SOLTA! Um zumbi estava agarrado à minha perna, tentando alcançar meu pé com os dentes. Chutei a cabeça dele, mas o desgraçado não largava. Minha mochila escorregou dos ombros, espalhando algumas coisas pelo chão. Tentei me arrastar para longe, mas os outros estavam chegando. Meu coração batia tão rápido que eu m*l conseguia respirar. Era isso, então? Eu ia morrer ali, no meio de uma rua, sem nem ter conseguido comer o último pacote de biscoitos que tinha guardado? Que ódio. Fechei os olhos por um instante. Um disparo ecoou pela rua. O corpo que segurava minha perna ficou imóvel. Abri os olhos e vi o zumbi caído ao meu lado, com um ferimento na cabeça. — Você pretende continuar deitado ou vai levantar? A voz veio da minha esquerda. Virei a cabeça. Um rapaz estava parado perto de um carro preto, segurando uma pistola. Usava uma jaqueta escura, camiseta cinza e calças sujas de poeira. O cabelo preto estava bagunçado, e havia um pequeno corte perto da sobrancelha. Ele parecia ter uns vinte e quatro anos. E parecia estar muito irritado. — Eu... o quê? — Levanta! Os outros estão chegando! Olhei por cima do ombro dele e vi os zumbis se aproximando. Não precisei ouvir duas vezes. Peguei minha mochila e me coloquei de pé, sentindo uma pontada no joelho. O desconhecido apontou para uma passagem estreita entre dois prédios. — Corre para lá! Corri. Ele veio logo atrás, disparando mais uma vez. O som ecoou entre os edifícios, e eu quase tive vontade de voltar só para reclamar da falta de discrição daquele maluco. — Você quer chamar todos eles para cima da gente?! — gritei. — Quer que eu peça desculpas para eles por interromper o almoço? — Você é sempre um i****a assim?! — E você sempre reclama quando alguém salva sua vida? Fiquei quieto por dois segundos. — Eu ainda nem agradeci! — Então economiza o fôlego! A passagem terminava em um estacionamento pequeno, cercado por muros altos. Havia dois carros abandonados e uma porta de metal no fundo. O rapaz tentou abri-la. Trancada. — Claro — resmungou. — Porque hoje não estava r**m o suficiente. Ele encontrou uma barra de ferro dentro de um dos carros e voltou. Encaixou a ponta na fechadura e fez força até a porta ceder. Entramos rapidamente, e ele fechou tudo atrás de nós. O lugar parecia o depósito de uma oficina. Havia ferramentas espalhadas pelas prateleiras, pneus empilhados e um cheiro forte de óleo. Não era confortável, mas, naquele momento, eu dormiria até dentro de uma lixeira se isso me mantivesse longe dos zumbis. Apoiei as mãos nos joelhos e tentei recuperar o fôlego. Meu corpo inteiro tremia. — Seu braço está sangrando — o rapaz comentou. Olhei para baixo. Havia um corte no meu antebraço, provavelmente causado por algum vidro quebrado durante a fuga. — Não é nada. — Claro. E eu sou o rei da Inglaterra. Senta aí. Encarei aquele sujeito. — Você não sabe falar normalmente? — Sei. Só não estou com vontade. Ele encontrou um kit de primeiros socorros em uma prateleira e voltou com uma gaze, álcool e uma faixa. Sentei em uma caixa de madeira, ainda desconfiado. — Vai me cobrar por isso depois? Ele ergueu uma sobrancelha. — Estou pensando seriamente em cobrar por hora. — Nossa, que engraçado. — Obrigado. Antes que eu respondesse, ele segurou meu braço e começou a limpar o corte. O álcool ardeu tanto que puxei o braço de volta. — AI, p***a! — Para de se mexer! — Está ardendo! — É álcool, não suco de laranja. — Você tem algum problema com educação? — Tenho vários problemas. Educação não está no topo da lista. Fiquei encarando aquele i****a. Ele me encarou de volta. Então comecei a rir. Nem eu entendi direito o motivo. Talvez fosse nervosismo. Talvez meu cérebro tivesse simplesmente desistido de funcionar depois de quase ser devorado. — Você bateu a cabeça? — ele perguntou. — Não! — Então por que está rindo? — Porque, se eu não rir, vou começar a chorar. E prefiro não fazer isso na frente de um desconhecido arrogante. Ele ficou quieto. Pela primeira vez desde que nos encontramos, não respondeu com outra provocação. Terminou de limpar o ferimento, colocou a gaze e prendeu a faixa ao redor do meu braço. — Pronto. Não parece profundo. Olhei para o curativo. — Obrigado. A palavra saiu baixinho. Ele pareceu surpreso, mas logo voltou à expressão indiferente. — Não foi nada. Só tenta não se meter em situações idiotas de novo. — Ah, claro. Vou avisar aos zumbis que preciso de um dia tranquilo. Um canto da boca dele se ergueu. Quase um sorriso. Quase. — Você fala demais, sabia? — E você é m*l-humorado demais. Acho que estamos quites. Ele soltou uma risada curta pelo nariz. Foi tão discreta que quase pensei ter imaginado. Depois, pegou a pistola e caminhou até uma janela estreita, coberta por uma chapa de madeira. Fiquei observando enquanto ele espiava a rua. — Ei, qual é o seu nome? — Lionel. Repeti mentalmente. Lionel. — Certo. Obrigado por me salvar, Lionel. — Não precisa agradecer de novo. — Eu agradeço quantas vezes quiser. — Então tenta agradecer em silêncio. Revirei os olhos. Que sujeito insuportável. Mesmo assim, não consegui evitar um pequeno sorriso. Lionel voltou a observar a rua antes de falar: — Vamos esperar até escurecer. Depois, seguimos para um lugar mais seguro. — Existe algum lugar seguro? Ele demorou um pouco para responder. — Existe lugar menos perigoso. Não era exatamente animador. Encostei as costas na parede e abracei minha mochila. Eu não conhecia Lionel, não sabia de onde ele vinha nem se estava sozinho havia muito tempo. Mas ele tinha me salvado quando poderia simplesmente ter ido embora. Naquele mundo, isso precisava significar alguma coisa. — Lionel? — Hm? — Você acha que tudo pode voltar ao normal? Ele continuou olhando pela janela. Esperei uma resposta, talvez uma promessa ou alguma mentira pequena o suficiente para me fazer sentir melhor. Mas ele não parecia o tipo de pessoa que dizia coisas bonitas só para agradar. — Não sei — respondeu. Baixei os olhos. — Ah. — Mas você está vivo agora. Preocupa-se com isso primeiro. Fiquei pensando naquelas palavras. Eu estava vivo. Por enquanto, precisava ser suficiente. Um barulho metálico interrompeu meus pensamentos. Alguém bateu na porta. Meu corpo inteiro ficou rígido. Lionel levantou a pistola e fez um sinal para que eu ficasse quieto. Outra pancada sacudiu o metal, seguida por um gemido arrastado. Segurei a alça da mochila com tanta força que meus dedos começaram a doer. A criatura bateu mais uma vez. Depois, silêncio. Esperamos até ouvirmos os passos se afastarem. Lionel abaixou a arma e olhou para mim. — Bem-vindo ao fim do mundo, Rike. Olhei para ele, depois para a porta. Eu queria voltar para casa. Queria acordar daquele pesadelo e descobrir que tudo tinha sido uma brincadeira h******l. Queria ter problemas comuns novamente. Mas nada disso aconteceria. Naquela noite, Lionel era apenas o cara que tinha me salvado. E eu era o i****a que ele provavelmente já estava arrependido de ter ajudado. Eu ainda não sabia quantas vezes discutiríamos, quantas vezes ele me tiraria do sério ou como, aos poucos, começaria a procurar sua presença mesmo quando não precisasse de ajuda. Naquele momento, eu só sabia de duas coisas. O mundo tinha acabado. E, por algum motivo, eu confiava um pouco mais naquele desconhecido m*l-humorado do que em qualquer outra pessoa que tinha encontrado desde o início daquele inferno.

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