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2250 Words
Dulce  Capotei na minha cama assim que entrei em meu quarto. Christopher havia me cansado e eu precisava reunir todas as minhas energias novamente.  Me enfiei debaixo dos lençóis e logo peguei no sono, mas fui acordada cerca de uma hora depois por batidas na minha porta.  Relutante, eu levantei e destranquei, dando de cara com Christian, que estava prestes a ir trabalhar.  — Dormindo? — me olhou com estranheza. — Você sempre acorda antes de mim.  — Eu não dormi ontem à noite, estava no farol com o Christopher.  — E vocês não dormiram porque... — me olhou com insinuação e eu apenas concordei com a cabeça. — Ih, cedeu? — riu. — Eu já esperava.  — O que eu posso fazer? — eu ri também.  — Por que seus pés estão enfaixados?  — Eu machuquei correndo pelas pedras na praia. O Christopher fez curativos. Inclusive, mais tarde você pode trocar? Eu não sei como fazer isso.  — Não sabe? Mas é muito simples.  — É que eu nunca preciso fazer curativos nem nada do tipo. — dei de ombros.  — E você é o que? Blindada? — riu. — Na hora do almoço eu venho aqui e troco os seus curativos. — Obrigada. — sorri para ele. — Tenha um bom dia.  — Bons sonhos. — ele beijou minha bochecha e após sair, eu fechei a porta e voltei a me deitar.  Porém, eu não conseguia pegar no sono e sabia exatamente porquê. Aquela energia pesada sempre atrapalhava o meu dia quando Ela queria falar comigo. E ai de mim se não fosse correndo vê-La.  Com muita dificuldade, eu pulei a janela e comecei a andar devagar na areia, em direção ao mar. A onda tocou meus pés e eu senti a dor ir embora e a minha pele ser renovada.  — O que...? — eu retirei a faixa de um dos pés e ele estava totalmente curado. — O que Você fez?  — Não achou que eu fosse te deixar com dores por tanto tempo, não é? Eu jamais seria capaz disso.  — Mas é capaz de me deixar dentro de um abismo no meio do oceano durante três dias! — reclamei.  — Eu não te machuquei.  — Não fisicamente.  — Foi necessário. Vamos esquecer isso, ok? Você está bem agora.  — Precisa de mim para algo? — eu torcia em pensamento que ela tivesse me chamado ali apenas para me curar.  — Posso sentir que está muito cansada, então não se preocupe. Vamos pausar um pouco todos os trabalhos. Convocarei outras sereias em outras regiões.  — Faz bem. Esses acidentes estranhos estão despertando a curiosidade das pessoas.  — Sem mais trabalhos por aqui, pelo menos por enquanto. Mas me prometa que continuará vindo? Vai nadar e dormir comigo quando eu pedir?  — Eu nunca ficaria longe de Você por muito tempo. — sentei na areia, deixando meu corpo ser molhado por Ela. — Precisa dormir? Está sem energia. O que andou fazendo?  — Fiquei acordada ontem à noite, mas não se preocupe. — se Ela soubesse, o mataria na primeira oportunidade que tivesse.  — Entre no mar. Dormir em sua forma de sereia sempre é um bom jeito de descansar mais rápido.  — Tem razão. — me despi e mergulhei no mar.  Esvaziei a minha mente e caí no mais profundo sono. A Água me tranquilizava, me energizava e me dava forças o suficiente pra ficar totalmente recuperada.  Antes do meio dia, eu saí do mar e voltei para a pensão. Pulei a janela do meu quarto e gelei quando vi Christian ali. Ele me olhou confuso enquanto segurava um kit de primeiros socorros.  — V-você não vinha ao meio dia? — gaguejei.  — Eu tinha visto no seu curativo uma manchinha de sangue e achei que era melhor vir trocar logo. — ele olhou para os meus pés e sua expressão ficou ainda mais confusa. — Não estão machucados!  — Er... bem...  — Dulce, que p/orra é essa? — ele deu dois passos para trás e arregalou os olhos, apontando para a minha perna. Eu ainda estava molhada e as escamas em minha pele demoravam a sumir sozinhas. A escamação rosa em minha perna era bem aparente.  — Isso...? — peguei uma toalha e esfreguei para secar aquela região, fazendo as poucas escamas sumirem. O que foi um erro da minha parte, já que Christian se afastou ainda mais de mim. — Droga... eu estou tão nervosa que nem estou pensando com os neurônios! — coloquei minhas mãos na cabeça.  — O que você... o que é você?  — Eu acho que eu não vou conseguir inventar nenhuma desculpa plausível pra isso. — suspirei. — Promete pra mim que não vai surtar?  — Eu já estou surtando! — quase gritou.  — Senta e respira fundo! — ele sentou em minha cama, ainda me olhando com desconfiança. — Existem certas coisas nesse mundo que os seres humanos desconhecem. Coisas que nunca poderão ser explicadas pela ciência, religião ou qualquer meio que vocês usem pra descrever o porquê de tudo. Você deve ter ouvido histórias na sua infância, contos de fadas ou histórias mitológicas no colegial. O ser humano não sabe nada sobre o oceano. Sabem mais sobre o universo do que sobre o mar que os cerca.  — Para de enrolar... — ele começou a roer as unhas.  — Eu sou uma sereia, Christian. — no início, ele ficou me olhando com os lábios levemente abertos, sem dizer nada. Mas depois soltou uma gargalhada.  — Isso só pode ser brincadeira! Me diz, essa escama na sua pele era o que? Maquiagem? Você está querendo me trolar, não é?  — Christian, me escuta com atenção. — comecei a cantar e ele ficou sério, seu olhar ficou distante e ele entrou num transe hipnótico. Parei de cantar e o beijei para que ele saísse desse transe.  — O que!? — ficou de pé. — O que aconteceu??  — Eu cantei pra te atrair, é o que fazemos.  — Meu Deus... foi como se a minha mente tivesse saído do meu corpo...  — E a única forma de se libertar desse transe é se a sereia que cantou pra você te der um beijo. Ontem à noite, o Christopher travou várias vezes e só voltava a si quando nos beijávamos.  — Gemidos têm a mesma frequência que um canto? — ele balançou a cabeça atordoado.  — Não exatamente... um gemido de prazer vindo de uma sereia é tão mortal quanto o seu canto. — desviei o olhar. — Mas essa não é a questão aqui. Você acredita em mim?  — Eu gosto de acreditar que existem coisas fora da nossa compreensão no mundo, mas eu jamais pensei que um dia me tornaria melhor amigo de uma sereia!  — Precisa ver pra acreditar? — ele assentiu. — Vamos até o cais, não deve ter ninguém lá agora.  Durante o caminho, Christian me acompanhou calado, me olhando fixamente como se eu fosse um ser de outro mundo.  Chegando ao cais, eu entrei no mar e ele ficou sentado ali me observando. Retirei apenas a parte de baixo de minhas roupas e deixei que minha cauda surgisse. Christian arregalou os olhos e aproximou sua mão de mim. Cheguei mais perto e deixei que ele tocasse a ponta de seus dedos em minha cauda.  — Eu acho que eu estou infartando. — ele respirou fundo. — Você nasceu assim ou se tornou?  — Me tornei. Numa viagem em família, nós fomos atraídos por uma sereia. Ela levou todos eles para o fundo do mar e na minha vez, a sensação de estar prestes a morrer foi tão assustadora que eu saí do meu transe sozinha e comecei a me debater contra ela. Vendo aquilo, ela pediu para que a Água poupasse a minha vida. Ela fez isso, com a condição de que eu a servisse para sempre.  — "Para sempre"? Quantos anos você tem?  — Eu já parei de contar faz muito tempo, mas eu tenho mais de oitenta. — agora, ele parecia mais calmo. Minhas pernas retornaram, eu me vesti e sentei ao seu lado no cais.  — A Água é consciente?  — Sim. Não como os seres vivos, Ela é mais como um ser místico, algo que tem a função de cuidar do planeta e de todos que habitam aqui.  — Se Ela cuida de nós, porque precisa de sereias para nos afogar?  — Como qualquer outro ser consciente, a Água precisa se alimentar. Ela só é capaz de manter a vida na terra se estiver devidamente energizada. Precisa de almas humanas. — ficamos em silêncio por um tempo. Ele olhava para o mar com um semblante sério e pensativo.  — Foi você que matou o pai do Christopher, não foi? — eu fiquei calada e olhei para baixo, aquilo me doía e ouvir alguém dizer aquilo me envergonhava. — Quando ele souber...  — Ele não vai saber!  — Não vai contar? Além de ter perdido o pai, o cara ficou internado por meses sendo chamado de louco pela própria família, sendo obrigado a passar por vários tratamentos e tomar medicamentos fortes com efeitos colaterais desastrosos! Ele vai passar a vida achando que estava errado?  — Christian, o que acha que ele vai fazer comigo se descobrir tudo?  — Mas a culpa não é sua, é da Água! — E você acha que as emoções dele vão deixar ele pensar assim? Ele não pode reclamar com a Água sobre isso, só eu posso ouvi-La. — Isso é muita coisa pra absorver... pelo menos agora eu entendi porque você se veste como uma adolescente brega dos anos cinquenta. — riu pelo nariz.  — Ei! — dei um tapinha em seu ombro. — Foi a melhor época para a moda!  — Tão boa que acabou. — gargalhamos. — Caramba... a minha amiga é uma sereia de verdade...  — Eu tenho que te pedir uma coisa. Quando você estiver tocando o mar, tente não dizer nada sobre eu e Christopher. Se Ela souber que tenho me envolvido com um humano, Ela vai matá-lo.  — Por que?  — A última vez em que eu me apaixonei, pensei em abandoná-La.  — E você pode fazer isso?  — No geral, não. Mas eu posso escolher nunca mais voltar ao mar. Eu continuaria imortal, mas não seria mais curada por ela, como ela fez com os meus pés hoje.  — E se você se apaixonar de verdade pelo Christopher? Ele vai envelhecer, morrer... e você não.  — Eu estava mesmo evitando pensar nisso... — meu peito doía com aquela possibilidade. Eu não sabia o que fazer em relação à isso.  — E aqueles contos mitológicos? Ulisses realmente se amarrou ao mastro do barco e ouviu o canto sem se atirar ao mar?  — A única parte errada foi ele ter dito que haviam várias sereias. Nós não andamos em bandos ou "cardumes". — eu ri. — Era apenas uma sereia e eu a conheci no início dos anos sessenta. Por causa dessa história, ela é praticamente uma celebridade no oceano. Ela se chama Minerva, deve estar pela Ásia atualmente.  — Qual a sereia mais antiga?  — Geralmente, as sereias que passam muito tempo acabam enlouquecendo e fogem do mar por anos. A Água fica tão enfurecida, que quando elas voltam, eu não sei... elas só somem... pra você ter uma noção, a sereia mais velha que eu já conheci nasceu pouco antes de Cristo.  — Uau! — arqueou as sobrancelhas. — E eu achando você velha.  — Sou praticamente um bebê. — brinquei.  — Um bebê bem perigoso...  — Eu não sou perigosa. Faço o que faço por necessidade.  — E se você não quiser fazer essas coisas? O que Ela pode fazer?  — A última vez que eu me recusei a realizar um trabalho, Ela me deixou presa no fundo daquela cratera por três dias e três noites.  — Foi por isso que você sumiu? Meu Deus! Mas essa Água é uma bela de uma vaca! — esbravejou.  — Não diga isso, a culpa foi minha. Eu sei quais são as minhas obrigações. Além disso, ela cuida de mim.  — Cuida pra que você esteja sempre disposta a fazer o que Ela quer!  — Você não A conhece. A Água é a coisa mais próxima de uma mãe que eu ou qualquer outra sereia temos. Eu A amo e nada é mais importante pra mim do que Ela.  — Uma mãe que dá um chá de sumiço nos filhos quando eles desobedecem... — deu de ombros.  — Não insinue nada, Ela nunca nos machucaria!  — Mas machucaria as pessoas que você ama só pra que Ela seja a única coisa importante na sua vida. É uma mãe bem abusiva, na minha opinião.  — Nós temos as nossas desavenças, mas no final, Ela é a única que vai estar comigo pra sempre. Como você disse sobre o Christopher, todo mundo que eu conhecer ou amar vai envelhecer e morrer.  — Eu entendo que você esteja eternamente presa à Ela. Mas isso não significa que Ela ame você.  — Christian, você nunca vai entender.  — Tudo bem.  Talvez a Água fosse sim possessiva, mas se Ela não me amasse, não faria questão de que eu estivesse sempre próxima, conversando e dormindo com Ela. Se fosse apenas questão de precisar de mim, Ela jamais me trataria de forma carinhosa, afinal, não haviam motivos para aquilo, já que eu tinha a obrigação de fazer o que Ela quisesse de qualquer maneira.
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