Dulce
Não consegui chegar até a areia da praia. O máximo que pude fazer foi me agarrar à uma das rochas que ficavam imersas um pouco depois da praia.
Com um braço, eu abraçava o corpo de Christopher, impedindo que sua cabeça ficasse debaixo d'água e usava o outro braço como uma espécie de anzol. Não consigo nem descrever o quanto aquilo doía. Meu braço estava totalmente arranhado, mas eu continuava a forçar para não cair, piorando ainda mais os ferimentos.
Quando percebi que estava começando a ficar tonta e que provavelmente quebraria um dos meus ossos, eu usei o último punhado de forças que tinha para jogar o corpo de Christopher sobre a rocha, o mantendo finalmente à salvo da Água.
Mas Ela não parou com a correnteza e continuou tentando me puxar para o fundo. Agora, eu usava meus dois braços para me agarrar à rocha.
— Para! Por favor! — gritei. — Ele já saiu do mar! Não pode fazer nada!
— Você nunca mais pisará em terra firme novamente! — Ela disse.
— NÃO! — entrei em desespero e movi minha cauda rapidamente contra a correnteza.
De cima da rocha, eu vi Christopher começar a tossir, jogando pra fora toda a água do mar que havia engolido.
Ele acordou, sentou com a mão na cabeça e assim que olhou na minha direção, soltou um grito e se arrastou para trás.
— CHRISTOPHER!! ME AJUDA!! — implorei.
Ele não olhava para o meu rosto, olhava para a minha cauda, com uma expressão de pavor. Christopher nem sequer piscava.
— Se você não me tirar do mar, Ela vai me levar e você nunca mais vai me ver! — eu já estava chorando compulsivamente.
Ele demorou alguns segundos, como se não soubesse se deveria me salvar ou não. Eu queria poder entrar na mente dele agora e saber o que estava sentindo e o que pensava que eu era.
Ele sacudiu a cabeça e esfregou os olhos. Aposto que não acreditava que tudo aquilo era real. Eu o olhei com súplica e finalmente, de forma rápida e desesperada, ele segurou meus braços e me puxou para cima da rocha.
Eu soltei um grito agudo, sentindo meus braços queimarem enquanto o sangue escorria por minha pele.
O mar se acalmou, os ventos cessaram e eu me senti aliviada por ter conseguido sair dali. Mas a minha cauda não sumiu e por mais que eu medisse esforços, minhas pernas não apareciam. Já que Ela não podia me castigar agora, não me devolveria minha forma humana.
— Minhas pernas! Devolve as minhas pernas! — soquei a superfície da Água.
— O que... que... — Christopher me olhava confuso e assustado, sem se aproximar demais de mim. — Isso não é real... — balançou a cabeça negativamente. — É só uma alucinação...
— Isso é real, Christopher. Você não é louco. — o olhei com tristeza. — Eu sinto muito...
— Rosa... roxo... espelhado... — ele dizia, olhando para a minha cauda. — Foi você! — arregalou os olhos. — Você fez aquilo com o meu pai!
— Eu posso explicar tudo! Você tem que entender que a culpa não foi minha! — ele ficou de pé e olhou para o mar, depois para mim.
— Quando você disse "Ela", estava falando de quem?
— A Água. Ela é consciente, se alimenta de almas para poder continuar forte e continuar sendo capaz de trazer vida e saúde para aqueles que A consomem. É como uma troca.
— E você faz isso por ela. Ela te salvou de um naufrágio e você teve que se submeter à isso em troca da sua vida... vida eterna.
— Como você sabe? — franzi a testa.
— Alfonso estava certo. Ele pesquisou muitas coisas e eu li muitas coisas sobre os "anjos da morte".
— Se você leu, deve compreender que não é nossa culpa. — ele me encarou em silêncio, tão excessivamente que eu senti um calafrio percorrer meu corpo.
— Você teve a opção de ser uma das almas que iria alimentar a Água, mas escolheu passar o resto da eternidade matando outras pessoas. Você escolheu isso.
— Você queria que eu morresse?
— Se você tivesse aceitado o seu destino, meu pai ainda estaria aqui. — ele não falava com raiva, era mais com desprezo.
— Eu nem conhecia você... — meus olhos se encheram de lágrimas.
— Maldita hora que conheceu. Mostro. — ele cuspiu no chão ao me chamar de monstro e eu fiquei boquiaberta, incrédula por aquele ato. Eu preferia que ele estivesse furioso, seria menos doloroso pra mim lidar com sua raiva do que ter que lidar com o seu nojo e desprezo. — Escolheu o seu destino, não pode fugir dele. No caso, não pode fugir dEla. — ele agarrou meu braço e começou a me arrastar em direção ao mar.
— NÃO! CRISTOPHER!! NÃO!! — meu grito era tão forte que estava saindo rouco. — SE FIZER ISSO, NUNCA MAIS VAI ME VER!! — ele agachou perto de mim e segurou meu pescoço, com a minha cabeça a um palmo da água.
— Talvez, não te ver seja a melhor coisa que eu possa fazer por mim. — ele disse de forma sombria.
— Christopher... por favor... — solucei. — Não faz isso... eu não suportaria ficar longe de você.
— Por que?
— Eu te amo. Eu não tenho motivo nenhum pra ficar nessa cidade, a única coisa que me prende aqui é você. — ergui minha mão devagar e toquei o seu rosto. Aquela era a primeira vez que eu dizia que o amava e eu podia ver em seu rosto como a expressão dele relaxou ao me ouvir dizer isso. Ele soltou o meu pescoço e eu me afastei da Água.
— Por que você tinha que dizer isso agora? — fechou os olhos e respirou fundo. — O que Ela vai fazer com você se eu te jogar no mar?
— Eu não sei... da última vez que eu a desobedeci, Ela me deixou no fundo do mar por três dias e três noites.
— Claro... foi por isso que você sumiu...
— Agora é diferente. Faz anos que eu tenho prometido à Ela que nunca mais amaria ninguém. Acho que essa era a pior coisa que eu poderia fazer.
— Ela tentou me matar só porque você me ama? — arqueou a sobrancelha. — Que espécie de ser abusivo essa Água é?
— Eu não posso reclamar... — desviei o olhar.
— Como você suporta viver assim? Não pode ter uma história com ninguém, precisa matar outras pessoas. Você não tem remorço?
— É o que eu mais tenho! Eu detesto ter que levar tantas vidas, detesto me sentir uma assassina! Mas eu não posso voltar atrás, não posso desfazer essa escolha! E se eu não fizer o que Ela quer, Ela me castiga, me deixa machucada, me prende no fundo do oceano... eu morro de medo da escuridão do oceano...
— Uma sereia que tem medo do fundo do mar? — arqueou a sobrancelha. Eu abaixei a cabeça e não disse mais nada. — Você me prometeu que não iria mais mentir pra mim. Tudo o que você faz é mentir!
— Acho que agora eu não preciso mais das minhas mentiras.
— E o que vai fazer? Não pode voltar por mar, mas também não pode ficar aqui como uma mulher metade peixe.
— Eu não sei...
— No porão do oceanário, nós temos um laboratório enorme que só usamos para grandes pesquisas. Faz anos que não trabalho lá, mas lembro que tem um aquário gigante.
— Pode servir até eu descobrir como reaver as minhas pernas.
— Tá... eu vou até a pensão pegar um lençol pra te cobrir. — ele correu, pulando sobre as pedras até chegar na praia e depois, em direção à pensão, mais especificamente a janela do meu quarto, que ficava de frente para o mar.
A reação dele não foi das melhores, como imaginei. Mas ao menos ele não estava me tratando como um animal, mesmo tendo me chamado de mostro.
Eu tinha certeza que a nossa relação tinha acabado. Nem queria alimentar qualquer esperança. Christopher só estava me ajudando porque era uma boa pessoa, não porque gostava de mim.
Ele voltou com um lençol e cobriu todo o meu corpo, depois me pegou no colo e foi andando comigo em completo silêncio até o oceanário.
Seu rosto estava sério, ele não me olhava em nenhum momento e respirava fundo, como uma forma de se acalmar.
Eu usei as chaves que estavam em seu bolso para abrir a porta dos fundos e quando entramos, ele foi direto para as escadas que levavam ao porão.
O tamanho do lugar era mesmo impressionante. Quando ele acendeu as luzes, eu vi um enorme aquário, que tinha o tamanho de uma sala comum.
— Fica aqui, eu só vou encher. — ele me colocou numa cadeira e foi até o aquário. Abriu as torneiras e o aquário começou a se encher por canos internos. — Tudo bem que seja água salgada? Ela não vai, sei lá... aparecer do nada?
— Contanto que não seja água do mar, ela não vai "aparecer". — fiz aspas com os dedos. Ele assentiu.
Depois que o aquário estava cheio, ele tornou a me colocar nos braços e subiu uma escada de ferro de pelo menos três metros para chegar ao topo. Ele apenas me soltou e eu dei um mergulho rápido, voltando a olhar para ele.
— Confesso que eu achei que você ficaria muito mais furioso do que está agora.
— Você não sabe o que eu estou sentindo. — foi firme. — Eu estou com tanto ódio de você que nem consigo demonstrar isso. Eu queria fazer picadinho de você e te enrolar em algas marinhas como um sushi. — abri levemente a boca. — Mas eu não vou fazer isso. Foi esperta em ter me conquistado. Se eu não amasse você, eu te mataria.
— Você me ama? — era triste que ele tivesse usado a palavra amor para justificar o porquê de ainda não ter me matado, mas pelo menos eu podia ouvir que ele me amava.
— O meu amor por você não importa muito agora. Ele só serve como um obstáculo. Mas quando eu deixar de te amar, Dulce... você vai preferir voltar para a Água. — me encolhi inteira e me afastei até o outro lado do aquário. — Ah, você não lembra qual o seu sobrenome, não é? Faz sentindo, já que fazem décadas que você não o utiliza. É Saviñon. E você tem um segundo nome. Maria. Dulce Maria Saviñon.
— Como você sabe? — fiquei surpresa.
— O Alfonso não achava que você era uma sereia à toa. Depois eu te mostro as fotos da sua família.
— Você tem fotos da minha família? — senti meu coração se aquecer. Fazia tanto tempo que eu não via nenhuma foto deles, quase não me lembrava de seus rostos.
— Pois é. Você é alemã, correto? — eu assenti. — Era nazista também?
— O que? Não! — me senti ofendida.
— Isso é uma surpresa. Viveu durante a segunda guerra, é totalmente egoísta pelo fato de ter salvo a própria vida em troca de ajudar a matar outras... eu jurava que você seria uma nazista.
— Parte da minha família foi morta por ajudar a esconder judeus nos porões de nossas casas. Meus pais tiveram muita sorte por nunca terem sido pegos. — depois que eu disse isso, ele me olhou espantado e abaixou os olhos com vergonha. — Eu sei que está morrendo de ódio de mim agora, mas o que faria se estivesse prestes a morrer e alguém lhe dissesse que você poderia se salvar? Sim, eu matei o seu pai, como matei milhares de outras pessoas que eu não conheço e nunca irei conhecer. E pensa que eu gosto disso? Eu odeio! Odeio me sentir um monstro! Eu não preciso de você apontando o dedo pra mim e me comparando com um.
— Parabéns por ter salvado vidas durante a guerra, mas isso não anula tudo o que fez depois. Eu sei que você foi obrigada, mas mesmo assim, você é uma assassina. É um monstro. Eu não consigo te ver de outra forma. — ele fechou os olhos. — Quando eu fecho os meus olhos, só consigo ver você tirando o meu pai dos meus braços e o levando para o fundo do mar. Você tirou de mim a pessoa que eu mais amava no mundo. Espera que eu te perdoe e tente entender?
— Não, eu não espero. — mergulhei para o fundo do aquário. Não queria olhar para ele agora, aquilo doía demais.
Pelo vidro, eu pude ver ele falar com alguém ao telefone e como estava em minha forma de sereia, os meus sentidos ficavam aguçados. Ele falava com Alfonso. Não demorou até que Alfonso atravessasse aquela porta e corresse até o irmão, o abraçando e analisando se estava ferido.
— Eu sabia! Você estava certo o tempo todo! — ele veio até o aquário e colocou as mãos na cabeça, me observando. — Christopher, eu tenho que te pedir perdão por ter te internado e te tratado como um doente. Você tinha razão, tudo o que viu era real. Essa coisa matou o nosso pai! — "mostro", "coisa"... do que mais eu seria chamada? — O que você vai fazer com ela agora?
— O que um biólogo marinho faz quando encontra uma nova espécie. — ele puxou a gaveta de um dos armários e deixou que Alfonso visse todas aquelas seringas, bisturis, tesouras cirúrgicas e dezenas de outros objetos que eu não conhecia. Pareciam instrumentos de tortura. — Vamos fazer algumas experiências. — ele me olhou, como um cientista maluco prestes a me abrir e analisar como eu era por dentro.
Ele não havia me trazido até ali porque era uma boa pessoa ou porque queria me salvar da Água. Me trouxe ali para descobrir como o meu corpo funcionava. E nesse processo, talvez ele quisesse me torturar.