Dulce
Tudo ia bem entre mim e Christopher. Eu finalmente havia conseguido conciliar a minha relação com a Água e a minha relação com ele.
Eu sentia falta de poder contar tudo para Ela, mas era por uma boa causa. Eu não suportaria que Ela o levasse de mim.
Os cidadãos de Seacity rejeitaram a ideia de homenagear Albert Carter, depois de todas as mulheres que se dispuseram a expor todos os abusos que já sofreram nas mãos dele. Depois de anos sendo ameaçadas por ele, finalmente puderam se sentir livre e contar o que lhes consumia.
Christopher continuava tentando me convencer de ir até um psicólogo e eu continuava a tentar tranquilizado quanto à minha saúde mental. Não iria perder meu tempo e meu dinheiro com uma coisa que não surtiria efeito nenhum em mim.
Eu estava bem com a morte do Albert, eu o matei, eu quis que ele morresse.
Era uma tarde de domingo, eu e Christopher estávamos fazendo um piquenique no parque da cidade, sentados na grama sob a sombra de uma árvore.
— Não sei se é impressão minha, mas você parece bem mais atento nesses últimos dias. — eu disse.
— Se eu te contar uma coisa, você guarda segredo?
— É claro!
— Lembra que o médico me mandou ficar sem tomar meus remédios por três dias? — eu assenti. — Então, digamos que eu tenha estendido um pouco...
— Não está tomando seus remédios? — o olhei com surpresa.
— Dulce, eu não vi nada de negativo em não tomar essas pílulas. Ao contrário, me sinto muito melhor. Você mesma notou que eu estou melhor.
— E com isso, você acredita que está curado?
— Eu não posso afirmar algo assim, não sou psiquiatra. Mas eu não tive nenhuma alucinação, me sinto totalmente normal.
— Sendo assim... acho que tudo bem. — sorri de lado. — Só não sei se os seus irmãos vão gostar disso.
— Eles não precisam saber. — pegou uma das maçãs e deu uma mordida. — Ei, adivinha quem faz um mês de namoro na próxima sexta?
— Hum... não sei... Maitê e Christian? — brinquei. Ele cerrou os olhos para mim e eu dei risada. — Eu sei que somos nós!
— Bobinha. — me deu um peteleco no nariz. — Eu pensei em alugar um veleiro pra gente velejar. Podemos passar uma noite no oceano.
— No mar? — cocei a nuca.
— Dulce, por favor, a coisa que eu mais gosto de fazer na vida é velejar e seria muito r**m não poder fazer isso com a minha namorada. — ele me encarou com um semblante sério. — Você nada no mar sozinha o tempo todo, mas não pode velejar comigo?
— Bem... a gente não vai ter que entrar no mar, não é?
— Não, meu bem. Nós só vamos observar as belezas marinhas. Não tem que nadar.
— Sendo assim, acho que tudo bem.
— Ótimo! Você vai amar velejar comigo! — ele segurou meu rosto e me deu um beijo que acalmou todos os meus nervos.
— Eu tenho certeza que vou. — sorri.
•••
Durante a semana, ele não parava de me contar sobre todos os planejamentos, o veleiro que havia escolhido e a rota que seguiríamos.
Era uma rota segura, nada demais poderia acontecer nessa viagem.
Era sexta de manhã, o nascer do sol deixava o céu numa cor entre o rosa e o laranja, muito bonito de se observar.
Comecei a arrumar minhas malas com a ajuda de Christian, que achava uma péssima ideia passar dois dias num veleiro com Christopher.
— E se você cair no mar sem querer? A Água vai querer saber o que você anda fazendo ali.
— Christian, eu tenho certeza que possuo equilíbrio o suficiente pra conseguir não cair de um barco por dois dias. — eu disse.
— Nunca se sabe... — deu de ombros. — E se... ah, deixa!
— Não, continua. O que ia dizer? — cruzei os braços.
— E se você... sei lá... responder à sua natureza de sereia e decidir afoga-lo? — ele disse aquilo sem olhar diretamente para o meu rosto
— Christian, eu não sou um animal! — reclamei.
— Mas também não é humana.
— Ei! — segurei seu rosto para que me olhasse. — Você não confia em mim?
— Não é isso. Você é minha melhor amiga, me preocupo com você e quero o seu bem. Mas se coloque no meu lugar. — ele fez sinal para que eu sentasse ao seu lado. — Passei toda a minha vida ouvindo que sereias eram mitos criados por pescadores ao longo da história da humanidade. Eu as via em fábulas, mitologia grega, filmes e lendas locais. Tudo não passava de uma mentira pra mim. E do nada uma sereia aparece na minha vida. O que você acha que eu vou esperar de você?
— Me diga você. — eu estava começando a me sentir ofendida.
— Eu não entendo como a mente de uma sereia funciona, não sei quais são os seus princípios e se você age realmente por si só ou se sua mente é controlada por aquela que você chama de Água. Eu tenho o direito de ter medo.
— Tem medo de mim? — fiquei incrédula.
— Não é que eu tenha medo de você, mas eu não gostaria de entrar no mar ao seu lado.
— Nossa. — fiquei de pé. — Isso foi totalmente preconceituoso! Eu sei que é da natureza ridícula dos seres humanos temer aquilo que não conhecem. Eles costumam excluir o que é diferente, negar tudo que saia do padrão de normalidade que eles impõem. O que eu nunca imaginei era que você também pensava assim.
— Dulce, você está tocando num ponto totalmente diferente! — negou com a cabeça. — Está colocando em questão uma coisa totalmente fora do que eu estou tentando dizer.
— Não é diferente. Você confiava em mim, até saber quem eu sou de verdade.
— Confiaria em mim se eu te dissesse que matei dezenas de pessoas que você conhecia? — fiquei em silêncio. — Ah... Eu esqueci que você confia e ama a Água, mesmo depois de ela ter matado a sua família.
— Eu tenho que ir. — peguei minhas malas e fui em direção à porta.
— Eu não disse isso pra te magoar. Eu gosto de você, e por gostar de você eu não quero fingir que está tudo bem.
— A Água tem razão quando diz que é um erro confiar em humanos. Vocês nos amam só até descobrirem quem somos. Sabe que não matei e não mato pessoas porque gosto disso. São as minhas obrigações.
— E se Ela te obrigar a matar alguém que você ama?
— Ela já tentou fazer isso e você sabe o que aconteceu. Passei três dias e três noites presa no fundo do oceano por me negar a afogar Christopher, Alfonso e os outros marinheiros. Isso não foi o suficiente pra você confiar em mim? — ele abaixou a cabeça e não disse nada. — Tranca a porta quando sair. Até domingo, Christian.
Aquela conversa havia me magoado profundamente. Achei que Christian seria alguém com quem eu pudesse contar, alguém que não me temeria.
Fui chorando o caminho inteiro até o cais e enxuguei meu rosto rapidamente quando avistei Christopher, ajeitando as velas do veleiro. Ele acenou quando me viu e eu fui até lá.
— Pronta para o melhor passeio da sua vida? — falou com animação. Eu assenti devagar. — Ei, você estava chorando? — ele se aproximou e segurou o meu rosto.
— Eu tive uma discussão com o Christian... — as lágrimas voltaram a rolar.
— Por que? O que aconteceu? — me abraçou e começou a acariciar meus cabelos.
— Parece que eu sou mais amiga dele do que ele é meu... enfim, eu não quero ficar falando sobre isso. — saí do abraço e enxuguei meu rosto. — Eu quero me sentir bem e quem melhor pra me fazer sentir bem do que você? — apoiei minhas mãos em seus ombros.
— Então, a minha missão vai ser fazer de você a mulher mais feliz desse oceano. — sorrimos um para o outro.
Nós começamos o passeio e enquanto Christopher pilotava, eu bebia uma taça de vinho, observando o horizonte tão azul que parecia ter sido pintado pessoalmente por Deus.
Ele arranjou um bom lugar para ancorar. As ondas estavam calmas, conseguíamos ver alguns peixes nadando em cardume próximo ao veleiro e Christopher havia visto algumas baleias um pouco mais longe. Torcíamos pra que elas se mostrassem e dessem um show saltando para a superfície.
Começamos a tomar café da manhã sentados sobre uma toalha de mesa na proa do veleiro. Os primeiros raios da manhã deixavam a água transparente de tão clara.
— Nem parece a água do oceano. — Christopher sorriu. — Se alguém me mostrasse uma foto daqui, eu iria jurar que é um lago muito profundo.
— Devem ser os resultados do projeto para a limpeza da costa.
— Sim. A poluição deixa o oceano com uma aparência bem distorcida do que realmente é. Além disso, é muito gratificante poder ver todos esses peixes nadando sem nenhuma sacola de lixo pra atrapalhar ou nenhum resíduo tóxico.
— Eu já estive em muitos lugares e posso garantir que Seacity possui a costa marinha mais limpa que eu já vi.
— Tem algum lugar que você ainda não conheceu, mas que gostaria muito?
— Hum... — parei pra pensar. — Eu acho que não. Já vi tudo o que eu queria ter visto e um pouco mais.
— Ah, que pena! Eu adoraria te levar pra algum lugar que você nunca foi.
— E se eu te levasse para os lugares que eu mais gosto? A gente dá uma volta ao mundo e eu posso te guiar com precisão, afinal, eu já estive em tantas partes desse planeta que m*l me lembro de todos. — dei risada.
— O seu passaporte deve ser uma obra de arte. — sorriu de lado.
— Pois é... — passaporte? Eu nunca nem havia entrado num avião. — Tem um pouco de geleia no canto da sua boca.
— Aqui? — ele limpou o canto oposto.
— Não... — me esquivei para perto e passei a língua no local. Christopher abriu levemente a boca e deu um meio sorriso.
— O que você quer? Sexo de café da manhã?
— E isso seria uma má ideia?
— Nunca é.
Ele me beijou, me puxando enquanto segurava o meu cabelo. Depois, levantamos sem parar o beijo e ele me pegou no colo, começou a andar em direção à cabine e me jogou na cama.
Foi abrindo os botões de sua camisa um a um, sem tirar seus olhos de mim.
Tornou a me beijar, começando a subir o meu vestido. E quando estávamos devidamente despidos, fizemos o amor mais doce que eu pudesse querer.
A cada sexo, deixávamos nosso lado emocional falar mais alto do que o carnal. Aquilo era mais do que apenas sentir prazer. Era algo mútuo, exalava amor e o fato de estarmos apaixonados fazia aquilo ser ainda mais prazeroso.
•••
O dia foi muito melhor do que eu imaginei. Ele me ensinou a velejar, ou pelo menos tentou, eu era muito atrapalhada para aquilo. Com toda certeza me saía melhor debaixo d'água.
Tivemos um almoço maravilhoso! Tudo o que eu trouxe era uma delícia e comer tendo aquela vista valia mais que qualquer almoço num restaurante caro.
Ele levou seu violão e já de noite, me ensinou algumas notas, mas no geral, eu preferi só balançar de um lado para o outro enquanto ele cantava e tocava sob a luz da lua e das estrelas.
— Por que não canta? — ele perguntou.
— Minha voz não é das melhores. — falei sem jeito.
— Eu adoraria ouvir. Se a sua voz já me deixa doido quando você geme... — me olhou com malícia.
— É, você enlouqueceria se me ouvisse cantar... de tão r**m que eu sou, claro! — se eu cogitasse em apenas cantarolar, Christopher se jogaria no mar na hora.
— Ah, por favor! Uma moça linda dessas vai cantar m*l? — ele avançou e começou a me fazer cócegas.
— Christopher! — eu gargalhava enquanto ele apertava minha barriga. Acabei deitando no chão e ele ficou sobre mim. Parou com as cócegas e ficou me encarando.
— Eu tenho muito sorte... olha pra você... é perfeita. O que viu em mim?
— O que eu não veria em você?
Ele me beijou e agarrou minha perna, apertando com vontade. Minha excitação cresceu e eu só pensava em me deliciar ali mesmo, debaixo daquele céu brilhante, sobre as águas que eu tanto temia.
E quando eu pensei em tirar sua camisa, o celular dele começou a tocar.
— É o Alfonso. Acredita que ele voltou a pesquisar sobre o acidente? Pelo menos está fazendo isso dentro de casa. — ele levantou e se afastou para atender.
Christopher sentou na beira da proa e eu pude ver quando ele colocou a perna para fora e deixou que seu pé tocasse o mar. E claro, Ela soube na hora que ele seria um alvo fácil e começou a me chamar.
A Água não sabia que eu estava ali e não sabia quem era o Christopher. Se ela soubesse, nem precisaria de mim para afoga-lo no mar. Usaria toda a sua energia só pra fazer isso por conta própria, por mais que isso resultasse em deixá-la inconsciente por algumas semanas.
E Ela me chamava tão compulsivamente que eu comecei a sentir minha cabeça latejar. Eu me sentia cada vez mais coagida a saltar para o oceano. Fiquei de pé e abracei o meu corpo. Olhei uma única vez para as águas, tão atrativas, sedentas pela minha presença.
Corri para dentro da cabine e me joguei na cama, me enrolando no meio dos lençóis. Em alguns minutos, Christopher abriu a porta e entrou.
— Dulce? Você está bem?
— Eu só estou com um pouco de dor de cabeça. Acho que quero dormir. Pode ficar aqui comigo? Por favor? Não fica lá fora. — pedi com a expressão mais piedosa possível.
— Claro, vou ficar ao seu lado e te abraçar a noite inteira.
Ele veio até mim e me abraçou. Eu o apertei forte contra mim, encostando minha cabeça em seu peito para ouvir o seu coração. Se dependesse de mim, o mar não seria responsável por fazer aquelas batidas cessarem. A alma de Christopher jamais pertenceria à Água.