Dulce
Angelique era bem energética e depois de sua transformação, tudo o que ela queria era ficar nadando, de uma cidade para outra. Ela se deu bem com a Água bem rápido e já no seu primeiro trabalho, ela fez quase tudo sozinha. Eu apenas ajudei a levar as pessoas para o fundo do oceano.
No sábado, como eu queria muito ir até Seacity por conta do evento do oceanário, tive que pedir ajuda pra que a própria Angelique convencesse a Água a me deixar voltar mais cedo. E ela permitiu, com a condição de levar Angel a meia noite até o meio do oceano, para finalmente consagra-la como uma verdadeira sereia.
A deixei no meu quarto na pensão e pedi pra que não saísse. Foi difícil entrar ali sem ninguém vê-la. A cidade era pequena e explicar quem era Angelique seria um problema pra mim.
Vesti minha melhor roupa e fui até o evento, temendo que Christopher não quisesse me ver depois de todo esse tempo em que eu fiquei fora.
Mas ele quis. Me tratou como uma deusa a noite toda, me elogiou frequentemente e me beijava como se sua vida dependesse daquilo.
Em um momento, ele saiu para se preparar para o seu discurso e eu fiquei sozinha.
— Onde diabos você estava? — Christian parou ao meu lado. — Quando ele apareceu no meu quarto perguntando por você, eu tive que dizer que você foi resolver umas coisas. Sabe como é difícil pra mim ter que mentir?
— Desculpe ter que fazer isso com você e obrigada por ter tentando acalma-lo. Eu tive que atender um chamado da Água e as coisas foram pra um caminho que eu nunca imaginei.
— Como assim?
— Eu encontrei uma nova sereia. Tive que ajudá-la por esses dias. Inclusive, ela está agora trancada no meu quarto.
— Eu posso conhecê-la? — se animou. — Afinal, quantas sereias eu irei ver na vida?
— Eu tenho que levá-la para o mar daqui a meia hora, então, não.
— Não pode esperar nem um minutinho a mais? — fez bico.
— Não, Christian. São ordens da Água.
— E como vai fazer pra sair daqui sem que o Christopher te encha de perguntas?
— Bom, ele vai discursar agora e provavelmente, vai demorar muito conversando com os doadores. Esse é o tempo em que eu vou aproveitar pra levar a Angelique.
— É natural das sereias gostar de se arriscar? — riu.
— A gente é obrigada. — dei de ombros.
Como imaginei, Christopher terminou de discursar e foi diretamente até os doadores. Eu saí de fininho e corri até a pensão.
Pela praia, eu abri a janela do meu quarto e vi Angel assistindo televisão, deitada na minha cama.
— Ei! Hora de ir! — eu disse.
— Sério? Mas ainda nem está nos comerciais! — reclamou.
— Você está brincando comigo, não é? — a olhei com repreensão.
— Ai, desculpa! — riu.
Ela veio até a janela e pulou. Andamos até perto do mar e deixamos a primeira onda tocar nossos pés.
— Olá, minhas queridas! — Ela disse ao nos sentir. — Está pronta, Angelique?
— Sim, estou! — no início, ela era bem relutante, mas agora até parecia animada com a ideia de ser uma sereia.
— Entrem no mar, nadem até a lua da meia noite estar alta.
Nos despimos e fizemos o que ela disse. Nossas caudas surgiram, embalando-se no mesmo ritmo. Ela nos ajudava a ir mais rápido, aumentando sua correnteza.
Chegamos num ponto onde não víamos mais a praia. A lua estava alta, fazendo o brilho de nossas caudas se acender.
A minha, rosa, deixando um rastro de luz na água por onde eu passava. A de Angelique, azul como o céu de uma tarde de verão.
Paramos já bem longe da costa e eu segurei as mãos dela.
— Você está pronta pra seguir o seu caminho sozinha? — perguntei.
— Estou. — foi firme. — Mas eu ainda vou te ver?
— Talvez, por acaso. — sorri fraco. — Talvez a Água nos agracie com um reencontro. Eu adoraria te ver de novo.
— Com certeza você me deixava muito mais segura. Vai ser difícil não te ter aqui pra me acalmar.
— Você fez um papel excelente enquanto esteve comigo. Eu tenho certeza que se saíra muito bem sem mim. — eu a puxei para um abraço. — E com isso, eu te entrego ao mar. Sob a luz da lua, a filha da Água se consagra como interceptora da vida, aquela que mantém o equilíbrio na terra. — eram as mesmas palavras que a sereia que me salvou me disse, antes de se despedir de mim.
Nossas caudas se acenderam ainda mais e o lugar ficou tão iluminado que eu podia jurar estar vendo o chão no fundo do oceano.
Nós duas nos afastamos e após um último sorriso, Angel nadou para longe, deixando um rastro azul atrás de si.
Eu voltei para a praia e vesti minhas roupas. Eu precisava secar meus cabelos antes de pensar em voltar até o evento.
E para o meu azar, o evento terminou antes que eu voltasse. Christian estava entrando na pensão quando me viu.
— Relaxa, eu disse ao Christopher que você teve uma "emergência feminina". — fez aspas com os dedos. — Ele disse que estaria no farol.
— No farol? — arregalei os olhos. — Onde dá pra ver a costa de Seacity com muita clareza? — estaria eu ferrada?
— Mas se ele não acendeu a lanterna, não viu nada. — tentou me tranquilizar.
— Eu vou até lá, mas antes eu vou secar o meu cabelo. — corri até meu quarto, sequei meu cabelo com o secador e corri até o farol.
Subi as escadas bem rápido e vi Christopher do lado de fora, apoiado na varanda e olhando diretamente para o oceano.
Com muito cuidado, eu fui até ele e toquei em sua mão. Ele me olhou sério e depois voltou a observar o mar.
— Desculpe ter ido embora, você estava ocupado e eu tive um "imprevisto feminino".
— Tudo bem, o Christian me disse. — ele não parecia bravo, parecia mais assustado.
— Qual o problema?
— Dulce, você está vendo aquilo? — ele apontou para o mar. — Tem um rastro rosa. Me diz que não sou só eu que estou vendo essa luz. — realmente, o lugar onde eu havia passado tinha um brilho que desaparecia aos poucos. Aquilo era o que a energia da lua da meia noite fazia com nossas caudas. Por isso era tão especial que uma sereia iniciasse sua jornada sob essa lua.
— Rastro rosa? — eu franzi a minha testa. — Eu... não vejo nenhum rastro... — menti.
— Será que os meus remédios estão parando de fazer efeito? — colocou as mãos na cabeça. — Eu fico vendo essas coisas relacionadas ao mar... sério, parece que uma criatura mágica passou por ali! Eu queria que você pudesse ver.
— Ei, olha pra mim. — segurei o rosto dele entre minhas mãos. — Para de martelar isso na sua cabeça. Você está indo muito bem no tratamento.
— Mas Dulce, eu não evoluí em nada! — seus olhos se encheram de lágrimas. — Estou cansado de me sentir um louco!
— Você não é louco! Só passou por muita coisa.
— Muita gente passa por muita coisa e não enlouquece! Por que eu? Por que comigo? — ele me abraçou, começando a soluçar em meu ombro.
Eu me sentia totalmente culpada por ele se sentir tão m*l. Christopher nem sabia que tudo o que viu era real. Colocava em si a responsabilidade de se achar louco, quando a sua loucura era mais verdade do que qualquer outra explicação que tenham dado sobre o acidente.
Será que era justo eu usufruir do amor que ele me dava enquanto escondia que eu era a responsável por ele ter perdido alguém que tanto amava? Talvez ele fosse me odiar se soubesse que eu o conquistei mesmo tendo noção da coisa horrível que fiz.
— Quer sair daqui? — perguntei. — Eu tenho sorvete no meu frigobar, podemos ficar acordados até a hora que você quiser.
— Claro. — ele limpou o rosto e assentiu. — Só preciso pegar meu remédio em casa.
— Ok, a gente passa lá. — estendi minha mão para ele.
Saímos do farol e fomos até a sua casa. Ele pegou seu remédio, uma roupa mais confortável para dormir e seguimos para a pensão.
Assim que chegamos, eu decidi ir tomar banho e ele me acompanhou. Tomamos banho e nos tocamos de forma carinhosa, sem nada com cunho s****l. Ele passou shampoo em meu cabelo, massageando a minha cabeça de leve, passou sabonete em minhas costas, barriga, braços e todo o resto do meu corpo.
Eu fiz o mesmo, usando uma esponja para espalhar a espuma por sua pele. Quando lavei seu cabelo, ele se agachou, brincando comigo pela minha altura não tão alta.
E enquanto eu massageava sua cabeça, fui dando vários beijinhos por seu rosto, passando pelas bochechas, testa, queixo e finalmente a sua boca.
O beijo foi ficando mais intenso, até o momento em que ele segurou minhas pernas e me ergueu, me colocando contra a parede. Christopher me penetrou ali mesmo, sussurrando ao meu ouvido o quanto eu era gostosa e o quanto ele gostaria de me f/oder.
A sensação de nossos corpos molhados deixava tudo ainda mais excitante, me obrigando a gemer o quanto pudesse. Ele aumentou os movimentos e por um momento, pude ver seus olhos tremeluzirem, enquanto ele me encarava com a testa franzida. Era difícil não deixar Christopher em transe sem querer quando nós transávamos. E era por isso que eu tinha que beija-lo durante todo o ato.
E depois de um banho que durou mais do que o esperado, nós ficamos deitados na minha cama, devorando um pote de sorvete, jogando conversa fora e trocando beijos e carícias. Eu faria o possível pra deixá-lo confortável. Eu sei que ele não esqueceria tão fácil de tudo o que o machuca, mas podia pelo menos aprender a conviver com isso sem nenhuma dor.
Quando decidimos dormir, eu o vi ingerir quatro pílulas de seu medicamento. Questionei se não era demais, mas ele disse que estava fazendo o que o tratamento mandava.
Medicamentos como aquele e os outros que ele tomava, tinham efeitos colaterais bem irritantes. Saber que ele tinha que lidar com aquilo sem precisar, me incomodava muito.
Ele deitou em meu peito e eu fiz cafuné em seu cabelo até que adormecesse. O observei por algumas horas antes de decidir dormir um pouco também.
Acordei por volta das nove da manhã, num domingo nublado e frio.
Christopher ainda dormia sobre mim e eu o balancei para acordar, mas ele não se moveu.
— Christopher? — o chamei e nada. — Ei!? — o coloquei ao lado e olhei bem atenta para o seu rosto. Ele estava com os lábios pálidos e uma espuma branca descia pelo canto de sua boca. — CHRISTOPHER??? — gritei desesperada.
Levantei correndo, peguei meu celular e liguei para a emergência. Eles pediram para eu olhar o pulso dele, que parecia fraco.
Enquanto a ambulância não vinha, eu continuava tentando acorda-lo como podia.
Em dez minutos eles estavam lá. Os paramédicos o colocaram numa maca e eu fui segurando sua mão durante todo o caminho. Eu estava apavorada e com medo de que algo r**m estivesse acontecendo com ele.
Os paramédicos me disseram que ele estava com sintomas de envenenamento e eu logo relacionei isso aos quatro comprimidos que ele havia tomado antes de dormir. Será mesmo que aquela era a dose correta?
No hospital, eles o levaram para uma sala, para fazer uma limpeza estomacal. Aproveitei esse tempo para avisar aos irmãos dele o que acontecia.
Os dois chegaram ao hospital e entraram correndo, com uma expressão muito preocupada.
— Onde ele está?? — Maitê segurou meus braços. — Ele está bem??
— Eu não sei... May, aqueles remédios que o Christopher toma... quantos comprimidos ele tem que tomar à noite?
— Um antes de jantar e dois antes de dormir, por que?
— Dois? Dois antes de dormir? — arregalei os olhos.
— Dulce, quantos comprimidos ele tomou?? — Alfonso perguntou.
— Quatro... — fechei meus olhos.
— O que!? — Maitê se desesperou. — Eu quero ver o meu irmão! — ela foi até a recepção e Alfonso a seguiu. — Me deixem ver o meu irmão! — Maitê estava descontrolada, gritando com todos enquanto Alfonso tentava segura-la.
Eu só consegui ficar paralisada, abraçando o meu corpo enquanto amaldiçoava a mim mesma por ter entrado na vida dele. Se eu não tivesse aparecido, Christopher com toda certeza estaria muito mais feliz e sem colocar a própria vida em jogo.