Ferrugem Narrando
- Naquele dia… eu tava no modo fantasma. Dentro da caminhonete, vidro meio fumê, chapéu socado na cara, óculos escuro… disfarce de responsa. Quem batesse o olho não via nada além de mais um rodando.
- Mas por dentro… Eu tava no veneno. Postura reta, olhar girando igual radar. Cada canto, cada movimento… tudo na mira. Aqui é um erro e já era… é vala!
- O morro cuspindo gente pra baixo. Um monte de trabalhador descendo com marmita, cara fechada, indo se matar de trabalhar. Soltei um riso seco, escravidão moderna, tá ligado… Balancei a cabeça devagar, olhando aquilo tudo. Mas minha mente tava em outra parada. Essa Rocinha… é linda demais, papo reto. Olhei lá pra cima, os becos, as lajes, o emaranhado todo. E ainda vai ser minha… nem que seja na marra.
- Aquilo ali não era só território, era ambição, era poder, era meu nome sendo falado com respeito… ou com medo. Fiquei só na atividade, quieto, na contenção invisível. Olho treinado não pisca. Até que…Uma Mitsubishi preta encostou lá embaixo, do nada! Meu corpo já ficou duro na hora. Ih… qual foi?
Endireitei no banco, sem dar pala. Pé já no jeito pra acelerar ou rasgar fora. Mas o carro ficou lá, parado. Ninguém descia.
- Tá armando pra mim? O clima pesou na hora. Eu senti. Se for bote… vai ter troco.
Esperei, segurei, só observando. Até que a porta abriu e quando eu vi… Ah não… tá de s*******m… Dei um sorriso torto, cheio de maldade. O baba-ovo do GB!
- Mas não tava sozinho não, desceu uma mulher… E que mulher, c*****o! Olhei melhor, desacreditado. Postura firme, presença forte… não era qualquer uma.
E junto, uma criança.
- Naquele momento eu até franzi a testa.
Pera aí… que p***a é essa? Vi ele indo lá, beijando as duas, mó ceninha de família feliz. Aquilo me deu foi ódio. Olha o chefão pagando de paizão agora…
Passei a mão no queixo, pensando rápido.
Eu tava dormindo, só pode…Nunca tinha visto isso. Nunca.
- E aí a ficha começou a cair, essa mina não é qualquer uma não, olhei mais uma vez, atento nos detalhes. É a mulher dele!
Meu olhar mudou na hora. E essa menor… é filha, um sorriso frio brotou no meu rosto. Achei!! Ali… naquele exato momento, o jogo virou pra mim. Elas atravessaram a rua, distraídas, esperando carro. Era naquele momento ou nunca.
- Movi a caminhonete de leve, tentando cortar visão da barreira, dos cria, de geral.
Tudo calculado. Só que deu r**m. Num piscar de olho, o desgraçado sacou.
- Aí foi só ladeira a baixo, o primeiro tiro cantou. Senti o braço queimar na hora. Xinguei eles até a quinta geração de tanto ódio. Foi de raspão, mas já acordou o demônio dentro de mim. Pisei fundo a caminhonete gritou, mas já senti puxando torto. Pneu furado… que beleza, foi o verdadeiro caos hahahahah.
- Era muito tiro, mais grito, mais bagulho estourando. Mas eu não ia cair ali não, me salvei. Saí rasgando, mesmo com o carro zoado, desviando, jogando de um lado pro outro. Adrenalina no talo, coração batendo no pescoço. Mas antes de sair também deixei minha lembrança lá. Tenho certeza!
- Agora toda vez que lembro dessa cena fico rindo, mas no dia gelei Hahahaha… O olhar fixo, mente já trabalhando. Agora eu sei quem ela é, e sei onde o GB sangra.
Agora é um dia aqui… outro ali. Dormindo m*l, comendo qualquer coisa, dinheiro curto. Vida de foragido é pressão 24h, não tem descanso, mas dentro de mim… Só cresce uma coisa, a guerra. E ela tá vindo pesada, eu tô sentindo. Dessa vez não tem meio termo, é tudo ou nada. Já perdi demais nessa caminhada. Agora eu vou deixar rastro, dor, desespero. Por onde eu passar. Porque agora não é só disputa não… É acerto de conta. E eu não esqueço e nem perdoo. Ah Maria, você não sabe o que te espera.
- Estou em contato com Glaucia e Fael, Glaucia me procurou, não sei como essa p**a achou meu número. Uma mulher rejeitada está disposta a qualquer tipo de coisa né, que doideira. Mas não confio nela, mulher burra e caidinha por aquele o****o, não vai me ajudar em nada, só me prejudicar. Fael volta pra Rocinha, vai me passar a visão de tudo e se o maior lá de cima quiser, o morro será meu!