Maria Clara Narrando
- Eu não sou mais a mesma… e eu sinto isso em cada detalhe. No jeito que eu olho pra rua, no jeito que meu coração dispara por qualquer coisa, no medo que não desgruda de mim nem quando eu tento fingir que tá tudo bem. Depois de tudo que aconteceu… parece que a paz virou uma lembrança distante.
- Aquele homem… não dá nem pra chamar de gente. É maldade pura, fria, sem limite. O que ele fez com a Bianca e com a Eloah… ficou gravado em mim de um jeito que eu não consigo apagar. Às vezes eu fecho os olhos e parece que eu tô vendo tudo de novo… e isso me destrói por dentro.
- Eu vivo em alerta, não saio sozinha, não facilito, não confio. Quando preciso ir no posto, o Bernardo vai comigo, sempre. Ele tenta disfarçar, mas eu sei que tá tão tenso quanto eu. Só que agora… não é só medo por mim. São meus filhos, são duas vidas crescendo dentro de mim, que dependem de cada decisão que eu tomo. E isso muda tudo!
- Porque antes, se acontecesse alguma coisa comigo… era só eu, agora não. Agora eu tenho muito a perder. Muito mais do que eu consigo suportar imaginar.
A Bianca… sumiu. E essa ausência dói mais do que eu esperava. Não sei se ela me culpa, se ela sente raiva, se ela só quer esquecer tudo… mas a gente se perdeu. E isso me corta. Porque, no fundo, eu queria ela perto. Queria que a gente enfrentasse isso juntas, como sempre foi.
- Eu tentei… juro que tentei. Mas ela se fechou num mundo que eu não consigo alcançar. E talvez ela ache que eu não entendo… mas eu entendo mais do que ela imagina. Eu também tô quebrada. Eu também fui atingida por tudo isso.
Quando o Bernardo me contou sobre os nossos filhos… foi como levar outro choque. Meu corpo travou, minha mente entrou em pânico… foi medo, desespero, tudo ao mesmo tempo. Eu achei que não ia aguentar.
- Mas aí veio o alívio. Saber que eles estão bem… que estão fortes, saudáveis… que estão lutando aqui dentro comigo… me fez respirar de novo. Eu nunca agradeci tanto na minha vida, nunca senti um amor tão grande por algo que eu nem vi ainda. E no meio desse caos todo… tem ele, Bernardo.
- A gente não seguiu nenhuma regra. Não teve começo certo, não teve etapas, não teve nada do que dizem que tem que ter. Simplesmente aconteceu. Ele me escolheu… e ficou. E eu… fiquei também.
E, de alguma forma, isso virou tudo. Ele vive como se não tivesse amanhã… e isso me assusta. Mas, ao mesmo tempo, me puxa. Porque com ele tudo é intenso, tudo é verdadeiro, tudo é agora. E eu me peguei vivendo assim também… sem freio, sem proteção, só sentindo.
- Eu amo ele. De um jeito que às vezes dói. De um jeito que aperta o peito, que tira o ar… mas que também me faz sentir viva.
Ele cuida de mim… me protege… me entende até quando eu nem sei o que eu estou sentindo. Aguenta meus surtos, minhas inseguranças, meus dias ruins… e ainda me olha como se eu fosse a coisa mais linda do mundo.
- E isso… me desmonta completamente. Mas a verdade é que a paz ainda não chegou. Porque enquanto aquele desgraçado estiver vivo… a gente nunca vai estar seguro de verdade. Amanhã é a ultrassom… e eu queria estar só feliz, só ansiosa pra descobrir se são meninos, meninas… qualquer coisa assim. Mas não dá. Porque junto com a felicidade… vem o medo.
- O morro já sabe, minha barriga não esconde mais nada. E eu me sinto exposta… vulnerável… como se tivesse um alvo nas minhas costas. Porque eu sei que não é só o Ferrugem. O Bernardo carrega uma vida cheia de inimigos… e eu virei o ponto fraco dele, eu e os nossos filhos.
- E isso me dá um pavor que paralisa.
Eu não queria viver assim, não queria que o amor viesse com esse peso. Mas veio. E agora eu tenho que ser forte. Não só por mim… mas por nós.
- Ele quer colocar alguém pra me ajudar em casa… mas eu não consigo aceitar. Cuidar do nosso lar, da nossa rotina… é o que me mantém firme. É o que me faz sentir útil, viva… no controle de alguma coisa. É a minha forma de amar.
- Tem dias que eu não suporto ele… tudo me irrita, tudo me cansa, mas tem outros… que eu só quero ele perto, grudado, como se o mundo lá fora não existisse.
- A gravidez mexe comigo de um jeito que eu nem reconheço, eu me olho no espelho e às vezes não me gosto. Me sinto grande demais, diferente demais… distante de quem eu era. Mas aí ele me olha… E naquele olhar… eu me reencontro.
- Pra ele, eu sou linda. Sou desejada. Sou tudo, e isso me faz acreditar… mesmo que só por um instante. E quando ele fala aquelas coisas sem filtro, perversas daquele jeito dele. Eu fico entre o choque e a risada. Esses dias mesmo, disse que vai sentir saudade de me comer grávida… Eu juro… eu não tenho estrutura nenhuma pra esse homem. Nenhuma!