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Maria Clara Narrando Fiquei muito p**a com esse s*******o. Quer me cobrar satisfação, mas ele mesmo não dá, o i****a. Bandido é tudo igual mesmo e eu não vou cair nessa. Se ele faz, eu faço pior. A melhor hora sempre será a minha e, pelo visto, ele tá vendo bem que eu não sou nenhuma otária de ficar em casa esperando ele voltar, enquanto o bonito anda por aí. Jamais! Cheguei em casa e não queria nem assunto. Viemos discutindo muito, eu já estava meio alterada, então falei um monte e tô nem aí. Não custava nada falar que iria resolver coisas na boca ou o c*****o que fosse, ou também não falar nada — só não me cobrasse. Se me cobra, tá me dando a liberdade de fazer o mesmo. Mas tirando tudo isso, o bar foi maravilhoso e com certeza voltarei lá mais vezes. Lá onde eu morava não tinha nada disso, era uma favela morta. Aqui não preciso nem sair da comunidade para ser feliz, estou vivendo tudo o que não vivi lá no Jorge Turco. Só de lembrar daquele lugar me corre um frio na barriga. Óbvio que fui muito feliz com meu pai e tenho muitas memórias boas, mas infelizmente as boas não suprem as ruins. Não quero nunca mais ter que voltar pra lá, nem de visita. Entrei no meu quarto, tomei um banho e nem dormir com ele eu ia. Depois fiquei jogada na cama mexendo no celular. Passado um tempo, o bonito veio atrás de mim. Discutimos mais uma vez e depois basicamente nos entendemos. Sei que pra ele é difícil, nunca teve ninguém pra dar satisfação, sempre foi dono de si — ou melhor, as pessoas que davam satisfação a ele. Mas comigo não é diferente: se ele nunca precisou dar satisfação, eu também não, além do meu pai, claro. É tudo novo para ambos, então ele também tem que se colocar no meu lugar. Quando ele disse que não tinha nem mãe e nem pai para dar satisfação, o clima pesou legal. Fiquei com o peso na consciência, não vou mentir. Tadinho, fiquei com maior dó, cara. Pelo menos tive meu pai, né? Ele se foi, mas as memórias estarão comigo sempre no coração. Agora ele, nem memórias tem dos pais, é pesado! Fui para o quarto com ele, um pouco emburrada, mas fui. E como dois safados que somos, transamos a noite inteira que Deus deu. Depois fiquei com peso na consciência por não estar com o DIU e nem ter usado preservativo. Ele não aceitou usar, disse que com a mulher dele não existe isso. p**a da rua é uma coisa, agora eu não. Agora tu ver, só não arrumei uma briga porque estava louca por ele e o t***o sempre fala mais alto. Infelizmente, sou uma tremenda safada. Depois dormimos exaustos e bem agarradinhos. Entrei em um sono profundo, estava cheia de cachaça também, pelo menos a cabeça não ficou rodando. Ainda estava no meu sono, mas escutava alguns barulhos de tiro. Não sabia diferenciar se era sonho ou realidade, acho que ainda estou bêbada, meu Deus. — Maria, acorda! Você precisa ir correndo pro cofre, estão invadindo e eu não sei quem é. — Falou ele, me cutucando para acordar. — Como assim, alguém invadindo? — Perguntei, levantando num pulo. — Não sei quem é, vamos logo. — Disse ele correndo pro closet e pegando algumas coisas. Depois abriu uma outra porta que eu nem sabia que existia, parecia tudo parede. Saiu de lá com fuzil, munição e colete à prova de balas. Desci com ele para o tal do cofre, mas com a cabeça a mil. É inevitável não chorar. Será que é aquele cara querendo me pegar? Meus medos me assombraram de uma forma surreal e eu tremia toda. Chegamos no cofre e ele olhou pra mim, vendo que eu estava chorando. — Fica tranquila. Se for ele, ele morre hoje. Tu nunca mais vai parar nas mãos dele, pode confiar no teu homem. — Falou me dando um beijo. — Deus te ouça, obrigada por tudo. — Disse abraçando ele, e ele retribuiu com um selinho. Entrei no cofre e fiquei mexendo no celular para distrair a mente, estava num estado de nervos horrível. Esse cara é muito maquiavélico. Se ele não conseguir me achar, vai tentar usar meu ponto fraco e acredito que ele já saiba qual é. Que inferno de vida! Quando penso que vai ficar tudo bem, sempre acontece alguma coisa. Esse infeliz precisa morrer para eu ter paz e não ter mais esse medo absurdo. Ninguém merece viver dessa forma que eu vivo a minha vida, sempre com medo, perdi o direito de ir e vir, não consigo mais ter uma vida além da Rocinha. Sou muito grata ao Terror por isso, se não fosse ele, nem isso aqui eu teria. Eu nunca vou entender como alguém consegue querer ficar com uma pessoa que te rejeita e tem repulsa por você, não entra na minha mente. Tenho nojo do Ferrugem, daquela cara de psicopata e abusador, aquele bigode asqueroso e cheiro fedorento. Só de lembrar meu estômago embrulha. Peço a Deus que proteja o Terror e seus soldados. Esse cara passou de todos os limites, invadiu na hora que as crianças estão indo para a escola. Ainda bem que não tem turistas a essa hora, por ser muito cedo, eu acho, né? Não sabia nem o que pensar, resolvi mandar mensagem para a Bianca para saber se estava tudo bem com ela e a Eloah. Nessas horas a gente fica preocupado com todos. WhatsApp On — Amiga, está tudo bem aí? — Eloah não para de chorar, o barulho dos tiros está assustando ela. — Eu imagino, é só uma criança. — Verdade, você acha que é polícia? Porque eu não acho. — Também não, amiga. Acho que é o cara que me manteve em cárcere. — Você está aonde? Precisa se esconder. — Estou segura e no cofre. — Também estou. Mais tarde vamos se ver. — Tá bom, fica bem aí. Qualquer coisa manda mensagem. — Tá bom, beijo. WhatsApp Off Ainda bem que está tudo bem com elas. Mesmo estando no cofre, é possível escutar os tiros, não tão alto, mas dá para ouvir. Não vejo a hora disso acabar e eu poder ver o Terror. A gente fica com o coração na mão, é complicado. Imagine ser mulher dele, lidar com isso uma vida inteira: medo de invasões, inimigos, ser preso... é muita coisa que vem junto com ele. Tem que amar muito mesmo e eu não sei nem o que sinto na verdade. Gosto de ficar, gosto de estar, sinto ciúmes, sinto tudo o que nunca senti. Mas não sei se é amor, porque nunca amei ninguém, além do meu pai. Espero que ele não esteja envolvido de verdade. Talvez esteja só vivendo e curtindo o momento comigo, nada sério. Se ele matar o Ferrugem, talvez isso acabe hoje.
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