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708 Words
Bianca Narrando Acordei de madrugada e terminei de arrumar todas as nossas malas. Com um nó entalado na garganta, senti como se estivesse voltando anos no tempo, caindo de volta no meu pior pesadelo. Sei que aquele homem já morreu, mas reviver tudo isso é doloroso demais, ainda mais sem a minha mãe ao meu lado para me dar forças. Mas agora não posso pensar apenas em mim; tenho que focar na minha irmã, que é totalmente dependente de mim e perdeu a nossa mãe de forma tão precoce. Depois de tudo pronto, arrumei a casa com carinho; o carro que nos levaria já estava à espera. Ajeitei minha irmã ainda dormindo no colo e partimos. Fiquei parada por um instante, olhando para a casa onde fui feliz por muito tempo, anestesiando a dor que me assolou durante anos. Coloquei as malas no veículo do senhor que nos conduziria, tranquei a porta e deixei a chave no lugar de costume, conforme combinado com a dona da casa. Entrei no carro com a minha irmã ainda aninhada no meu colo, o choro preso na garganta, e iniciamos a viagem de volta para o morro. Não sei o que me espera lá, mas estou convicta de que, no momento, é a nossa melhor opção. Durante todo o trajeto não consegui pregar os olhos; a ansiedade tentava tomar conta de mim a todo custo e eu lutava para não desabar. O motorista percebeu o meu desconforto e ficou me observando pelo espelho retrovisor. — Está tudo bem, menina? — Não, mas vai ficar. — Não sei o que você está passando, mas lembre-se de que Deus participa de tudo isso, você não está sozinha. — Amém. Obrigada pelas palavras. Após longas horas de viagem, chegamos ao Rio de Janeiro, próximo à barreira da Rocinha. O senhor não podia subir e eu entendo perfeitamente; não sei como estão as coisas por aqui e não reconheço mais ninguém. Ele parou na entrada, desci com as malas e a minha irmã, que acordou com o movimento. Paguei ao motorista, que deixou palavras de carinho antes de partir, fiquei emocionada com a sua bondade e me dirigi em direção aos meninos do movimento que estavam na barreira. — Bom dia! Sou a moradora nova. Temos uma casa aqui e voltamos para morar novamente. — Fé, mina. Vamos chamar o sub para resolver essa questão. — Obrigada, fico aguardando. Afastei-me um pouco, mantendo a minha irmã no colo e as malas ao lado. Não demorou muito e o moço, que supostamente é o sub, chegou em nossa direção. — Fé, mina. Foi você que fez a conexão conosco para voltar a morar aqui? — Sim, sou eu mesma. A nossa casa estava alugada, mas a inquilina já saiu e ela está vazia. — Mas por que resolveu voltar a morar aqui? — Minha mãe faleceu e não tive muita alternativa. Agora somos só eu e a minha irmã. — Entendi. Você já sabe como funciona o proceder por aqui, já que foi moradora. Então nada mudou, é só seguir o mesmo proceder para não virar saudade. — Ok. — Quem vai te ajudar a subir com as paradas sou eu. — Obrigada. Fiquei meio sem reação; lembro-me bem dele. Ele é alguns anos mais velho que eu e não imaginava que agora fazia parte do movimento. Mas como poderia saber se eu não morava aqui? Ele carregou as minhas malas para o carro, eu me acomodei no banco de trás com a minha irmã e seguimos. Em pouco tempo chegamos ao portão da minha casa. Uma onda de nostalgia me acertou em cheio, mas segurei a onda para não chorar ali e passar vergonha. Ele descarregou as minhas coisas e deixou tudo em frente ao portão. — De volta às origens. Bem-vinda de volta, gatinha. Qualquer parada, é só acionar. — Disse ele, olhando-me nos olhos e brincando com a minha irmã, que começou a sorrir para ele. — Obrigada mais uma vez. Ele deu as costas e entrou no seu carro. Eu entrei na casa com a minha irmã e senti como se o tempo não tivesse passado: tudo estava exatamente do mesmo jeito, parecia que quem morou aqui não alterou nada da nossa essência.
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