O ódio que estou sentindo não está escrito em lugar nenhum. Se ele não fosse um brocha, teria roubado a pureza da mina. Esse cara é pior do que eu pensava: não é somente um vacilão, ele é um monstro, um estuprador de merda. A raiva que me consome é inenarrável. Tem tanta mulher por aí se oferecendo de graça, não precisa nem fazer esforço, e o desgraçado quer ter que dominar uma menina na força. Fiquei profundamente abalado com toda essa situação, não esperava ficar tão mexido com o sofrimento de outra pessoa, mas uma coisa é certa: ele já tinha a intenção de se apoderar dela há muito tempo. Esperou o pai dela morrer para não ter barreiras e fez o que fez. Não existe dívida nenhuma; se o pai era um homem sério, condutor reto, não bebia e não usava drogas, isso cheira a armadilha, a uma Tróia bem armada. Mas comigo ele está fudido. Quero ver ele tentar chegar perto dela aqui. A tortura que o espera vai ser em grande estilo, esse cara vai provar o verdadeiro significado de sofrer nas minhas mãos, ele não tem ideia do que o aguarda. Só de pensar nas formas que vou inventar para acabar com ele, sinto uma euforia misturada com fúria.
Voltei para a minha casa, que fica estrategicamente posicionada para ter a visão total da residência onde ela está abrigada, são praticamente vizinhas. Fui para o meu quarto, tomei um banho gelado para tentar dispersar os demônios da raiva que insistiam em tomar conta de mim. Coloquei uma cueca box e um short de jogar bola, passei desodorante e fui até a cômoda pegar um baseado; eu preciso fumar, senão vou acabar surtando. A fome passou longe, fui direto para a varanda do meu quarto, de onde domino a vista do morro e da casa dela, e fiquei ali, pensando em vários bagulhos. Sei que o Maior lá de cima não é injusto com ninguém, mas ver uma menina passar por tantas provações em tão pouco tempo é desumano pra c*****o. Não sabia o nome dela, nem mesmo a idade, mas certamente não passa de vinte anos. É pesado, muito pesado. A minha história também não foi fácil, mas sou homem, a dureza bate diferente. Ela é uma menina que a vida forçou a amadurecer na base da porrada. É f**a pra c*****o, sem contar que ela não tinha ninguém para defender ela — mas isso mudou. A partir de hoje, ela tem a mim. E quem tentar cruzar o caminho dela, vai estar cruzando o meu, e vai sofrer as consequências.
Nunca fiquei tão perdido e entregue a uma situação dessas, e olha que já vi de tudo nessa vida. Fico matutando: se eu não tivesse invadido lá, se tivesse esperado ele vir para o confronto, o que seria dela? Ainda estaria sofrendo. Esse cara está muito fudido, a minha sede de ver o seu sangue derramar está mais forte do que eu mesmo.
Já prevejo que essa madrugada vai ser longa. Não sei se ela já se ambientou com o celular. Salvei o contato dela sem nome por enquanto e fui checar se estava online no w******p — e ela estava. Mas me veio um pensamento: com quem ela falaria? Não tem o número de ninguém, não tem contatos. Afastei logo essa ideia da mente; ela não me deve satisfações, a vida dela não é da minha conta, então que se f**a. Mas resolvi mandar uma mensagem, afinal, naquela casa não tem mantimentos e ela pode estar passando fome.
Abri a conversa e mandei logo uma mensagem.
— Fé, mina.
Não demorou e o aparelho vibrou com a resposta.
— Ooooi, tá tudo bem?
— Como tu sabe que sou eu?
— Ué, quem mais poderia ter meu número além de você que me deu o celular e o chip?
— Vai saber né. Você está com fome? Está precisando de alguma parada?
— Comi um miojo que estava aqui no armário, estou bem. Obrigada!
— Esse miojo aí deve ser de mil novecentos e setenta, velho pra c*****o. Amanhã vou mandar levar umas paradas de qualidade para você. Vai tentar dormir!
— Não precisa se preocupar, tenho o dinheiro da rescisão do emprego do meu pai ainda. Só preciso ir no banco tirar uma segunda via do cartão. Mas agora não estou com sono, não consigo dormir, fico tendo pesadelos.
— Você não pode sair do morro. Aqui no alto eu consigo te proteger, no asfalto não tenho esse domínio. Tenta dormir tranquila, estou te vigiando de olhos abertos, aqui ele não entra.
— Então nem vou tentar descer. Só de pensar em voltar para perto daquele lugar eu já fico nervosa. Vou tentar descansar e mais uma vez obrigada, nem sei como agradecer por tudo.
— Não tem o porquê agradecer, faria o mesmo com qualquer pessoa que estivesse na sua situação. Fé aí, mina, boa noite.
— Obrigada mesmo assim. Qual o seu nome para eu salvar aqui?
— Pode me chamar de Terror. E o seu?
— Maria Clara.
— Você é maior de idade?
— Dezessete anos. Mais alguma pergunta?
— Por hora só isso. Boa noite, mina.
— Boa noite, Terror.
Guardei o celular. Não sei explicar porquê, mas ouvir ela me chamar de Terror me incomodou de uma forma estranha. Já o nome dela, Maria Clara… combinou real com ela, soou bonito, maneiro. Dezessete anos, c*****o! Dezessete anos! Fiquei surpreso, ela não parece ter essa idade nem fodendo, carrega uma maturidade de quem sofreu a vida toda. Que doideira.
Fiquei ali remexendo no celular, coisa que eu nem faço direito, e a Gláucia começou a me encher o saco, p**a que pariu. Que mulher chata do c*****o. Não sei o que tá acontecendo, ela não costuma ser assim, não enchia o saco antes. Mas esses dias ela tá impossível, que saco. Nem respondi, deixei quieta. Ela que espere, amanhã vai ouvir um papo reto, daqueles de doer o ouvido, para ela se ligar na responsabilidade e parar de ficar inventando confusão.