Maria Clara Narrando
Que noite agoniante, cara! O quanto eu custei para dormir não está escrito. Fiquei com a cabeça a mil, pensando em mil coisas e cheia de medo de fechar os olhos. Não queria ter pesadelos e incomodar ninguém; não estava a fim de ficar dando trabalho aos outros, daqui a pouco o cara começa a me ver como um peso e essa não é a minha intenção.
Acordei bem cedo, arrumei o quarto todo, tomei um banho rápido, escovei os dentes. Vesti uma calcinha qualquer, um short bem largo e um top. Fiz um r**o de cavalo no cabelo, passei hidratante e desodorante. Desci, preparei o meu café e fui arrumando a casa inteira na parte de baixo. O truque é se manter bem ocupada para não ficar pensando merdas.
Tomei o meu café na santa paz de Deus; como eu amo um cafezinho, cara! A cada gole, me sinto abraçada. É coisa de velho, mas é a sensação que tenho, hahahaha. Terminei de arrumar toda a parte de baixo: lavei banheiros, vidros, a área gourmet, todos os cômodos inferiores, o corredor de cima, as escadas e até os quartos desocupados. Só não vou arrumar o quarto do bonito, ele que se vire, euem.
Já fui adiantando algumas coisas para o almoço, até que o celular apitou e era mensagem da Bianca. Fiquei feliz que ela tenha lembrado de mim, hahahaha.
WhatsApp On
— Bom dia, mana. Se liga nesse flyer que vou te mandar.
— Bom dia, mana. Manda aí.
(Imagem recebida)
— Pagodinho lá no Mirante da Rocinha, começa de tarde e dá super para eu levar a minha irmã. Bora?
— Tô dentro! É hoje?
— Isso, começa às 17h. Se sairmos às 18h já estará ótimo.
— Fechou. Às 18h tô aí na sua casa, me manda a localização. Beijos, até daqui a pouco.
WhatsApp Off
Amo pagode, cara! Vai ser tudo. Quero esquecer um pouco dos problemas, ver caras novas, gente bonita e nem tão bonita, não importa. Só quero ver movimento, hahahaha.
Fiquei distraída mexendo no celular até que o abençoado chega na cozinha com a mesma cara de ontem. Pegou uma xícara de café e me olhou. Não dei um pio, fingi que nem estava vendo ele.
— Bom dia! — Falou, levando a xícara até a boca.
— Quase boa tarde, né. — Respondi, com sarcasmo.
— Privilégios de ser dono de morro. — Disse com uma soberba que só ele tem.
— Pois é, privilégios. Como eu não tenho nenhum, deixa eu terminar de fazer as minhas coisas que daqui a pouco vou pro pagode viver. — Falei, toda feliz e radiante.
— Bom pagode para você. Estou destruído. Hoje só estou existindo. — Respondeu, passando por mim e seguindo para a sala.
— Estou vendo. Brigou até com uma gata, né? — Disse, irônica.
— Gata não, cachorra mesmo, hahaha. Mas como tu sabe? — Falou de uma forma perversa que me embrulhou até o estômago.
— Me poupe dos detalhes. Está todo arranhado, né? — Falei, com total indiferença.
— Tá me reparando muito, não acha? — Disse, sorrindo com aquele sorriso que eu tenho vontade de esmagar a cara dele.
— Olha no espelho. Até uma pessoa míope igual a mim veria. Mas enfim, cada um com suas gatas e cachorras. Deixa eu fazer as minhas coisas. — Falei, dando-lhe as costas.
— Vai lá ver o que tu vai fazer nesse pagode, em. Pega a tua visão! — Gritou ele lá da sala.
— Pode ter certeza que não vou brigar com nenhum gato e muito menos cachorro. Se bem que eu gostaria, hahaha. — Respondi rindo.
— O QUE, MARIA??? — Berrou ele, vindo de volta para a cozinha.
— Ué, não estou morta. Só uns beijos e uns amassos. — Falei, provocando. Óbvio que não vou fazer isso, mas ele quer jogar e eu também sou boa nisso.
— Deixa eu saber pra tu ver se não te deixo com um corte novo que surgiu no Rio de Janeiro a pouco tempo. — Ameaçou, sério, enquanto pegava uma garrafa de água na geladeira. A ressaca, quando não mata, humilha.
— Se manca. Porque eu não posso? Não estou te entendendo. — Disse, firme e autoritária.
— Porque eu não quero. Aqui sou eu que mando, no meu morro sou eu que decido e você não pega ninguém aqui. Falei e está falado! — Gritou, me dando as costas novamente.
— Manda em tudo, menos em mim. Veremos. — Rebati, firme.
— O último que me desafiou está a dez palmos da terra e ao lado do capeta. — Gritou ele da sala.
— Morrer seria um favor que você me faria, coração. Descansa, vai! — Falei e deixei ele falando sozinho.
Sei que talvez tenha sido uma brincadeira com um pouco de verdade, mas fiquei p**a. Quem ele pensa que é? Agora mais do que nunca vou dar uns beijos, sem vergonha nenhuma. O escolhido do pagode só não pode espalhar por aí que eu beijo m*l, senão vai ser horrível, hahahaha. Agora ele vai ver quem eu sou. Tô tomando coragem para tudo nessa vida, até mesmo para colocar cada pessoa no seu devido lugar. Ninguém manda em mim, eu sou dona de mim mesma.