Maria Clara Narrando
Acordei meia sonolenta e com a garganta seca, tossi bastante e fui abrindo os olhos aos poucos e dei de cara com ele. Engoli a seco ao sentir o seu olhar em mim, sei que poderia me julgar, me achar fraca. Mas ninguém está dentro de mim para saber o que estou passando, a forma como o Ferrugem destruiu a minha vida, a minha essência e qualquer chance que eu pudesse encontrar de ser feliz. Meus olhos ficaram marejados, mas me controlei ao máximo para não chorar e encarei ele com a mesma intensidade e o mesmo quebrou o gelo e falou.
— Eai, como você está? — Disse meio desajeitado, se aproximando da cama.
— Pronta pra outra. — Falei, dando um sorriso irônico.
— Tu não é maluca. Se fizer isso novamente, vou te levar pras ideias, vai tomar umas madeiradas pra ficar tranquila. — Disse, bagunçando o meu cabelo com um toque suave.
— Acho que um tiro resolveria. — Falei, rindo de forma triste.
— Tu só fala merda em, cara. Para com essas ideias tortas. Independente de qualquer parada, a vida é bonita pra c*****o — ele insistiu — vale a pena viver! Problemas vamos ter todos os dias, o que muda tudo é a forma de enfrentá-los: murmurando ou de frente. Não estou anulando o que tu tá sentindo, tlg? Até porque só quem passa sabe. Mas a forma que tu encara o seu problema pode mudar todo o proceder. To contigo, tu não tá sozinha não. E o seu coroa está lá de cima olhando por você — ele me olhou intensamente — pode ter certeza que ele ficou pistola de ver o que tu fez hoje. Ele te fez uma mina f**a e forte, não desista de tudo por um comédia não. Ferrugem tá com os dias contados, você pode apostar nisso.
Não consegui evitar o choro; as lágrimas vieram rolando sem controle.
— Eu não tenho palavras para te agradecer por tudo. Sei que meu pai não ficou feliz com o que fiz, mas ninguém entenderia o meu nervosismo e desespero. Mas já passou e eu nunca mais vou fazer isso. Ferrugem está nas mãos de Deus — desviei o olhar dele — eu mesmo não posso contra ele, só Deus.
— É isso aí, bola pra frente. To contigo, você é a minha protegida. — Disse, olhando meus olhos novamente. Percebi que ele ficou um pouco sem graça com o que acabara de falar.
— Você está sendo um anjo que Deus colocou no meu caminho. Se não fosse você, eu estaria ainda lá, sofrendo. Acho que qualquer agradecimento é pouco perto do que você tem feito. Nunca vou conseguir te retribuir por isso, mas Deus vai. — Falei, sentindo um alívio enorme no peito. A frase "minha protegida" foi como um balmão no meu coração, algo que eu não sabia que precisava ouvir.
Ficamos assim conversando um bom tempo, sobre coisas aleatórias — nada de sério, nada que fizesse o meu peito apertar. Acabei adormecendo novamente; parece que meu corpo já não responde mais aos meus comandos de não dormir. Estou compensando todo o sono que perdi durante esses últimos tempos, meu corpo chega a doer de tão cansada que estou. E não é só cansaço físico: é o cansaço mental, que parece ter se acumulado por meses. Fui me adormecendo devagar, e a última coisa que ouvi foi ele falando no rádio com alguém, comentando sobre uma moradora nova.