Viviane Narrando
- Morar na Rocinha sempre foi tipo… um sonho impossível pra mim. Coisa distante, sabe? E agora eu tô aqui. De verdade. Pisando, vivendo, respirando esse lugar. E, cara… isso aqui é vivo. Tem cor, tem brilho, tem gente sorrindo mesmo no meio do caos. É bonito de um jeito que não dá pra explicar. Fiquei igual uma i****a, olhando tudo, absorvendo cada detalhe… parecia até mentira.
- A gente chegou ontem… tava tudo fluindo tão bem. Leve. Gostoso. Até eu descobrir que vou ter que dividir teto com aquele desgraçado do Fael. Mentiroso, safado… acha que me engana.
- Mas ele vai me pagar. Ah, vai. Aqui mesmo eu me viro, arrumo um trampo, junto meu dinheiro e pego a primeira casinha que aparecer. Ele tá achando que vai me manter presa aqui? Tá muito enganado.
- A casa dele… eu tenho que admitir. É linda. Tudo no lugar, organizado, com gosto. Só tava meio abandonada, cheia de poeira, cara de casa fechada. Mas nada que uma boa faxina não resolvesse — e claro, eu resolvi. O quarto dele parece até capa de revista… agora o outro? Um colchão jogado e só. Mas é ali mesmo que eu vou ficar. Dormir com ele? Nem se ele implorar de joelho.
- Sou grata, sim, pelo que ele fez por mim no passado… mas não apaga as merdas que ele falou. Aquilo ficou. Machucou. Ele me julgou sem saber de nada. Nada! Não conhece minha história, minhas dores, o tanto que eu já lutei pra sobreviver. Falou como se soubesse… e não sabe p***a nenhuma.
- Só que… no fundo… eu sei. Ele não é r**m. Ele só se esconde atrás dessa marra, dessa casca grossa. E olha… conviver com ele tá sendo um teste de resistência, porque o homem é um absurdo. Lindo não… ele é s*******m de bonito. Um pecado em forma de gente. Mas comigo não é assim não. Não sou fácil. Vai ter que suar muito pra chegar perto.
- E outra, tô ligada como isso funciona. Aqui ele é cria, conhece todo mundo… daqui a pouco tá cercado de suas mulheres, ou melhor, marmitas. Cheio de contatinho, esquecendo que eu existo. Então eu já tô vacinada. Não caio nesse papo. Não sou qualquer uma!
- Arrumei a casa inteira. Mas arrumei com gosto, sabe? Me entreguei mesmo. Até aspirador de chão tem aqui… chique demais. Fiquei até rindo sozinha, fingindo costume. A dona de casa que existe em mim tava realizada.
- Só que, por enquanto, a gente tá sobrevivendo de lanche… porque o bonito ainda não decidiu ir no mercado comigo. E sozinha eu não vou. Não vou comer sozinha. Então enquanto ele não se mexer, vai ficar nessa também. Justo!
- De ontem pra hoje, dormimos no sofá. Eu de um lado, ele do outro. Fiquei vendo filme, ele chegou da rua, se enfiou ali do meu lado como quem não quer nada. Lanchamos e ficamos ali mesmo. Mas ó… viver de lanche? Nem fudendo. Isso aqui não vai virar bagunça, não.
- A casa tá um brinco agora. Impecável. Só não mexi no quarto dele… porque aí já é demais, né? Não sou empregada dele, não. E quer saber? Ele vai se arrepender. Todo santo dia. De ter me colocado aqui dentro. Porque ele não faz ideia com quem tá mexendo…
- Eu sou o caos organizado, meu amor.
E ele vai descobrir isso da pior ou da melhor forma possível.