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1027 Words
Maria Clara Narrando Essa casa é bem grande, embora esteja um pouco suja; percebo que deve estar vazia há algum tempo. Fiquei surpresa com o celular, não esperava por esse gesto, mas vai ser bom para poder me distrair e voltar a ter contato com o mundo normal, já que durante meses não tive acesso a nada disso. Quando ele me chamou para conversar, fiquei surpresa por ele já ter o meu número, mas depois entendi tudo: se ele me deu o aparelho e o chip, é claro que ele tinha acesso ao número. Não tenho roupas nem coisas pessoais aqui. O banheiro até tem alguns itens de higiene, então vou tomar um banho e vestir a mesma roupa por enquanto. Preciso ir ao banco resolver a questão do meu dinheiro, não dá para ficar sem as minhas coisas, sou mulher e tenho as minhas necessidades. Imagine se eu ficar menstruada? Não sei nem o que fazer, que caos. Aproveitei que estou sem sono, como sempre, e comecei a arrumar a casa de madrugada mesmo. Outra coisa que vou precisar tratar é a questão do sono: não consigo dormir de jeito nenhum porque tenho pesadelos com aquele homem c***l me tocando, sempre fico alerta achando que ele pode tentar algo, então dormir se tornou impossível para mim. Meu corpo está exausto, a minha mente pede paz, mas mesmo assim não consigo descansar, mesmo sabendo que, por hora, estou fora de perigo. Nem comer eu como direito, e olha que eu era uma pessoa que comia bem, chega a ser louco pensar em como a minha vida mudou de uns tempos para cá, mas tenho sobrevivido. Arrumei a casa inteira, troquei os lençóis e deixei tudo em ordem. Tomei outro banho e fiquei deitada mexendo no celular, vendo vídeos e memes. O céu já estava claro e eu sem dormir; não há o que fazer, realmente não consigo pegar no sono, mas uma hora o cansaço vai me vencer e eu não vejo a hora de isso acontecer. Se continuar assim, vou acabar ficando doente, e eu não tenho ninguém para me ajudar. Levantei com a esperança de encontrar um pouco de pó de café aqui, tomara que tenha. Eu sou apaixonada por cafezinho, amo. E para a minha sorte tinha! Nem me atrevi a olhar a validade para não desistir de fazer; preparei um café e estava uma delícia, quentinho, forte e no ponto. Tem algumas coisas na cozinha, mas vou precisar fazer uma compra, mesmo que mínima, não posso viver de café e vento. Peguei o celular e vi que já eram seis e meia da manhã. Já dava para escutar o movimento das ruas, a favela acordando, os cheiros de café subindo pelos quintais e o barulho das crianças indo para a escola. Esse lugar aqui é quase um paraíso, tem cheiro de vida, cheiro de gente feliz e de recomeço. Pelo menos é o que eu espero. O Terror não tinha me mandado mensagem ainda, então resolvi escrever. Até porque preciso muito ir ao banco resolver essa situação e preciso da autorização dele, já que foi ele quem me deu abrigo. Não posso sair por aí como uma doida, sem aviso. Não quero dar motivos para esse homem me pôr para fora daqui e eu acabar caindo nas mãos daquele cão novamente. Queria tanto descobrir que dívida é essa do meu pai. Tento entender, mas é impossível. Meu pai era um homem muito correto, nunca se meteu com nada ilícito, essa conta não fecha para mim. Ou eu não conhecia realmente o meu pai, mas acho isso impossível. Ou alguém armou para ele, também existe essa possibilidade. Mas de qualquer forma, nada justifica esse psicopata me tomar como forma de pagamento. É algo surreal, parece coisa de novela, mas não. É a p***a da minha vida! Tomei um banho para espantar o cansaço, já que não consigo dormir e os meus olhos estão pesados. Depois do banho, mandei mensagem para o Terror no w******p. — Oi, bom dia. Preciso ir ao banco, tenho que comprar algumas coisas para cá e itens pessoais. — Bom dia, mina. Qual foi? Tá acordada essa hora? Vou resolver essa parada. — Não dormi, mas estou bem. Obrigada! — Que doideira. Ele tem sido bastante legal comigo, e eu não esperava isso de pessoas como ele. A experiência que tive com quem vive no mundo do crime não foi muito boa, mas acredito que independente de ser do movimento ou não, o que define uma pessoa é o seu caráter. O Ferrugem não tem caráter, isso não quer dizer que todos sejam assim. Não gosto de ficar pensando nele, pois só de lembrar me corre um arrepio na espinha, e vem logo à memória tudo o que passei nas mãos daquele i*****l. Resolvi capinar o quintal já que não tenho nada melhor para fazer. Até que estou gostando de ter o celular, mas não dá para ficar o dia todo vendo a vida dos outros. Sinto uma falta enorme da minha vida de antes e principalmente do meu paizinho, que foi o meu alicerce durante muito tempo. É horrível se sentir sozinha, e não só se sentir, mas ter a certeza de que é sozinha. Sou eu e eu nessa vida, e vai ser assim para sempre. A vida tem sido injusta comigo, mas vou dar a volta por cima e vencer. Isso vai ser o meu pedido de desculpas para mim mesma, por ter aguentado tanto. Não sou de me vitimizar, mas confesso que nunca imaginei passar por tudo isso e da forma que foi. Mas uma hora essa tempestade passa; enquanto isso, vou dançando na chuva. Desci até o terreno e peguei a enxada, algumas sacolas que achei, uma vassoura e a pá. Coloquei a música do Orochi para tocar. Amo essa canção, por mais que eu não seja nada sexy, hahaha e comecei o serviço. Agora me chamem de Grizelda Pereirão, porque comigo não tem tempo r**m, faço tudo o que for preciso. Quando tudo isso passar, quero vender algumas coisas na praia, colocar em prática todos os planos que eu tinha antes desse pesadelo acontecer.
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